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O verbo e a verba

Leonardo BrantgravatarcloseAuthor: Leonardo Brant Name: Leonardo Brant
Email: leonardo@brant.com.br
Site: http://www.brant.com.br
About: Consultor em gestão e políticas culturais, pesquisador e documentarista. Autor dos livros Mercado Cultural, Políticas Culturais vol.1 e Diversidade Cultural (org.), é presidente da Brant Associados, fundador do Instituto Pensarte, do Divercult e do Laboratório de Políticas Culturais. Criou e edita Cultura e Mercado, o mais influente blog sobre políticas culturais do Brasil. Coordena os cursos “O Poder da Cultura”, no Ateliê Brant Associados, e “Gestão Cultural”, na Escola São Paulo. É sócio da produtora de ciberfilmes Deusdará.See Authors Posts (164)
14 junho 2009

Foto: Holly in Transito
Nossa recém-conquistada democracia ainda padece de reconhecimento dos mecanismos de participação,  representação e exercício de poder. Queremos um lugar digno para as artes e para a cultura, mas ainda não sabemos relacioná-los com o Estado em crise, o deusdará do mercado e uma realidade que inclui cidadãos sem direitos, congresso inoperante, judiciário indiferente e controle cada vez mais absuluto dos sistemas financeiro e midiático. Difícil reconhecer quem corrompe e quem é corrompido nessa areia movediça.

Talvez por forte influência de Walter Benjamin e Marshall McLuhan, acredito na arte como forma de libertação. E no artista (do pensador ao poeta) como cidadão dotado de capacidade inequívoca de elevar a sociedade a um patamar de conquista ética. Já não sei podemos nos referir a arte como referiam os dois em suas respectivas épocas, mas ainda vale-nos evocar seus ideias e, sobretudo, protegermo-nos dos riscos e suscetibilidades apontados pelos dois.

Da ameaça nazista à consolidação da “aldeia global”, a arte e os artistas continuam sofrendo sérias ameaças, como nos previne Joost Smiers em “Artes sob Pressão”. E com isso, comprometemos todo o processo civilizatório. Docilizados, afugentados e cooptados por sistemas de poder, distanciam-se de maneira preocupante do indispensável terreno fértil para pensar, denunciar, provocar e projetar mundos e utopias, distantes ou presentes.

Nosso sistema de financiamento às artes mostra-se cada vez mais frágil. Ainda enxergamos o artista como alguém que o Estado precisa proteger e manter. Não o vemos como instância de sustentação de toda a sociedade. Alguém com capacidade de re-significar nosso campo simbólico, liberando-nos a todos dessas mesmas amarras.

A serviço das instâncias de poder, seja Estado, corporação ou mesmo o próprio mercado das artes, o artista não só perde sua capacidade intrínseca de criar, construir, libertar e cooperar, como corre o risco de transformar-se num potente capataz desses sistemas. Por outro lado, pode e deve dialogar com todos eles, até mesmo para ampliar sua capacidade crítica e sua mobilidade por ambientes cada vez mais contaminados.

Democracia se faz com arte, já diz o bordão deste blog. O único despachante da arte é o artista, que pode e deve se valer de profissionais e assessores que garantam os seus direitos e a sua autonomia, indispensável para o exercício de sua função pública (e, porque não, privada).

Deve, por outro lado, agir com repúdio e desconfiança, quando algum governo (seja ele popular ou populista, democrata ou demagogo) pretender colocar-se como o despachante único e universal dos interesses dos artistas. Ao desautorizar a CNIC, minimizar e menosprezar o papel da justiça, obstruir o acesso aos processos admintrativos e exercer seu poder de escolha, veto e direcionamento político à arte e aos artistas que financia, o MinC distancia-se de maneira preocupante do Estado Democrático de Direito.

Vejo com muita desconfiança esses movimentos todos, forjados a partir da manipulação da opinião pública. Para o governo todos estão errados: os produtores são aproveitadores, as empresas oportunistas, os artistas privilegiados, os técnicos atravessadores. Todos são culpados por algo que não funciona única  e exclusivamente por má gestão e  incompetência do próprio governo.

E todos que não conseguem acessar o instrumento, por ausência de Estado e mais incompetência governamental, aceitam de maneira passiva e inerte um discurso conveniente e demagógico, porém perigoso, sobretudo por não encontrar qualquer efetividade na prática dos gestores que proferem tais palavras mágicas.

Em vez de acreditar nessa conversa fiada, devemos lutar por menos impostos para as empresas culturais, asfixiadas pela inoperância, desleixo e inoperância do MinC; pelos investimentos prometidos via Mais Cultura, que aplica míseros 20% das verbas disponíveis para fazer frente ao mercado injusto e concentrador; por um pacote anti-crise, prometido para o fim de maio.

Por dignidade para artistas e agentes culturais de todo o Brasil, cansados da esquizofrênica distância entre o verbo e a verba.

Leonardo Brant (author) disse: A letra de “Rosebud”, de Lenine e Lula Quiroga:

Dolores, dólares…

O verbo saiu com os amigos
pra bater um papo na esquina,
A verba pagava as despesas,
porque ela era tudo o que ele tinha.
O verbo não soube explicar depois,
porque foi que a verba sumiu.
Nos braços de outras palavras
o verbo afogou sua mágoa, e dormiu.

Dolores e dólares…. rosebud

O verbo gastou saliva,
de tanto falar pro nada.
A verba era fria e calada,
mas ele sabia, lhe dava valor.
O verbo tentou se matar em silêncio,
e depois quando a verba chegou,
era tarde demais
o cádaver jazia,
a verba caiu aos seus pés a chorar
lágrimas de hipocrisia.

rosebud, dolores e dolares…

Cultura: chave-mestra da sociedade

Leonardo BrantgravatarcloseAuthor: Leonardo Brant Name: Leonardo Brant
Email: leonardo@brant.com.br
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About: Consultor em gestão e políticas culturais, pesquisador e documentarista. Autor dos livros Mercado Cultural, Políticas Culturais vol.1 e Diversidade Cultural (org.), é presidente da Brant Associados, fundador do Instituto Pensarte, do Divercult e do Laboratório de Políticas Culturais. Criou e edita Cultura e Mercado, o mais influente blog sobre políticas culturais do Brasil. Coordena os cursos “O Poder da Cultura”, no Ateliê Brant Associados, e “Gestão Cultural”, na Escola São Paulo. É sócio da produtora de ciberfilmes Deusdará.See Authors Posts (164)
27 maio 2009

Foto: Gossamerpromisse
A idéia de cultura, sempre moldada conforme as visões políticas de cada tempo, detém em si as chaves dos sistemas de poder. Chaves que podem abrir portas para a liberdade, para a eqüidade e para o diálogo. Mas também podem fechá-las, cedendo ao controle, à discriminação e à intolerância.

