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O verbo e a verba

Leonardo BrantgravatarcloseAuthor: Leonardo Brant Name: Leonardo Brant
Email: leonardo@brant.com.br
Site: http://www.brant.com.br
About: Consultor em gestão e políticas culturais, pesquisador e documentarista. Autor dos livros Mercado Cultural, Políticas Culturais vol.1 e Diversidade Cultural (org.), é presidente da Brant Associados, fundador do Instituto Pensarte, do Divercult e do Laboratório de Políticas Culturais. Criou e edita Cultura e Mercado, o mais influente blog sobre políticas culturais do Brasil. Coordena os cursos “O Poder da Cultura”, no Ateliê Brant Associados, e “Gestão Cultural”, na Escola São Paulo. É sócio da produtora de ciberfilmes Deusdará.See Authors Posts (164)
14 junho 2009

Foto: Holly in Transito
Nossa recém-conquistada democracia ainda padece de reconhecimento dos mecanismos de participação,  representação e exercício de poder. Queremos um lugar digno para as artes e para a cultura, mas ainda não sabemos relacioná-los com o Estado em crise, o deusdará do mercado e uma realidade que inclui cidadãos sem direitos, congresso inoperante, judiciário indiferente e controle cada vez mais absuluto dos sistemas financeiro e midiático. Difícil reconhecer quem corrompe e quem é corrompido nessa areia movediça.

Talvez por forte influência de Walter Benjamin e Marshall McLuhan, acredito na arte como forma de libertação. E no artista (do pensador ao poeta) como cidadão dotado de capacidade inequívoca de elevar a sociedade a um patamar de conquista ética. Já não sei podemos nos referir a arte como referiam os dois em suas respectivas épocas, mas ainda vale-nos evocar seus ideias e, sobretudo, protegermo-nos dos riscos e suscetibilidades apontados pelos dois.

Da ameaça nazista à consolidação da “aldeia global”, a arte e os artistas continuam sofrendo sérias ameaças, como nos previne Joost Smiers em “Artes sob Pressão”. E com isso, comprometemos todo o processo civilizatório. Docilizados, afugentados e cooptados por sistemas de poder, distanciam-se de maneira preocupante do indispensável terreno fértil para pensar, denunciar, provocar e projetar mundos e utopias, distantes ou presentes.

Nosso sistema de financiamento às artes mostra-se cada vez mais frágil. Ainda enxergamos o artista como alguém que o Estado precisa proteger e manter. Não o vemos como instância de sustentação de toda a sociedade. Alguém com capacidade de re-significar nosso campo simbólico, liberando-nos a todos dessas mesmas amarras.

A serviço das instâncias de poder, seja Estado, corporação ou mesmo o próprio mercado das artes, o artista não só perde sua capacidade intrínseca de criar, construir, libertar e cooperar, como corre o risco de transformar-se num potente capataz desses sistemas. Por outro lado, pode e deve dialogar com todos eles, até mesmo para ampliar sua capacidade crítica e sua mobilidade por ambientes cada vez mais contaminados.

Democracia se faz com arte, já diz o bordão deste blog. O único despachante da arte é o artista, que pode e deve se valer de profissionais e assessores que garantam os seus direitos e a sua autonomia, indispensável para o exercício de sua função pública (e, porque não, privada).

Deve, por outro lado, agir com repúdio e desconfiança, quando algum governo (seja ele popular ou populista, democrata ou demagogo) pretender colocar-se como o despachante único e universal dos interesses dos artistas. Ao desautorizar a CNIC, minimizar e menosprezar o papel da justiça, obstruir o acesso aos processos admintrativos e exercer seu poder de escolha, veto e direcionamento político à arte e aos artistas que financia, o MinC distancia-se de maneira preocupante do Estado Democrático de Direito.

Vejo com muita desconfiança esses movimentos todos, forjados a partir da manipulação da opinião pública. Para o governo todos estão errados: os produtores são aproveitadores, as empresas oportunistas, os artistas privilegiados, os técnicos atravessadores. Todos são culpados por algo que não funciona única  e exclusivamente por má gestão e  incompetência do próprio governo.

