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Eduardo Galeano sempre entusiasmo!

 


RELENDO SARAMAGO

Relendo Saramago

O espaço da praça, bem que de volta eu queria
onde a vida acontecia à volta da catedral.

Os jardins, toda gente circulando tão normal,
ocupando espaço público, em bancos de contemplar,
o azul, o verde, a brisa, a mente, a prosa,
os pássaros, o sorriso, intercâmbio da alegria,
com pessoas se encontrando no prazer
de relaxar, viver e conviver…

No lugar da catedral, onde tudo acontecia,
algo estranho aconteceu,
novo perfil se estendeu.

Desse espaço de humanismo,
nova mente compulsão formatada no consumo,
se estendeu. Virou centro comercial o coração.
Tudo se aprisionou.

Tomou conta do espaço, o consumo tentação,
Foi entrando pelos olhos, nos ouvidos e nariz,
tomou conta dos sentidos, toda a mente do indivíduo,
temeroso de exclusão, de expulsão do paraíso
de comprar, consumir, de ter mais por mais não ser.

Tendo em vista a nova crise, o consumo perde espaço,
novo risco a arriscar interroga o mercado que desaba em aflição.

Há no ar acontecendo novos jeitos, que não quero especular.

Quero a crise que questione, desinstale, que coloque no lugar,
o que é justo a cada ser no espaço da catedral,
Cada qual com seu espaço alternativo de viver…

Nova praça, nova escola, novo tempo em saber me quero ver.
Quero sonhos, quero amar com todo o mundo ser feliz,
filosofo em meu querer…Novo jeito de entender,

Transformar.

Gaiô.

Outra leitura para a crise
Abril 7, 2009 by José Saramago

A mentalidade antiga formou-se numa grande superfície que se chamava catedral; agora forma-se noutra grande superfície que se chama centro comercial. O centro comercial não é apenas a nova igreja, a nova catedral, é também a nova universidade. O centro comercial ocupa um espaço importante na formação da mentalidade humana. Acabou-se a praça, o jardim ou a rua como espaço público e de intercâmbio. O centro comercial é o único espaço seguro e o que cria a nova mentalidade. Uma nova mentalidade temerosa de ser excluída, temerosa da expulsão do paraíso do consumo e por extensão da catedral das compras.
E agora, que temos? A crise.
Será que vamos voltar à praça ou à universidade? À filosofia?

Gaiô
Publicado no Recanto das Letras em 20/06/2010
Código do texto: T2330988

Zapata: um morto útil?


Enrique Ubieta

Publicado em 24 de Fevereiro de 2010 – Em MONCADA

A absoluta carência de mártires de que padece a contra-revolução cubana é proporcional a sua falta de escrúpulos. É difícil morrer em Cuba, não porque as expectativas de vida sejam as de Primeiro Mundo – ninguém morre de fome, ainda que pese a carência de recursos, nem de enfermidades curáveis –, porque impera a lei e a honestidade.

As Damas de Branco e Yoani podem ser detidas e julgadas segundo as leis vigentes – em nenhum país pode violarem-se as leis: receber dinheiro e colaborar com a embaixada do Irã (um país considerado como inimigo) nos Estados Unidos, por exemplo, pode acarretar a perda de todos os direitos cidadãos naquela nação –, porém elas sabem que em Cuba ninguém desaparece, ninguém é assassinado.

Além do mais, um Zapata entregou sua vida por um ideal que prioriza a felicidade dos demais, não por um que prioriza a própria. Assim foi a lamentável morte de Orlando Zapata, um preso comum – de extenso histórico de delitos, em nada vinculado à política –, exultada intimamente por seus “parentes”. Transformado, depois de muitas e vindas à prisão, em “ativista político”, Zapata foi o candidato perfeito para a auto-execução.

Era um homem “dispensável” para os “grupelhos” e fácil de convencer para que persistisse em uma greve de fome absurda, com pedidos impossíveis (cozinha e telefone pessoal na cela) que nenhum dos reais cabeças teve coragem de sustentar.