Da mesma forma que o poeta T.S.Eliot inter-relacionava cultura sob a ótica do indivíduo, de um grupo e de toda a sociedade, precisamos reconhecer cultura como uma espécie de plasma invisível entrelaçado entre as dinâmicas sociais, ora como alimento da alma individual, ora como elemento gregário e político, que liga e significa as relações humanas. Perceber a presença desse plasma – ou seja, de uma matéria altamente energizada, reativa e que permeia todo o espaço da sociedade – é fundamental para a compreensão dos fenômenos do nosso tempo.

Cultura é algo complexo. Não se limita a uma perspectiva artística, econômica ou social. É a conjugação de todos esses vetores. Daí a sua importância como projeto de Estado e sua pertinência como investimento privado. Uma política cultural abrangente, contemporânea e democrática deve estar atenta às suas várias implicações e dimensões.

A UNESCO, organismo das Nações Unidas destinada a questões de educação cultura e ciências, define cultura como “um conjunto de características distintas espirituais, materiais, intelectuais e afetivas que caracterizam uma sociedade ou um grupo social”. Esse entendimento abarca, além das artes e das letras, “os modos de vida, os sistemas de valores, as tradições e as crenças”.

Sob a luz deste conceito de cultura não seria absurdo classificar um filme publicitário ou merchandising como uma ação cultural. Não se trata do investimento em arte, mas num determinado conjunto de comportamentos necessários a reforçar a idéia de consumir um produto. Ou ainda valorizar uma marca a ponto de esta avalizar e qualificar este produto ou serviço.

A empresa age para seduzir, ou até mesmo impor, por meio de ação sistemática e repetida, sua “cultura”, seus valores e códigos. Ou seja, para consumir determinada marca de cigarro, automóvel, ou calça jeans, é preciso praticar, ou ao menos identificar-se, com determinados padrões de conduta.

Levado às últimas conseqüências, esse sistema traduz-se num processo de aculturação, baseado na necessidade de destituir o sujeito de valores, referências e capacidades culturais intrínsecas, em busca de algo mais estimulante, sedutor e divertido: o consumo.

A serviço das instâncias de poder, sustentadas entre si, como nos dias de hoje, atuam os sistemas financeiro, governamental e de mídia. A arte assume uma preocupante função apaziguadora e definidora dos modos de vida e costumes. Joost Smiers, em Artes sob Pressão (2003), pergunta “onde os conglomerados culturais podem espalhar suas idéias sobre o que deve ser a arte, a questão crucial é: as histórias de quem estão sendo contadas? Por quem? Como são produzidas, disseminadas e recebidas?”

Max Weber costumava dizer que o homem está preso a uma teia de significados que ele mesmo criou. Nesse sentido, assim como Geertz (1973), também podemos considerar cultura como um conjunto de mecanismos de controle para governar comportamentos. E a história recente exibe vários alertas de como as indústrias culturais e os meios de comunicação de massa podem ser grandes armas disponíveis para acomodar e disseminar determinados comportamentos. Assim fizeram o nazismo, o fascismo, o comunismo e as ditaduras militares, sobretudo as latino-americanas.

Esse rastro está cada vez mais presente nas sociedades orientadas para o consumo. Em comum, a ausência do Estado em sua responsabilidade com a cultura e a diversidade; e o domínio marcante das indústrias culturais como ponta-de-lança para uma economia global centrada nas grandes corporações.

Cultura, nesse caso, funciona como uma chave capaz de trancar o indivíduo em torno de códigos e simbologias controladas: pelo Estado, por uma religião ou mesmo por corporações e através dos instrumentos gerados pela sociedade de consumo, como a publicidade, a promoção e o patrocínio cultural.

Mas essa mesma chave, que oprime o ser humano e desfaz sua subjetividade, tem o poder de abrir as portas, permitindo ao indivíduo compreender a si e aos fenômenos da sociedade e do seu próprio estágio civilizatório, em busca da liberdade. Para isso, basta girá-la para o lado oposto.

Em Dialética da Colonização (1992), Alfredo Bosi define cultura como o “conjunto das práticas, das técnicas, dos símbolos e dos valores que se devem transmitir às novas gerações para garantir a reprodução de um estado de coexistência social”. E supõe uma “consciência grupal operosa e operante que desentranha da vida presente os planos para o futuro”.

A cultura cumpre nesse caso uma função pouco reconhecida e estimulada nesses tempos: transformar realidades sociais e contribuir para o desenvolvimento humano em todos os seus aspectos. Algo que identifica o indivíduo em seu espaço, lugar, época, tornando-o capaz de sociabilizar e formar espírito crítico.

A realidade desse cenário precisa ser encarada por toda a sociedade brasileira, que usufrui os benefícios dessa globalização econômica, mas ao mesmo tempo se expõe de maneira preocupante aos seus efeitos colaterais. O país corre risco de virar as costas ao seu grande potencial da produção cultural e sua vocação para o desenvolvimento de um poderoso mercado formado pelas próprias manifestações culturais.


lupanar-ultimo2


HOMENAGEM A MACHADO DE ASSIS

LEITURAS TEATRAIS NO PONTO DE CULTURA DO RELIGARE

DIA 2 DE NOVEMBRO, DOMINGO ÀS 18H, APRESENTAREMOS LEITURAS DOS TEXTOS

AHASVERUS – FIM DOS TEMPOS -

ADÃO E EVA -

FILOSOFIA DE UM PAR DE BOTAS

POESIA


CARTAS DE AMOR DE MACHADO DE ASSIS – REVISTA ÉPOCA

26/09/2008 – 22:41 – Atualizado em 29/09/2008 – 13:21
“…depois, querida, ganharemos o mundo”
A profética frase de Machado de Assis faz parte de um conjunto inédito de cartas que ÉPOCA revela com exclusividade. Hoje, o maior escritor brasileiro começa a ser reconhecido em todo o mundo
Luis antônio Giron

Confira a seguir um trecho dessa reportagem que pode ser lida na íntegra na edição da revista Época de 29/setembro/2008.
Assinantes têm acesso à íntegra no leia mais no final da página.
Marc Ferrez/Coleção Gilberto Ferrez/Acervo Instituto Moreira Salles

MATURIDADE?
A fotografia de Machado de Assis por Marc Ferrez tem a data presumida de 1890. Mas o modelo parece ter menos de 50 anos, comparado à imagem das fotos das próximas páginas