E todos que não conseguem acessar o instrumento, por ausência de Estado e mais incompetência governamental, aceitam de maneira passiva e inerte um discurso conveniente e demagógico, porém perigoso, sobretudo por não encontrar qualquer efetividade na prática dos gestores que proferem tais palavras mágicas.

Em vez de acreditar nessa conversa fiada, devemos lutar por menos impostos para as empresas culturais, asfixiadas pela inoperância, desleixo e inoperância do MinC; pelos investimentos prometidos via Mais Cultura, que aplica míseros 20% das verbas disponíveis para fazer frente ao mercado injusto e concentrador; por um pacote anti-crise, prometido para o fim de maio.

Por dignidade para artistas e agentes culturais de todo o Brasil, cansados da esquizofrênica distância entre o verbo e a verba.

Leonardo Brant (author) disse: A letra de “Rosebud”, de Lenine e Lula Quiroga:

Dolores, dólares…

O verbo saiu com os amigos
pra bater um papo na esquina,
A verba pagava as despesas,
porque ela era tudo o que ele tinha.
O verbo não soube explicar depois,
porque foi que a verba sumiu.
Nos braços de outras palavras
o verbo afogou sua mágoa, e dormiu.

Dolores e dólares…. rosebud

O verbo gastou saliva,
de tanto falar pro nada.
A verba era fria e calada,
mas ele sabia, lhe dava valor.
O verbo tentou se matar em silêncio,
e depois quando a verba chegou,
era tarde demais
o cádaver jazia,
a verba caiu aos seus pés a chorar
lágrimas de hipocrisia.

rosebud, dolores e dolares…

Cultura: chave-mestra da sociedade

Leonardo BrantgravatarcloseAuthor: Leonardo Brant Name: Leonardo Brant
Email: leonardo@brant.com.br
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About: Consultor em gestão e políticas culturais, pesquisador e documentarista. Autor dos livros Mercado Cultural, Políticas Culturais vol.1 e Diversidade Cultural (org.), é presidente da Brant Associados, fundador do Instituto Pensarte, do Divercult e do Laboratório de Políticas Culturais. Criou e edita Cultura e Mercado, o mais influente blog sobre políticas culturais do Brasil. Coordena os cursos “O Poder da Cultura”, no Ateliê Brant Associados, e “Gestão Cultural”, na Escola São Paulo. É sócio da produtora de ciberfilmes Deusdará.See Authors Posts (164)
27 maio 2009

Foto: Gossamerpromisse
A idéia de cultura, sempre moldada conforme as visões políticas de cada tempo, detém em si as chaves dos sistemas de poder. Chaves que podem abrir portas para a liberdade, para a eqüidade e para o diálogo. Mas também podem fechá-las, cedendo ao controle, à discriminação e à intolerância.

Da mesma forma que o poeta T.S.Eliot inter-relacionava cultura sob a ótica do indivíduo, de um grupo e de toda a sociedade, precisamos reconhecer cultura como uma espécie de plasma invisível entrelaçado entre as dinâmicas sociais, ora como alimento da alma individual, ora como elemento gregário e político, que liga e significa as relações humanas. Perceber a presença desse plasma – ou seja, de uma matéria altamente energizada, reativa e que permeia todo o espaço da sociedade – é fundamental para a compreensão dos fenômenos do nosso tempo.

Cultura é algo complexo. Não se limita a uma perspectiva artística, econômica ou social. É a conjugação de todos esses vetores. Daí a sua importância como projeto de Estado e sua pertinência como investimento privado. Uma política cultural abrangente, contemporânea e democrática deve estar atenta às suas várias implicações e dimensões.

A UNESCO, organismo das Nações Unidas destinada a questões de educação cultura e ciências, define cultura como “um conjunto de características distintas espirituais, materiais, intelectuais e afetivas que caracterizam uma sociedade ou um grupo social”. Esse entendimento abarca, além das artes e das letras, “os modos de vida, os sistemas de valores, as tradições e as crenças”.