Cada uma das greves anteriores havia sido anunciada pelos instigadores como uma provável morte, porém os grevistas sempre desistiam em bom estado de saúde. Instigado e alentado a prosseguir até a morte – esses mercenários lavam sua mãos diante da possibilidade de que se morressem, apesar do esforço incansável dos médicos –, o cadáver de Zapata é agora exibido com cinismo como troféu coletivo.

Como abutres estavam os meios de comunicações – os mercenários e a direita internacional –, rondavam em torno do moribundo. Seu falecimento é um banquete. Um asco de espetáculo. Porque aqueles que escrevem sobre ele não lastimam a morte de um ser humano – em um país sem mortes extra-judiciais –, mas a comemoram quase com alegria e a utilizam com premeditados fins políticos. O caso de Zapata me lembra o de Pánfilo: os dois foram manipulados e, de certa forma, conduzidos à auto-destruição de forma premeditada, para satisfazer necessidades políticas alheias: um, levado a uma persistente greve de fome de 85 dias (já havia realizado outras anteriormente que afetaram a sua saúde); o outro, em pleno processo de desintoxicação alcoólica, foi convidado a beber para que dissesse na frente do magistrado o que queriam ouvir.

Pergunto-me se isso não é uma acusação contra quem agora se apropria de sua “causa”. Têm razão ao dizer que foi um assassinato, porém os meios de comunicação escondem o verdadeiro assassino: os grupelhos cubanos e seus mentores transnacionais. Zapata foi assassinado pela contra-revolução.

(Retirado do blog La Isla desconocida)

Tradução: Maria Fernanda Magalhães Scelza


GENERAL RESPONDE À MIRIAN LEITÃO

PRECISA SER LIDO E PENSADO

Resposta do General Torres de Melo à carta da jornalista.

À Senhora Jornalista Miriam Leitão

Li o seu artigo “ENQUANTO ISSO”, com todo cuidado  possível. Senti,
em suas linhas, que a senhora procura mostrar que os MILITARES
BRASILEIROS de HOJE, são bem diferentes dos MILITARES BRASILEIROS de ONTEM. Penso que esse é o ponto central de sua tese. Para criar credibilidade nas suas afirmativas, a senhora escreveu: “houve um
tempo em que a interpretação dos militares brasileiros sobre LEI E
ORDEM era rasgar as leis e ferir a ordem. Hoje em dia, eles
demonstram com convicção terem apren dido o que não podem fazer”.

Permita-me discordar dessa afirmativa de vez que vejo nela uma
injustiça, pois fiz parte dos MILITARES DE ONTEM e nunca vi os meus
camaradas militares rasgarem leis e ferir a ordem. Nem ontem nem
hoje. Vou demonstrar a minha tese.

No Império, as LEIS E A ORDEM foram rasgadas no Pará,  Ceará, Minas,
Rio, São Paulo e Rio Grande do Sul pelas paixões políticas da época.
AS LEIS E A ORDEM foram restabelecidas pelo Grande Pacificador do
Império, um Militar de Ontem, o Duque de Caxias, que com sua ação
manteve a Unidade Nacional. Não rasgamos as leis nem ferimos a
ordem. Pelo contrário. Vem a queda do Império e a República.. Pelo
que sei, e a História registra, foram políticos que acabaram
envolvendo os velhos  Marechais Deodoro e Floriano nas lides
políticas. A política dos governadores criando as oligarquias
regionais, não foi obra dos Militares de Ontem, quando as leis e a
ordem foram rasgadas e feridas  pelos donos do Poder, razão maior
das revoltas dos tenentes da década de 20, que sonhavam com um
Brasil mais democrático e justo. Os  Militares de Ontem ficaram ao
lado da lei e da Ordem. Lembro à nobre jornalista que foram os civis
políticos que fizeram a revolução de 30, apoiados, contudo, pelos
tenentes revolucionários,  menos Prestes, que abraçou o comunismo
russo.