Nos cem anos de sua morte, comemorados nesta segunda-feira, 29 de setembro, Machado de Assis ainda é capaz de provocar surpresas. Sua extensa obra – nove romances, 200 contos, uma dezena de peças de teatro, cinco coletâneas de poemas e milhares de crônicas – está praticamente canonizada e o torna, indiscutivelmente, o maior escritor do Brasil. Mas quem é esse gênio? É o austero fundador da Academia Brasileira de Letras (ABL)? O monstro cerebral pessimista e sarcástico como o descreviam os modernistas? Ou o herói do povo, como defendiam os primeiros socialistas? Embora os estudos machadianos tenham gerado dezenas de milhares de títulos – Machado é o ramo do conhecimento literário brasileiro mais estudado –, sua vida permanece envolta em mistérios, em especial os anos de juventude. Como um sujeito pobre e mestiço, numa sociedade ainda escravagista, conseguiu se tornar o mestre da cultura brasileira? ÉPOCA teve acesso, com exclusividade, a um conjunto de cartas ainda inéditas de Machado, que ajudam a responder a essas perguntas e a desvendar o enigma machadiano. “Pela primeira vez, podemos compreender o fluxo da correspondência de Machado, suas amizades, amores, relação com a política de seu tempo e preocupações filosóficas”, diz o ensaísta e diplomata Sérgio Paulo Rouanet, da ABL. Rouanet coordena o projeto mais arrojado do centenário de Machado: organizar em ordem cronológica toda a correspondência do escritor, tanto a escrita por ele como a recebida por ele ao longo de 50 anos de vida intelectual. O primeiro volume do trabalho, Correspondência de Machado de Assis, Tomo I (1860-1869) , sairá em outubro. São 90 cartas. O segundo, previsto para 2009, contém oito centenas de cartas e cobre os 40 anos restantes.

O Machado de Assis que emerge dessas cartas é um personagem novo, distante dos estereótipos que nos habituamos a estudar na escola. Trata-se de um dândi, um jornalista e poeta empolgado com a frenética vida social e boêmia do Rio de Janeiro imperial. Ele sai com atrizes de teatro, conta suas aventuras aos amigos, divide confidências e dá conselhos. Num sinal de que estava bem à frente de seu tempo, sugere à noiva a leitura de um compêndio feminista. A um amigo distante, filosofa sobre a podridão do comportamento humano e a vida na cidade. De modo maroto, esquiva-se das ordens dos caciques políticos que chefiam o jornal em que trabalha, o Diário do Rio de Janeiro. Ele é um Machado que, mais que tudo, desce do monumento da academia e vai às ruas, rejuvenescido.

SAIBA MAIS
Acervo ABL
A ÍNTEGRA DAS CARTAS

As duas cartas manuscritas de Machado a Carolina que restaram da correspondência íntima do casal foram reencontradas há um mês no Museu da República, do Rio de Janeiro. Clique sobre a imagem acima para ver as cartas a Carolina e a versão digitalizada do texto. Confira também a correspondência de Machado a alguns amigos, como Euclides da Cunha, e deles para o escritor.

A investigação que descobriu esse novo personagem mundano começou há dois anos, sem outra intenção que ordenar um material desconhecido. Rouanet convidou as pesquisadoras Irene Moutinho e Silvia Eleuterio para sair à cata de cartas em arquivos e bibliotecas. Logo, as surpresas e os textos inéditos começaram a vir à tona – e esse novo Machado, mais jovem e impetuoso, começou a ganhar corpo.

Uma das principais descobertas feitas por Irene está no texto de uma das duas cartas íntimas que restaram de Machado a Carolina, então sua noiva. Elas foram escritas no mesmo dia, 2 de março de 1869, quando Carolina estava em Petrópolis para tomar conta do irmão, o jornalista e poeta – e amigo de Machado – Faustino Xavier de Novaes (1820-1869). Faustino sofria de distúrbios mentais e morreria em agosto. “Machadinho”, como Machado assinava sua correspondência a Carolina, estava aflito por reencontrar a amada. Derramou-se em declarações e elogios a ela, numa letra apressada e nada legível. Perto da conclusão, uma palavra soava estranha a quem se acostumara com uma versão que fora divulgada em 1939, no Catálogo da Exposição do Centenário de Machado de Assis, repetida até hoje. O trecho da carta que embatucou a pesquisadora dizia: “depois… depois, querida, queimaremos o mundo, porque só é verdadeiramente senhor do mundo quem está acima das suas glórias fofas e das suas ambições estéreis”.

O convite de Machadinho para a queimada planetária soava esquisito. “Havia algo de errado”, diz Irene. Acostumada com manuscritos, ela foi à caça dos originais, dados como perdidos. Encontrou o documento no Museu da República, no Rio de Janeiro. As duas cartas foram doadas à instituição pela sobrinha de Machado, Laura Braga da Costa. Irene fez a cópia das cartas e comparou-as com os textos impressos. “Notei discrepâncias e deduzi, pela análise dos garranchos, que tudo apontava para ‘ganharemos’, e não ‘queimaremos’”, afirma Irene. A carta, corrigida, ganhou um novo sentido. Machadinho declara premonitoriamente a sua “Carola”: “…depois, querida, ganharemos o mundo”. “A sensação foi de alívio”, diz Rouanet. “Nosso Machado não era incendiário aos 30 anos, nem fez um convite terrorista a Carolina!”

Acervo ABL

AMOR DEFINITIVO
A portuguesa Carolina (em foto de c. 1890) casou-se com Machado de Assis (acima, aos 25 anos) em 1869. Ela foi trazida do Porto depois de uma suposta desilusão amorosa. Viveram juntos por 35 anos

O desejo de Machado está se cumprindo. Hoje, ele começa a conquistar o mundo. Os simpósios internacionais sobre sua obra, principalmente na Inglaterra e nos Estados Unidos, atraem a atenção de acadêmicos respeitáveis. Críticos de alta reputação, como os americanos Harold Bloom e Susan Sontag e o inglês John Gledson, elevaram-no ao patamar dos gênios. Em seu livro Gênio, de 2003, Bloom define Machado como “um milagre”, por ter conseguido fugir de sua situação social e histórica para criar uma ficção universal. Seus livros foram traduzidos para 14 idiomas, a maior parte na década passada. Há, nos EUA, um entusiasmo por novas traduções.