Sob a luz deste conceito de cultura não seria absurdo classificar um filme publicitário ou merchandising como uma ação cultural. Não se trata do investimento em arte, mas num determinado conjunto de comportamentos necessários a reforçar a idéia de consumir um produto. Ou ainda valorizar uma marca a ponto de esta avalizar e qualificar este produto ou serviço.

A empresa age para seduzir, ou até mesmo impor, por meio de ação sistemática e repetida, sua “cultura”, seus valores e códigos. Ou seja, para consumir determinada marca de cigarro, automóvel, ou calça jeans, é preciso praticar, ou ao menos identificar-se, com determinados padrões de conduta.

Levado às últimas conseqüências, esse sistema traduz-se num processo de aculturação, baseado na necessidade de destituir o sujeito de valores, referências e capacidades culturais intrínsecas, em busca de algo mais estimulante, sedutor e divertido: o consumo.

A serviço das instâncias de poder, sustentadas entre si, como nos dias de hoje, atuam os sistemas financeiro, governamental e de mídia. A arte assume uma preocupante função apaziguadora e definidora dos modos de vida e costumes. Joost Smiers, em Artes sob Pressão (2003), pergunta “onde os conglomerados culturais podem espalhar suas idéias sobre o que deve ser a arte, a questão crucial é: as histórias de quem estão sendo contadas? Por quem? Como são produzidas, disseminadas e recebidas?”

Max Weber costumava dizer que o homem está preso a uma teia de significados que ele mesmo criou. Nesse sentido, assim como Geertz (1973), também podemos considerar cultura como um conjunto de mecanismos de controle para governar comportamentos. E a história recente exibe vários alertas de como as indústrias culturais e os meios de comunicação de massa podem ser grandes armas disponíveis para acomodar e disseminar determinados comportamentos. Assim fizeram o nazismo, o fascismo, o comunismo e as ditaduras militares, sobretudo as latino-americanas.

Esse rastro está cada vez mais presente nas sociedades orientadas para o consumo. Em comum, a ausência do Estado em sua responsabilidade com a cultura e a diversidade; e o domínio marcante das indústrias culturais como ponta-de-lança para uma economia global centrada nas grandes corporações.

Cultura, nesse caso, funciona como uma chave capaz de trancar o indivíduo em torno de códigos e simbologias controladas: pelo Estado, por uma religião ou mesmo por corporações e através dos instrumentos gerados pela sociedade de consumo, como a publicidade, a promoção e o patrocínio cultural.

Mas essa mesma chave, que oprime o ser humano e desfaz sua subjetividade, tem o poder de abrir as portas, permitindo ao indivíduo compreender a si e aos fenômenos da sociedade e do seu próprio estágio civilizatório, em busca da liberdade. Para isso, basta girá-la para o lado oposto.

Em Dialética da Colonização (1992), Alfredo Bosi define cultura como o “conjunto das práticas, das técnicas, dos símbolos e dos valores que se devem transmitir às novas gerações para garantir a reprodução de um estado de coexistência social”. E supõe uma “consciência grupal operosa e operante que desentranha da vida presente os planos para o futuro”.

A cultura cumpre nesse caso uma função pouco reconhecida e estimulada nesses tempos: transformar realidades sociais e contribuir para o desenvolvimento humano em todos os seus aspectos. Algo que identifica o indivíduo em seu espaço, lugar, época, tornando-o capaz de sociabilizar e formar espírito crítico.

A realidade desse cenário precisa ser encarada por toda a sociedade brasileira, que usufrui os benefícios dessa globalização econômica, mas ao mesmo tempo se expõe de maneira preocupante aos seus efeitos colaterais. O país corre risco de virar as costas ao seu grande potencial da produção cultural e sua vocação para o desenvolvimento de um poderoso mercado formado pelas próprias manifestações culturais.