A glória mundial de Machado será enriquecida pela redescoberta de suas cartas. Elas contêm mistérios que mostram a complexidade da relação amorosa entre Machado e Carolina. Uma das charadas da primeira carta está no terceiro parágrafo. Ele diz: “Sofreste tanto que até perdeste a consciência do teu império; estás pronta a obedecer; admiras-te de seres obedecida”. Soa cifrado. E as únicas explicações que poderiam elucidar o enigma estariam nas demais cartas íntimas, queimadas após a morte de Machado.


DOMÍNIO PÚBLICO

Uma bela biblioteca digital, desenvolvida em software livre, mas que está prestes a ser desativada por falta de acessos.
Imaginem um lugar onde você pode gratuitamente:

· Ver as grandes pinturas de Leonardo Da Vinci ;
· Escutar músicas em MP3 de alta qualidade;
· Ler obras de Machado de Assis  ou a Divina Comédia;
· Ter acesso às melhores historinhas infantis e vídeos da TV ESCOLA
· e muito mais….

Esse lugar existe!

O Ministério da Educação disponibiliza tudo isso,basta acessar o site:

http://www.dominiopublico.gov.br


Vamos encarar a politização?

MATERIA EXTRAIDA DO JORNAL O SARRAFO EM NOVEMBRO DE 2005

INÁ CAMARGO COSTA

“O preço da liberdade é a eterna vigilância”. Com esta frase lapidar, os liberais brasileiros forjaram no século passado um ótimo álibi para apoiar a ditadura militar de 1964 a 1980. A jogada foi extremamente eficiente pois, além de assegurar com a força das armas a sua liberdade à custa da liberdade dos que pensavam diferente, essa gente conseguiu adestrar o conjunto da sociedade para viver segundo as suas deliberações sem risco de questionamentos radicais. Esquematizando a operação, digamos que primeiro eliminaram os divergentes, depois forçaram e cultivaram a mais radical despolitização e, finalmente, obtiveram o mais duradouro resultado: uma geração inteira despolitizada, que não tem a menor noção do que está em jogo na vida política (nem se interessa por ela) e, por isso mesmo, acredita piamente que política é votar em eleições ou que decisões como as tomadas pelo Ministro da Fazenda de plantão ou pelo Banco Central não são políticas. Para completar o quadro, desde a queda do muro de Berlim, seguida pelo fim do lado oriental da “cortina de ferro”, a maioria dos partidos ditos de esquerda jogou fora as suas bandeiras e lançou-se alegremente nas fileiras dos adoradores do Deus Mercado, abraçando a nova religião universal.

Como demonstrou um dos mais profundos estudiosos das entranhas desse deus, cujo nome verdadeiro é modo de produção capitalista, seu móvel é a taxa de lucro e sua única finalidade é a valorização do capital. Como periodicamente aquela taxa cai, esta queda retarda a formação de novos capitais autônomos, promovendo, inevitavelmente, superprodução, especulação, crises, capital supérfluo e, para  o que nos interessa diretamente, POPULAÇÃO SUPÉRFLUA. Na condição de parte da população supérflua, inúmeros grupos de teatro vêm se organizando em todo o Brasil desde os anos 90 do século passado. E como os demais supérfluos, sobrevivem, em total liberdade (sobretudo a de passar fome), à margem da esfera pública

– está inteiramente privatizada e entregue a todos os exploradores da nova religião: igrejas propriamente ditas, jornais, rádio, televisão, cinema e demais espaços, ditos convencionais, de circulação de espetáculos-mercadoria, popularmente conhecidos como teatros.

Parodiando a frase dos nossos antigos liberais, não é excessivo dizer que o preço da nossa liberdade é a completa irrelevância. Como somos supérfluos do ponto de vista econômico, não constituímos ameaça real aos negócios do ramo do espetáculo e, como estamos à margem da esfera pública privatizada, o Estado também não precisa se preocupar conosco. Isto posto, e considerando que entretanto continuar fazendo o que fazemos é para nós questão de vida ou morte, como reverter este quadro?

A chave da porta é evidentemente a política, entendida não mais como fatalística submissão às regras do jogo e sim como amplo processo de questionamento não do próprio jogo e suas regras, mas sobretudo da sociedade que os forjou e para a qual aparece como fatalidade a existência de uma população supérflua. No caso dos que fazemos teatro, esta idéia obriga a enfrentar uma ampla pauta de estudos, mas uma parte importante da nossa experiência e da história de nossos antecessores pode servir de horizonte para a nossa luta pelo direito à existência.

Nossa experiência de grupo ensinou a necessidade de combater os valores subjetivos que asseguram a existência da sociedade que fez de nós seres supérfluos. É

o caso, por exemplo, do individualismo, da irresponsabilidade, do descompromisso com o coletivo, ou falta de solidariedade e do autoritarismo. Estes valores, to-dos a serviço da concorrência que é parte do funcionamento da sociedade capitalista, são uma permanente ameaça à sobrevivência de um grupo teatral. A eles, o trabalho coletivo opõe entre outros altruísmos, generosidade, responsabilidade, solidariedade e relações democráticas. Mas se a duras penas temos conseguido cultivá-los entre nós e em meio ao público que nos acompanha e apóia, sem conquistar a esfera pública propriamente dita, o senti-do profundo das nossas experiências, que é político, corre o risco de se perder. Para dar o passo que falta, a história das lutas sociais do século vinte, envolvendo também artistas de teatro, apresenta alguns episódios capazes de no mínimo mobilizar a nossa imaginação.

O primeiro ilustra o modo como oshow business está sempre de olho em talentos individuais onde quer que estes se manifestem. Contam os livros de história do anarco-sindicalismo americano que uma jovem adolescente participava de um ato público em Nova Iorque e chamou a atenção de um produtor da Broadway. Seu desempenho oratório era tão brilhante que, ao final, ele tratou de convidá-la para integrar o elenco de sua próxima produção. A militante da IWW (Industrial Workers of the World), organização que ainda existe, recusou a proposta e um salário milionário, respondendo sem pestanejar: “Eu falo o meu próprio textoou, em inglês, I speak my own lines. Não se deve esperar de um ator a mesma capacidade de resistência ao canto de sereia do mercado sintetizada no gesto daquela militante anarquista, mas um ator com experiência em teatro de grupo, inspirado nele, pode negociar melhor os termos em que venderá sua força de trabalho se não se esquecer de que provém de um coletivo a parte decisiva de seu talento.

Outro caso, que delineia um horizonte muito próximo do nosso, verificou-se em fins do século XIX e começo do XX. Quem conhece a história do Teatro Livre sabe que sua marca registrada foi a arregimentação de trabalhadores que gostavam de teatro a ponto de também querer fazê-lo, a começar por André Antoine, um empregado da companhia de gás parisiense. Mas estes trabalhadores queriam encenar textos que tratava de assuntos censurados ou sem interesse para o mercado teatral. A versão alemã desta experiência em pouco tempo viu-se diante do desafio de politizar-se porque seus espetáculos atropelavam os critérios da censura, que reagiu com violência, e os trabalhadores organizados em partidos e sindicatos apoiaram a sua luta. O resultado desta aproximação entre teatro e trabalhadores organizados é a Volksbühne, que até hoje resiste e produz espetáculos que dão o que pensar, como vimos recentemente em São Paulo e outras capitais brasileiras.
Um dos cartazes do espetáculo Isto não pode acontecer aqui, que estreou no mesmo dia em 18 cidades

Um terceiro caso, um pouco mais complexo, deu-se nos Estados Unidos durante o governo Roosevelt. Como a crise de 1929 produziu uma verdadeira legião de artistas supérfluos, foi criado um programa federal de apoio às artes que os empregou aos milhares. Chamada Federal Theatre, a parte que nos interessa deste programa promoveu a mais ampla experiência teatral da história daquele país. Para ficar em apenas um exemplo:

o espetáculo Isto não pode acontecer aqui (It can’t happen here) estreou no mesmo dia em 18 cidades, em 22 produções diferentes, quatro das quais em Nova Iorque e duas em Los Angeles. Isto aconteceu no dia 27 de outubro de 1936. Duas semanas depois estreou uma 23ª produção e nove delas ainda circularam pelo país uma vez encerrada a temporada de estréia. Ao final do processo, o espetáculo tinha sido visto por cerca de 500 mil pessoas. Este episódio único se explica pelo alto grau de politização dos envolvidos no processo.

Por muito suspeito que possa soar, não dá para resistir à tentação de dizer que o teatro tende a inspirar políticas democráticas radicais e que a mobilização política inspira práticas teatrais muito mais democráticas do que se pode imaginar. O caminho é a luta                                                                                                                          

 


Uma coletividade crítica

NEY PIACENTINI E S ÉRGIO DE CARVALHO

A chance de uma inserção mais viva do teatro no sistema das artes está na sua desmercantilização. É a partir de uma contradição que se abre alguma possível mudança: uma nova circulação em alguma medida será um retorno à produtividade, à não-circulação. Ela depende do fim do imperialismo do valor de troca, da negação do sentido mercantil do trabalho teatral. É do retorno a uma utilidade propriamente artística, uma utilidade afeita ao inútil, uma utilidade da ação supérflua em relação à sobrevivência físicamas necessária em relação à vida livre, que o teatro extrai a chance de um diálogo produtivo com sua época. Sempre que se sujeita acriticamente aos limites convencionais impostos pelo chamado mercado das artes (entidade mal formada num país sem burguesia liberal), o teatro reafirma a voz da mercadoria. As temporadas nos teatros centrais nas grandes cidades, quando não criam um novo lugar de encontro artístico, reproduzem a marca da instituição acolhedora. O dinheiro gasto com mídia paga, assessorias de imprensa e bajulação dos servidores das empresas jornalísticas acena para céu dos grandes capitais como o primo pobre cumprimenta o grande parente financista e nesse gesto expressa sua aprovação invejosa. Enquanto isso, encalham os cartazes e filipetas que insistimos em manter como lembrança de uma época em que se tinha uma relação mais direta com o público, lembrança de um tempo pré-financeirizado em que os produtores tinham o gosto de mercadejar porque na feira dos bens culturais ainda existia alguma relação viva para além da hegemonia das marcas. Nos antípodas disso, a recusa simples em participar do jogo, a decisão em se afastar dos centros urbanos e dos lugares marcados do teatro não garante a ninguém uma desmercantilização das relações. O movimento de fuga pode carregar consigo o horror de origem.

Para carregar o autoritarismo ideológico das falsas respostas ou o fetichismo da cultura autorizada. Para criar um novo lugar, o teatro não pode ignorar que o processo de mercantilização atravessa toda a vida subjetiva e objetiva da sociedade, nem deixar de se dirigir aos despossuídos. Se é verdade que o movimento vem das províncias e subúrbios, é também verdade que não devemos deixar de atuar nos centros da produção simbólica e dos debates críticos, porque é em relação a eles que os extremos se posicionam. Aos descontentes, em toda parte, nos dirigimos.

A esperança para o teatro provém de seu potencial de dizer não às tendências dominantes do mundo da mercadoria – a especialização, a individualização, a serialização, a facilitação, a hedonização, a consumição. É porque esse potencial subsiste que não desistimos por completo da tentativa de uma relação direta com o público. Isso quer dizer – as companhias que pretendem superar os limites pré-estabelecidos pelo que se chama de mercado não devem priorizar o seu aprimoramento estético mas também trabalhar para substituir o destino de todo produto (a circulação) por um destino de ativação da coletividade. A criação de coletivos de grupos teatrais, o cooperativismo, a junção com parceiros não habituados a partilhar do chamado universo cultural, o estabelecimento de objetivos produtivos que façam – de atores e publico – seres conscientemente ativos e responsáveis, tudo isso pode ser o ponto de partida para um trabalho desmercantilizado nos centros ou periferias das cidades. Não são produtos ou eventos culturais que devemos oferecer, mas processos de invenção livre de uma vida melhor. A elaboração de políticas públicas para o teatro terá importância real quando liberar energias para uma democratização verdadeira das potencialidades críticas da sensibilidade.

Não são aos consumidores de arte que nos dirigimos. Não deveríamos reforçar a ilusão de que o mercado oferece escolhas e autonomia, mas sim trabalhar para uma coletividade crítica. A capacidade de diálogo com espectadores se mede pela desautomatização de seus hábitos de consumo cultural, pela formação de novos modelos produtivos, pela flexibilização de suas estruturas de pensamento, imaginação e percepção, pela lembrança simbólica de que existimos coletivamente. Cabe a nóscom nossa capacidade profissional, em meio ao mundo da mercadoriaproduzir condições materiais para que o livre Amadorismo seja um direito de todos e um modelo para o ofício. Se as gerações anteriores encontraram saídas para o seu tempo, cabe a nós pôr em movimento nossa história.


Frank Castorf

Frank Castorf é um dos mais importantes encenadores da atualidade. Oriundo da Alemanha Oriental, foi por cinco vezes eleito diretor do ano pelos críticos teatrais da Alemanha . Sua sede de trabalho é o lendário Volksbühne (o Teatro do Povo), construído em 1914 por associações operárias e que continua a ser um dos espaços mais influentes do teatro europeu.