lupanar-ultimo2


HOMENAGEM A MACHADO DE ASSIS

LEITURAS TEATRAIS NO PONTO DE CULTURA DO RELIGARE

DIA 2 DE NOVEMBRO, DOMINGO ÀS 18H, APRESENTAREMOS LEITURAS DOS TEXTOS

AHASVERUS – FIM DOS TEMPOS -

ADÃO E EVA -

FILOSOFIA DE UM PAR DE BOTAS

POESIA


CARTAS DE AMOR DE MACHADO DE ASSIS – REVISTA ÉPOCA

26/09/2008 – 22:41 – Atualizado em 29/09/2008 – 13:21
“…depois, querida, ganharemos o mundo”
A profética frase de Machado de Assis faz parte de um conjunto inédito de cartas que ÉPOCA revela com exclusividade. Hoje, o maior escritor brasileiro começa a ser reconhecido em todo o mundo
Luis antônio Giron

Confira a seguir um trecho dessa reportagem que pode ser lida na íntegra na edição da revista Época de 29/setembro/2008.
Assinantes têm acesso à íntegra no leia mais no final da página.
Marc Ferrez/Coleção Gilberto Ferrez/Acervo Instituto Moreira Salles

MATURIDADE?
A fotografia de Machado de Assis por Marc Ferrez tem a data presumida de 1890. Mas o modelo parece ter menos de 50 anos, comparado à imagem das fotos das próximas páginas

Nos cem anos de sua morte, comemorados nesta segunda-feira, 29 de setembro, Machado de Assis ainda é capaz de provocar surpresas. Sua extensa obra – nove romances, 200 contos, uma dezena de peças de teatro, cinco coletâneas de poemas e milhares de crônicas – está praticamente canonizada e o torna, indiscutivelmente, o maior escritor do Brasil. Mas quem é esse gênio? É o austero fundador da Academia Brasileira de Letras (ABL)? O monstro cerebral pessimista e sarcástico como o descreviam os modernistas? Ou o herói do povo, como defendiam os primeiros socialistas? Embora os estudos machadianos tenham gerado dezenas de milhares de títulos – Machado é o ramo do conhecimento literário brasileiro mais estudado –, sua vida permanece envolta em mistérios, em especial os anos de juventude. Como um sujeito pobre e mestiço, numa sociedade ainda escravagista, conseguiu se tornar o mestre da cultura brasileira? ÉPOCA teve acesso, com exclusividade, a um conjunto de cartas ainda inéditas de Machado, que ajudam a responder a essas perguntas e a desvendar o enigma machadiano. “Pela primeira vez, podemos compreender o fluxo da correspondência de Machado, suas amizades, amores, relação com a política de seu tempo e preocupações filosóficas”, diz o ensaísta e diplomata Sérgio Paulo Rouanet, da ABL. Rouanet coordena o projeto mais arrojado do centenário de Machado: organizar em ordem cronológica toda a correspondência do escritor, tanto a escrita por ele como a recebida por ele ao longo de 50 anos de vida intelectual. O primeiro volume do trabalho, Correspondência de Machado de Assis, Tomo I (1860-1869) , sairá em outubro. São 90 cartas. O segundo, previsto para 2009, contém oito centenas de cartas e cobre os 40 anos restantes.

O Machado de Assis que emerge dessas cartas é um personagem novo, distante dos estereótipos que nos habituamos a estudar na escola. Trata-se de um dândi, um jornalista e poeta empolgado com a frenética vida social e boêmia do Rio de Janeiro imperial. Ele sai com atrizes de teatro, conta suas aventuras aos amigos, divide confidências e dá conselhos. Num sinal de que estava bem à frente de seu tempo, sugere à noiva a leitura de um compêndio feminista. A um amigo distante, filosofa sobre a podridão do comportamento humano e a vida na cidade. De modo maroto, esquiva-se das ordens dos caciques políticos que chefiam o jornal em que trabalha, o Diário do Rio de Janeiro. Ele é um Machado que, mais que tudo, desce do monumento da academia e vai às ruas, rejuvenescido.

SAIBA MAIS
Acervo ABL
A ÍNTEGRA DAS CARTAS

As duas cartas manuscritas de Machado a Carolina que restaram da correspondência íntima do casal foram reencontradas há um mês no Museu da República, do Rio de Janeiro. Clique sobre a imagem acima para ver as cartas a Carolina e a versão digitalizada do texto. Confira também a correspondência de Machado a alguns amigos, como Euclides da Cunha, e deles para o escritor.