 

O SARRAFOO que você parece estar fazendo é traduzir Brecht para a Alemanha atual, aplicando seu método a uma forma de encenação quepara instaurar um novo distanciamentochega ao ponto de romper com as técnicas tradicionais de fabulação. Para se aproximar de Brecht o senhor chega a romper com o “classicismoépico.

CASTORF – A base, no entanto,é a mesma. A hipótese com que eu trabalho é que a influência mais importante de Brecht para o teatro alemão atual pode ser percebida naqueles que definem o homem a partir de uma relação materialista. está o ponto importante. As pessoas não existem através do seu espírito:
o
que as define como indivíduo é a situação e condições na qual se movem e o que elas fazem. É nessa perspectiva que eu e outros na Alemanha procuramos fazer teatro.

veja a matéria na íntegra em http://www.jornalsarrafo.com.br/sarrafo/materias08.htm


TERRA EM TRANSE

FOLHA DE SÃO PAULO

  1. São Paulo, sexta-feira, 19 de maio de 1967

Neste texto foi mantida a grafia original


“TERRA EM TRANSE” EM DEBATES NO RIO

RIO, 18 (FOLHA) – Cinema como praxis, comunicação de massa, validade de obra de arte quando sua assimilação é dificil para o grande publico, simplicidade de linguagem cinematografica até o didatismo, foram alguns dos temas suscitados durante os debates sobre o filme “Terra em Transe”, de Glauber Rocha, realizado anteontem à noite no Museu da Imagem e do Som, e do qual tomaram parte teoricos, cineastas, produtores, críticos e estudantes universitarios. O filme está em cartaz no Rio e vem suscitando muita polemica.

O inicio
A polemica foi iniciada por um dos integrantes da equipe, o co-produtor e diretor de fotografia Luis Carlos Barreto, que disse em resumo:

“Por ser um filme sem concessões, caotico, polemico, feito sem a intenção de agradar a quem quer que seja, a ele e ao autor são lançadas as maiores acusações, reacionarias no mais amplo sentido da palavra. A visão do grande publico brasileiro está condicionada, parada no tempo, acostumada a linguagem simplista, estacionada no “E o Vento Levou”. Enquanto isso, “Terra em Transe” marca a divisão de duas epocas, e sua tentativa de criar uma linguagem nova chega a chocar, não é aceita de imediato. As acusações são iguais àquelas dos velhos professores de Carlos Drumond de Andrade, quando o rejeitavam. Pela mesma experiencia passou Oscar Niemeyer, alvo do mesmo reacionarismo”. O certo – entende Barreto – é que o filme não deixa de ser discutido e, como materia de debate, Glauber Rocha coloca a velha questão: se o cinema deve ficar estagnado ou deve prosseguir inovando e investigando. “Terra em Transe” é mais um marco na historia do cinema, e principalmente no Terceiro Mundo quem quiser fazer cinema terá de enfrentar o desafio de meu diretor”.

Politico ou não
A premissa de que o filme não é politico e sim sobre politica e seus agentes, lançada pelo proprio autor, foi contestada por outro debatedor, o jornalista Fernando Gabeira, que disse tratar-se de um filme politico, ou de uma tentativa em linguagem confusa.

“Foi realizado para uma minoria intelectualizada e que se supunha capaz de entender e interpretar suas alegorias, mas dele nada pode aproveitar em tempos de compreensão de uma realidade nacional ou latino-americana”. Para Gabeira, Eldorado é um país-robô em subdesenvolvimento, mas seus problemas não são identicos aos da America Latina ou do Terceiro Mundo – e a inexistencia do militarismo em Eldorado é um exemplo. O poeta, personagem central, tenta ser um super-homem e apela para uma solução de força num problema que exige soluções politicas.

Discordancia
O psiquiatra Helio Pelegrino discordou. Considerou “Terra em Transe” “a melhor coisa que se fez em cinema, pelo menos no nosso Terceiro Mundo. A similitude de Eldorado com países dessa area é total concreta”.

A solução de força tentada pelo personagem Paulo Martins (Jardel Filho) “reflete dialeticamente as frustrações nas soluções politicas tentadas. Ele não é um projeto de super-homem e sim um projeto de homem, expressão de aparente fracasso de um poeta anarquista. Entende-se por “anarquista” o precursor do revolucionario. O poeta foi o primeiro guerrilheiro de Eldorado, depois de ter visto que soluções politicas de nada adiantaram para seu país”.

Segundo o psiquiatra que tomou parte nos debates, “para Eldorado já não havia soluções: fecharam-se as saidas com a coroação do rei, de um caudilho, de um Salazar. Paulo Martins é, no meu entender, personagem presente em todos os paises subdesenvolvidos, e por isso não é um super-homem, negativa do genio. Fidel Castro, quando desembarcou em Cuba com seus companheiros, tambem era poeta. E’ o idealismo contra uma estrutura politico-social-militar-policial, bem montada e aparentemente rigida; lutar contra a maquina Batista era sonho, irreal, poetico, mas deu certo. Paulo tambem sonhou, errou e morreu”.

Defesa
Alex Vianni é outro critico cinematografico que defende “Terra em Transe”, embora nem sempre concorde com os conceitos da Glauber Rocha ou as conclusões a que ele chega. Defende o filme como obra de autor, ou seja, filme de diretor, no qual em todas as cenas é sentida a presença do diretor.

“Nele, todos os atores se afirmam através da exasperação, marca imprimida por Glauber Rocha. O critico se confessou admirador incondicional do trabalho de Paulo Cesar Sarraceni, mas reconheceu que o verdadeiro “desafio” foi lançado por Galuber Rocha: todo o realizador do Cinema Novo, na America Latina, ou no Terceiro mundo terá de ver, sentir e pesquisar a obra de Glauber”.

Vianni entende que o filme não é comunicativo e que muitas vezes os atores falam mas não se entende. Entretanto, tudo foi premeditadamente, caoticamente, “e a verdade, o caos, o transe de Eldorado é identico àquele que sentimos diante de uma realidade que nos constrange. O “flash-back”, justamente na morte do poeta, quando ele recebe os quatro tiros que o matam, é a mesmo morte que sentimos diante de uma realidade maior que nossas forças. A derrubada de um governo legitimo, a perda de algo para nós inabalavel, nos levam àquela incompreensão momentanea e este é o transe que Glauber consegue transmitir com a exatidão de um genio”.