A investigação que descobriu esse novo personagem mundano começou há dois anos, sem outra intenção que ordenar um material desconhecido. Rouanet convidou as pesquisadoras Irene Moutinho e Silvia Eleuterio para sair à cata de cartas em arquivos e bibliotecas. Logo, as surpresas e os textos inéditos começaram a vir à tona – e esse novo Machado, mais jovem e impetuoso, começou a ganhar corpo.

Uma das principais descobertas feitas por Irene está no texto de uma das duas cartas íntimas que restaram de Machado a Carolina, então sua noiva. Elas foram escritas no mesmo dia, 2 de março de 1869, quando Carolina estava em Petrópolis para tomar conta do irmão, o jornalista e poeta – e amigo de Machado – Faustino Xavier de Novaes (1820-1869). Faustino sofria de distúrbios mentais e morreria em agosto. “Machadinho”, como Machado assinava sua correspondência a Carolina, estava aflito por reencontrar a amada. Derramou-se em declarações e elogios a ela, numa letra apressada e nada legível. Perto da conclusão, uma palavra soava estranha a quem se acostumara com uma versão que fora divulgada em 1939, no Catálogo da Exposição do Centenário de Machado de Assis, repetida até hoje. O trecho da carta que embatucou a pesquisadora dizia: “depois… depois, querida, queimaremos o mundo, porque só é verdadeiramente senhor do mundo quem está acima das suas glórias fofas e das suas ambições estéreis”.

O convite de Machadinho para a queimada planetária soava esquisito. “Havia algo de errado”, diz Irene. Acostumada com manuscritos, ela foi à caça dos originais, dados como perdidos. Encontrou o documento no Museu da República, no Rio de Janeiro. As duas cartas foram doadas à instituição pela sobrinha de Machado, Laura Braga da Costa. Irene fez a cópia das cartas e comparou-as com os textos impressos. “Notei discrepâncias e deduzi, pela análise dos garranchos, que tudo apontava para ‘ganharemos’, e não ‘queimaremos’”, afirma Irene. A carta, corrigida, ganhou um novo sentido. Machadinho declara premonitoriamente a sua “Carola”: “…depois, querida, ganharemos o mundo”. “A sensação foi de alívio”, diz Rouanet. “Nosso Machado não era incendiário aos 30 anos, nem fez um convite terrorista a Carolina!”

Acervo ABL

AMOR DEFINITIVO
A portuguesa Carolina (em foto de c. 1890) casou-se com Machado de Assis (acima, aos 25 anos) em 1869. Ela foi trazida do Porto depois de uma suposta desilusão amorosa. Viveram juntos por 35 anos

O desejo de Machado está se cumprindo. Hoje, ele começa a conquistar o mundo. Os simpósios internacionais sobre sua obra, principalmente na Inglaterra e nos Estados Unidos, atraem a atenção de acadêmicos respeitáveis. Críticos de alta reputação, como os americanos Harold Bloom e Susan Sontag e o inglês John Gledson, elevaram-no ao patamar dos gênios. Em seu livro Gênio, de 2003, Bloom define Machado como “um milagre”, por ter conseguido fugir de sua situação social e histórica para criar uma ficção universal. Seus livros foram traduzidos para 14 idiomas, a maior parte na década passada. Há, nos EUA, um entusiasmo por novas traduções.

A glória mundial de Machado será enriquecida pela redescoberta de suas cartas. Elas contêm mistérios que mostram a complexidade da relação amorosa entre Machado e Carolina. Uma das charadas da primeira carta está no terceiro parágrafo. Ele diz: “Sofreste tanto que até perdeste a consciência do teu império; estás pronta a obedecer; admiras-te de seres obedecida”. Soa cifrado. E as únicas explicações que poderiam elucidar o enigma estariam nas demais cartas íntimas, queimadas após a morte de Machado.


DOMÍNIO PÚBLICO

Uma bela biblioteca digital, desenvolvida em software livre, mas que está prestes a ser desativada por falta de acessos.
Imaginem um lugar onde você pode gratuitamente:

· Ver as grandes pinturas de Leonardo Da Vinci ;
· Escutar músicas em MP3 de alta qualidade;
· Ler obras de Machado de Assis  ou a Divina Comédia;
· Ter acesso às melhores historinhas infantis e vídeos da TV ESCOLA
· e muito mais….

Esse lugar existe!

O Ministério da Educação disponibiliza tudo isso,basta acessar o site:

http://www.dominiopublico.gov.br


Vamos encarar a politização?

MATERIA EXTRAIDA DO JORNAL O SARRAFO EM NOVEMBRO DE 2005

INÁ CAMARGO COSTA

“O preço da liberdade é a eterna vigilância”. Com esta frase lapidar, os liberais brasileiros forjaram no século passado um ótimo álibi para apoiar a ditadura militar de 1964 a 1980. A jogada foi extremamente eficiente pois, além de assegurar com a força das armas a sua liberdade à custa da liberdade dos que pensavam diferente, essa gente conseguiu adestrar o conjunto da sociedade para viver segundo as suas deliberações sem risco de questionamentos radicais. Esquematizando a operação, digamos que primeiro eliminaram os divergentes, depois forçaram e cultivaram a mais radical despolitização e, finalmente, obtiveram o mais duradouro resultado: uma geração inteira despolitizada, que não tem a menor noção do que está em jogo na vida política (nem se interessa por ela) e, por isso mesmo, acredita piamente que política é votar em eleições ou que decisões como as tomadas pelo Ministro da Fazenda de plantão ou pelo Banco Central não são políticas. Para completar o quadro, desde a queda do muro de Berlim, seguida pelo fim do lado oriental da “cortina de ferro”, a maioria dos partidos ditos de esquerda jogou fora as suas bandeiras e lançou-se alegremente nas fileiras dos adoradores do Deus Mercado, abraçando a nova religião universal.

Como demonstrou um dos mais profundos estudiosos das entranhas desse deus, cujo nome verdadeiro é modo de produção capitalista, seu móvel é a taxa de lucro e sua única finalidade é a valorização do capital. Como periodicamente aquela taxa cai, esta queda retarda a formação de novos capitais autônomos, promovendo, inevitavelmente, superprodução, especulação, crises, capital supérfluo e, para  o que nos interessa diretamente, POPULAÇÃO SUPÉRFLUA. Na condição de parte da população supérflua, inúmeros grupos de teatro vêm se organizando em todo o Brasil desde os anos 90 do século passado. E como os demais supérfluos, sobrevivem, em total liberdade (sobretudo a de passar fome), à margem da esfera pública

– está inteiramente privatizada e entregue a todos os exploradores da nova religião: igrejas propriamente ditas, jornais, rádio, televisão, cinema e demais espaços, ditos convencionais, de circulação de espetáculos-mercadoria, popularmente conhecidos como teatros.

Parodiando a frase dos nossos antigos liberais, não é excessivo dizer que o preço da nossa liberdade é a completa irrelevância. Como somos supérfluos do ponto de vista econômico, não constituímos ameaça real aos negócios do ramo do espetáculo e, como estamos à margem da esfera pública privatizada, o Estado também não precisa se preocupar conosco. Isto posto, e considerando que entretanto continuar fazendo o que fazemos é para nós questão de vida ou morte, como reverter este quadro?

A chave da porta é evidentemente a política, entendida não mais como fatalística submissão às regras do jogo e sim como amplo processo de questionamento não do próprio jogo e suas regras, mas sobretudo da sociedade que os forjou e para a qual aparece como fatalidade a existência de uma população supérflua. No caso dos que fazemos teatro, esta idéia obriga a enfrentar uma ampla pauta de estudos, mas uma parte importante da nossa experiência e da história de nossos antecessores pode servir de horizonte para a nossa luta pelo direito à existência.