O poema
Para o cineasta Joaquim Pedro de Andrade, “o poeta é o guerrilheiro pois o povo de Eldorado não assume posição critica diante de seus problemas e os grandes heróis se fazem com a morte. A morte como fé e não como solução. Assim, a morte do poeta é morte-vida, e não é possivel viver quando não se está disposto a morrer por uma idéia, por um amor, por um povo, por um amigo”. O poema de Glauber Rocha – lembrou Joaquim Pedro – mostra que Paulo Martins morre pelas razões de viver quando diz:

“Este povo alquebrado
cujo sangue é sem vigor
Este povo precisa da morte
mais do que se possa supor;
O sangue que estimula no irmão a dor,
o sentimento do nada que gera o amor,
a morte como fé, não com temor”.


A CULTURA EM REFLEXÃO – Júnio Santos

Eu vim da cratera norte

Pra defender
Nossos resquícios culturais (bis)
Defender nossos quintais
Feito lingüeta de fogo
Sobre lavas, sob lavras
pra manter
Nossos resquícios culturais (bis)
Na língua do cantado
Sanfona branca e baião
No cheiro do meu amor
Com a força Boi Barbatão!
São coisas que ainda restam
Por força do milharal
Rapadura, carne-seca, feijão verde
Plantados no meu quintal (bis)
Mevida que me basta
Mevida que me basta!
(Poema de Ray Lima )
 
A PALAVRA CULTURA
 
Cultura provém do latim medieval significando cultivo da terra.
Do verbo latino original COLO que é igual a cultivar, que juntando a cultum, forma a palavra CULTURA, que volto a dizer, no início era relativo ao cultivo da terra.
 
Sua transformação começa a partir da sabedoria acumulada no trato do ambiente natural e a experiência secular de pastores e agricultores acabaram conferindo ao termo cultura, o sentido de conhecimento intelectual, aplicado à ação transformadora do mundo. Por outro lado, podemos dizer que é a convicção do saber acumulado pela existência do trabalho que produz uma libertação de condicionamento.
 
ANTROPOLOGICAMENTE sabemos que “a cultura é o conjunto de experiências humanas adquiridas pelo contato social e acumuladas pelos povos através do tempo.
 
CONCEITOS
 
Os conceitos que iremos listar nos levarão, quem sabe, por caminhos diferentes, porém alcançando um fim comum. Assim vejamos:
 
Italo Calvino diz “quem somos nós? Quem é cada um de nós senão uma combinatória de experiências, de informações, de leituras e imaginações? Cada vida é uma enciclopédia, uma biblioteca, um inventário de objetos, uma amostragem de estilos, onde tudo pode ser continuamente remexido e reordenado de todas as maneiras”.
 
Analisando o que disse Calvino, refletimos que na realidade brasileira atual, podemos sim, ser uma biblioteca, mas uma biblioteca de livros editados e na melhor das hipóteses, editados por um único canal de televisão, ou por algumas vozes poderosas de um mesmo rádio, situado num sistema de comunicação a serviço de uma elite dominante.
 
Um outro conceito nos diz que a cultura é uma expressão simbólica das linguagens, da imensa diversidade que caracteriza o processo e os modos como os povos definem as suas identidades, num contexto, como o nosso, complexo, contraditório, difícil, rico, espelhado pela riqueza do saber popular, afirmamos então, que a cultura é um elemento fundamental de resgate dos valores sem os quais a experiência humana torna-se uma experiência empobrecida e amarga, por isso essa cultura deve ser solidaria, fraterna, igualitária, liberta, justa e que se contraponha à avalanche imposta pelo projeto neoliberal, que como diz o ex-prefeito petista de Belo Horizonte, Patrus Ananias “reduz o sonho humano a uma conta bancária, uma casinha de praia”.
 
A cultura vista desta forma, solidaria, fraterna, liberta e justa, é um instrumento de luta permanente da memória, contra o esquecimento, é abrangente, criadora e mantenedora de valores, significados, símbolos, normas, mitos, imagens, etc… presentes nas práticas cotidianas, nas instituições, movimentos, pensamentos, na arte. É uma cultura que penetra nos coletivos humanos e nos indivíduos, dos conceitos de trabalhos as emoções. Com esse sentido ela é o modo de viver, ser, fazer, pensar, sentir, simbolizar e imaginar das sociedades humanas.
 
Constatamos porém, que com essa diversidade ela é plural e com isso trás diferenças nos significados culturais, mas também cria certas condições que leva uma sociedade inteira a participar dessa mesma criação coletiva, quer seja através da cultura popular, da erudita, da cultura de massa ou da cultura revolucionária para a libertação, expressa através dos ritos religiosos (grandes procissões), espetáculos artísticos, movimentação política ou outros.
 
Porém cultura não significa tão somente esses momentos ou somente o espetáculo. Como diz Marilena Chauí “Cultura não é simplesmente a arte ou o evento”, não é área ou departamento, não é definida pela economia de mercado, é na verdade e sobretudocriação individual e coletiva das obras de arte, do pensamento, dos valores, dos comportamentos e do imaginário.
 
Expresso isso, não podemos nos limitar a pensar a cultura apenas como manifestação cultural, temos que a pensar como parte da trajetória da raça humana, como a marca deixada do homem e da mulher na história do mundo, pois o ato que gera a cultura é a criação, a invenção, a transformação e trabalhar com a cultura é trabalhar com a revolução do próprio corpo, pensamento, no tempo e no espaço, a todo instante, trabalhando o momento de critica e de construção, de continuidade e percepção, porque a cultura faz com que você se olhe no espelho e se reconheça como o próximo, como o outro, como o diferente, como o igual, como o negro e o branco, trabalhando nas múltiplas possibilidades.
 
CULTURA POPULAR
 
Um conceito simples e direto diz quecultura popular é o conjunto de experiências adquiridas, imaginadas, criadas e recriadas pela maioria, contemplando suas tradições, costumes, modos, valores, crenças, folguedos, expressões artísticas, idéias, ações do cotidiano e conhecimentos”. De uma maioria que é a massa dos trabalhadores, hoje no Brasil, a massa sem emprego, sem teto, sem terra, sem dignidade, sem cidadania. Um enorme contigente, uma pária pura, induzida e enganada pela ideologia dominante, desprovida de bens materiais, com um baixo poder aquisitivo e subordinada pela força do capital. Essa cultura com bandeiras arriadas e estandartes danificados é engolida por uma indústria cultural organizada e repressora a serviço da classe dominante, que quer, a todo custo, impor uma nova ordem, pregando, defendendo e impondo uma cultura comum, globalizada e alienante, que desrespeita a história, a tradição, os mitos e as crenças populares.
 