Nossa experiência de grupo ensinou a necessidade de combater os valores subjetivos que asseguram a existência da sociedade que fez de nós seres supérfluos. É

o caso, por exemplo, do individualismo, da irresponsabilidade, do descompromisso com o coletivo, ou falta de solidariedade e do autoritarismo. Estes valores, to-dos a serviço da concorrência que é parte do funcionamento da sociedade capitalista, são uma permanente ameaça à sobrevivência de um grupo teatral. A eles, o trabalho coletivo opõe entre outros altruísmos, generosidade, responsabilidade, solidariedade e relações democráticas. Mas se a duras penas temos conseguido cultivá-los entre nós e em meio ao público que nos acompanha e apóia, sem conquistar a esfera pública propriamente dita, o senti-do profundo das nossas experiências, que é político, corre o risco de se perder. Para dar o passo que falta, a história das lutas sociais do século vinte, envolvendo também artistas de teatro, apresenta alguns episódios capazes de no mínimo mobilizar a nossa imaginação.

O primeiro ilustra o modo como oshow business está sempre de olho em talentos individuais onde quer que estes se manifestem. Contam os livros de história do anarco-sindicalismo americano que uma jovem adolescente participava de um ato público em Nova Iorque e chamou a atenção de um produtor da Broadway. Seu desempenho oratório era tão brilhante que, ao final, ele tratou de convidá-la para integrar o elenco de sua próxima produção. A militante da IWW (Industrial Workers of the World), organização que ainda existe, recusou a proposta e um salário milionário, respondendo sem pestanejar: “Eu falo o meu próprio textoou, em inglês, I speak my own lines. Não se deve esperar de um ator a mesma capacidade de resistência ao canto de sereia do mercado sintetizada no gesto daquela militante anarquista, mas um ator com experiência em teatro de grupo, inspirado nele, pode negociar melhor os termos em que venderá sua força de trabalho se não se esquecer de que provém de um coletivo a parte decisiva de seu talento.

Outro caso, que delineia um horizonte muito próximo do nosso, verificou-se em fins do século XIX e começo do XX. Quem conhece a história do Teatro Livre sabe que sua marca registrada foi a arregimentação de trabalhadores que gostavam de teatro a ponto de também querer fazê-lo, a começar por André Antoine, um empregado da companhia de gás parisiense. Mas estes trabalhadores queriam encenar textos que tratava de assuntos censurados ou sem interesse para o mercado teatral. A versão alemã desta experiência em pouco tempo viu-se diante do desafio de politizar-se porque seus espetáculos atropelavam os critérios da censura, que reagiu com violência, e os trabalhadores organizados em partidos e sindicatos apoiaram a sua luta. O resultado desta aproximação entre teatro e trabalhadores organizados é a Volksbühne, que até hoje resiste e produz espetáculos que dão o que pensar, como vimos recentemente em São Paulo e outras capitais brasileiras.
Um dos cartazes do espetáculo Isto não pode acontecer aqui, que estreou no mesmo dia em 18 cidades

Um terceiro caso, um pouco mais complexo, deu-se nos Estados Unidos durante o governo Roosevelt. Como a crise de 1929 produziu uma verdadeira legião de artistas supérfluos, foi criado um programa federal de apoio às artes que os empregou aos milhares. Chamada Federal Theatre, a parte que nos interessa deste programa promoveu a mais ampla experiência teatral da história daquele país. Para ficar em apenas um exemplo:

o espetáculo Isto não pode acontecer aqui (It can’t happen here) estreou no mesmo dia em 18 cidades, em 22 produções diferentes, quatro das quais em Nova Iorque e duas em Los Angeles. Isto aconteceu no dia 27 de outubro de 1936. Duas semanas depois estreou uma 23ª produção e nove delas ainda circularam pelo país uma vez encerrada a temporada de estréia. Ao final do processo, o espetáculo tinha sido visto por cerca de 500 mil pessoas. Este episódio único se explica pelo alto grau de politização dos envolvidos no processo.

Por muito suspeito que possa soar, não dá para resistir à tentação de dizer que o teatro tende a inspirar políticas democráticas radicais e que a mobilização política inspira práticas teatrais muito mais democráticas do que se pode imaginar. O caminho é a luta                                                                                                                          

 


Uma coletividade crítica

NEY PIACENTINI E S ÉRGIO DE CARVALHO

A chance de uma inserção mais viva do teatro no sistema das artes está na sua desmercantilização. É a partir de uma contradição que se abre alguma possível mudança: uma nova circulação em alguma medida será um retorno à produtividade, à não-circulação. Ela depende do fim do imperialismo do valor de troca, da negação do sentido mercantil do trabalho teatral. É do retorno a uma utilidade propriamente artística, uma utilidade afeita ao inútil, uma utilidade da ação supérflua em relação à sobrevivência físicamas necessária em relação à vida livre, que o teatro extrai a chance de um diálogo produtivo com sua época. Sempre que se sujeita acriticamente aos limites convencionais impostos pelo chamado mercado das artes (entidade mal formada num país sem burguesia liberal), o teatro reafirma a voz da mercadoria. As temporadas nos teatros centrais nas grandes cidades, quando não criam um novo lugar de encontro artístico, reproduzem a marca da instituição acolhedora. O dinheiro gasto com mídia paga, assessorias de imprensa e bajulação dos servidores das empresas jornalísticas acena para céu dos grandes capitais como o primo pobre cumprimenta o grande parente financista e nesse gesto expressa sua aprovação invejosa. Enquanto isso, encalham os cartazes e filipetas que insistimos em manter como lembrança de uma época em que se tinha uma relação mais direta com o público, lembrança de um tempo pré-financeirizado em que os produtores tinham o gosto de mercadejar porque na feira dos bens culturais ainda existia alguma relação viva para além da hegemonia das marcas. Nos antípodas disso, a recusa simples em participar do jogo, a decisão em se afastar dos centros urbanos e dos lugares marcados do teatro não garante a ninguém uma desmercantilização das relações. O movimento de fuga pode carregar consigo o horror de origem.

Para carregar o autoritarismo ideológico das falsas respostas ou o fetichismo da cultura autorizada. Para criar um novo lugar, o teatro não pode ignorar que o processo de mercantilização atravessa toda a vida subjetiva e objetiva da sociedade, nem deixar de se dirigir aos despossuídos. Se é verdade que o movimento vem das províncias e subúrbios, é também verdade que não devemos deixar de atuar nos centros da produção simbólica e dos debates críticos, porque é em relação a eles que os extremos se posicionam. Aos descontentes, em toda parte, nos dirigimos.

A esperança para o teatro provém de seu potencial de dizer não às tendências dominantes do mundo da mercadoria – a especialização, a individualização, a serialização, a facilitação, a hedonização, a consumição. É porque esse potencial subsiste que não desistimos por completo da tentativa de uma relação direta com o público. Isso quer dizer – as companhias que pretendem superar os limites pré-estabelecidos pelo que se chama de mercado não devem priorizar o seu aprimoramento estético mas também trabalhar para substituir o destino de todo produto (a circulação) por um destino de ativação da coletividade. A criação de coletivos de grupos teatrais, o cooperativismo, a junção com parceiros não habituados a partilhar do chamado universo cultural, o estabelecimento de objetivos produtivos que façam – de atores e publico – seres conscientemente ativos e responsáveis, tudo isso pode ser o ponto de partida para um trabalho desmercantilizado nos centros ou periferias das cidades. Não são produtos ou eventos culturais que devemos oferecer, mas processos de invenção livre de uma vida melhor. A elaboração de políticas públicas para o teatro terá importância real quando liberar energias para uma democratização verdadeira das potencialidades críticas da sensibilidade.

Não são aos consumidores de arte que nos dirigimos. Não deveríamos reforçar a ilusão de que o mercado oferece escolhas e autonomia, mas sim trabalhar para uma coletividade crítica. A capacidade de diálogo com espectadores se mede pela desautomatização de seus hábitos de consumo cultural, pela formação de novos modelos produtivos, pela flexibilização de suas estruturas de pensamento, imaginação e percepção, pela lembrança simbólica de que existimos coletivamente. Cabe a nóscom nossa capacidade profissional, em meio ao mundo da mercadoriaproduzir condições materiais para que o livre Amadorismo seja um direito de todos e um modelo para o ofício. Se as gerações anteriores encontraram saídas para o seu tempo, cabe a nós pôr em movimento nossa história.


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