CULTURA ERUDITA
 
Outra cultura em discussão é a chamada erudita. Louis Porcher diz: “Não há duvida de que até uma época recente a arte (vista aqui não como produto, mas sim como cultura), sempre teve na sociedade uma conotação aristocrática, enquanto exercício de lazer e marca registrada da elite”.
 
É claro que a cultura, hoje dita como erudita, era na verdade a cultura popular de nossos colonizadores. Shakespeare era representado na Inglaterra, para o povo e pelo povo e ele era popular, era mestre como é mestre os nossos artesãos, nossos brincantes de reizados, coco-de-roda e de outros folguedos populares (vejam o filme Shakespeare Apaixonado). A comédia Del’Arte era popular no sul da Itália e na França (vejam o filme “Ciranu de Bejerac”), até mesmo no momento em que Molliere assume a sua paternidade e entregue-a a aristocracia francesa; Lopes de Veja era popular na Espanha, na época do teatro de ouro Espanhol; Gil Vicente e seus autos eram popular em Portugal e até recentemente, nesse século que se finda, Garcia Lorca era popular na Espanha com o teatro La Barraca se opondo ao Governo ditatorial e facista de Franco e Bertold Brecht era popular na Alemanha combatendo a força nazista. Essas grandes potências nos colonizaram e nos colonizam até os dias atuais, e se no passado histórico se fecharam em espaços excludentes para ritualizar e perpetuar suas culturas, enquanto os negros dançavam na senzala a capoeira e os índios festejavam suas guerras, caças e deuses da natureza, hoje usam a força dos meios de comunicação e se reúnem nos grandes supermercados culturais, que são as majestosas casas de espetáculos, teatro, casas de shows, arenas de rodeios, financiados e garantidos pelo poder público, restando ao povo, poucos deles por sinal, os sítios, beiras de praias, bairros periféricos, sem apoio, nem moral, para expressar a sua cultura.
 
Rubem Alves, diante disso diz: “A preservação do índio e sua cultura, a harmonia do homem com a natureza, a salvação das florestas, rios e mares, a recusa a violência, a opção pelo pacifismo – todas essas são causas derrotadas. Elas não tem chance alguma frente ao poder econômico e ao poder das armas”.
CULTURA DE MASSA
 
Com o surgimento do protestantismo emerge a burguesia. Até esse momento, historicamente tínhamos a cultura erudita e fechada da aristocracia decadente e a cultura popular e aberta do povo.
 
A burguesia que tinha sua própria arquitetura, os burgos e sua própria religião o protestantismo mas que não tinha referencia cultural, começou a construir seu próprio espaço, os grandes teatros, pensando a cultura como mais uma mercadoria que podia aumentar o seu capital e consequentemente o seu poder de força, tirando da cultura o seu caráter lúdico e questionador, mesclando partes do erudito com o popular, roubando do povo suas expressões legitimas, modificando-as a seu bel prazer, tendo como instrumento  o avanço da tecnologia e o grau de amplitude dos meios de comunicação de massa, empurrando, goela abaixo do povo, uma nova ordem cultural, uma nova e moderna cultura, uma cultura alienante e sufocante, com cheiro de povo e cara de burguesia, indo buscar os instrumentos no seio do próprio povo, oferecendo-lhes vantagens e riquezas supérfluas, apropriando-se de vez do seu maior bem e herança, transformando o próprio povo, em consumidor desse lixo cultural sem criatividade, sem compromisso, que como carimbo ou produto em série, faz o povo perder a criatividade e passar a ser apenas repetidor de movimentos, de frases indiferentes, de tchans, bundinhas nas garrafas, varrendo vassourinha, humilhando e ridicularizando um povo rico em histórias e tradições.
 AÇÃO CULTURAL TRANSFORMADORA
 Surge como uma opção de combate a cultura de massa e se realiza como bem expressa Paulo Freire “em oposição as classes dominantes, nascendo do seio da cultura popular negada, sendo permanentemente regida pela análise crítica dos valores, pois essa ação é transformadora e se transforma sempre”… dizemos até é camaleonica, não sendo nemslogan” propagandeado pela mídia, como a cultura de massa, nem idealista como a cultura erudita e nem pura e inocente como a cultura popular, mas sendo sim, completa Paulo Freire (…) “uma forma radical e resistente de ser dos seres humanos, pois se expressa de forma consciente e com a necessidade do recriar para resistir”. Esta arte transformadora que se rebela  se engaja e se compromete com outros movimentos sociais organizados, quer seja através  da poesia, da música, das artes plásticas, do cinema, da dança,  da arquitetura, do teatro e de outras formas de expressão, em busca de uma linguagem de fato popular, no âmbito de uma ação cultural emancipatória, ocupa um lugar importante com sua contribuição prática e teórica, para que possa nos dar, com base na cultura popular histórica, novos referenciais e práticas sociais.
Vemos aqui não somente o artistahomem ou mulhermas sim a arte, a cultura, que atravessa, historicamente os povos e as gerações oprimidas, pois se somos os únicos seres vivos capazes de ouvir, ver, tocar, cheirar, sentir, sorrir, chorar, se emocionar e provocar emoções em outros, se temos esses privilégios porque não podemos nos opor as formas alienantes e escravistas da classe dominante com sua cultura enlatada, sendo empurrada alma a dentro sem nenhum respeito ao legados de nossa história e as nossa origens?  A arte e a cultura é bem mais que diversão pura e simples, e deve cumprir a função social, coletiva e mobilizadora de preencher o vazio existencial próprio do ser humano, pois como diz Augusto Boal, …” teremos de fato e direito uma cultura popular, quando o povo dominar os meios de comunicação”…
Sabemos que esta é uma conversa sem fim, dinâmica como a própria vida, onde qualquer unanimidade  é burra e nenhuma unanimidade é possível. No entanto devemos e temos o direito de saber e reproduzir, que no mundo globalizado que ora se instala e se amplia, sobreviverão os países onde a cultura seja elemento preponderante de evolução e crescimento e não apenas peças ornamentais e lucrativas de discursos vazios e improdutivos dos dominantes.
Para refrescar o caos e pensar na eternização dos nossos valores, evocamos Chico Cesar que canta: “O CARNEIRO SACRIFICADO MORRE, O AMOR MORRE, A ARTE NÃO”!.
 
Aracati, 28 de novembro de 1999
 
Júnio Santos

FONTES PESQUISADAS
Revista Palavra – nº 04 – junho de 1999.
Revista Polis – nº 22 de 1995.
Paulo Freire e seu livroAção Cultural Para a Liberdade” – 7ª edição.

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