Veio a época getuliana, que, aos poucos, foi afastando os tenentes
das decisões políticas. A revolução Paulista não foi feita pelos
Militares de Ontem e sim pelos políticos paulistas que não aceitavam
a ditadura de Vargas. Não foram os Militares de Ontem que fizeram a
revolução de 35 (senão alguns, levados por civis a se converterem
para a ideologia vermelha, mas logo combatidos e derrotados pelos
verdadeiro s Militares de Ontem); nem fizeram a revolta de 38; nem
deram o golpe de 37. Penso que a senhora, dentro de seu espírito de
justiça, há de concordar comigo que foram as velhas  raposas GETÚLIO
– CHICO CAMPOS – OSWALDO ARANHA e os chefetes que estavam nos
governos dos Estados, que aceitaram o golpe de 37. Não coloque a
culpa nos Militares de Ontem.

Veio a segunda guerra mundial. O Nazismo e o Fascismo tentam
dominaro mundo. Assistimos ao primeiro choque da hipocrisia da
esquerda. A senhora deve ter lido – pois àquela época não seria
nascida -, sobre o acordo da Alemanha e a URSS para dividirem a
pobre Polônia e os sindicatos comunistas do mundo ocidental fazendo
greves contra os seus próprios países a favor da Alemanha por
imposição da URSS e a mudança de posição quando a “Santa URSS” foi
invadida por Hitler. O Brasil ficou em cima de muro até que nossos
navios (35) foram afundados. Era a guerra, a FEB e seu término.

Getúlio – o ditador – caiu e vieram as eleições. As Forças Armadas
foram chamadas a intervir para evitar o pior. Foram os políticos que
pressionaram os Militares de Ontem para manter a ordem.

Não rasgamos as leis nem ferimos a ordem. Chamou-se o Presidente do
Supremo Tribunal Federal para, como Presidente, governar a
transição. Não se impôs MILITAR algum.

O mundo dividiu-se em dois. O lado democrático, chamado pelos
comunistas de imperialistas, e o lado comunista com as suas
ditaduras cruéis e seus celebres julgamentos “democráticos” .

Prefiro o primeiro e tenho certeza de que a senhora, também. No lado
ocidental não se tinham os GULAGs. O período Dutra (ESCOLHIDO PELOS
CIVIS E ELEITO PELO VOTO DIRETODO POVO) teve seus erros – NUNCA
CONTRA A LEI E A ORDEM – e virtudes como toda obra humana. A
colocação do Partido Comunista na ilegalidade foi uma obra do
Congresso Nacional por inabilidade do próprio Carlos Prestes, que
declarou ficar ao lado da URSS e não do Brasil em caso de guerra
entre os dois países. Dutra vivia com o “livrinho” (a Constituição)
na mão, pois os políticos, nas suas ambições, queriam intervenções
em alguns Estados , inclusive em São Paulo. A senhora deve ter lido
isso, pois há vasta literatura sobre a História daqueles idos.

Novo período de Getúlio Vargas. Ele já não tinha mais o vigor dos
anos trinta. Quem leu CHATÔ, SAMUEL WEINER (a senhora leu?) sente
que os falsos amigos de Getúlio o levaram à desgraça. Os  Militares
de Ontem não se envolveram no caso, senão para investigar os crimes
que vinham sendo cometidos sem apuração pela Polícia; nem rasgaram
leis nem feriram a ordem.

Eram os políticos que se digladiavam e procuravam nos colocar como
fiéis da balança. O seu suicídio foi uma tragédia nacional, mas não
foram os Militares de Ontem os responsáveis pela grande desgraça.

A senhora permita-me ir resumindo para não ficar longo.

Veio Juscelino e as Forças Armadas garantiram a posse, mesmo com
pequenas divergências. Eram os políticos que queriam rasgar as leis
e ferir a ordem e não os Militares de Ontem. Nessa época, há o
segundo grande choque da esquerda. No XX Congresso do Partido
Comunista da URSS (1956) Kruchov coloca a nu a desgraça do
stalinismo na URSS. Os intelectuais esquerdistas ficam sem rumo.

Juscelino chega ao fim e seu candidato perde para o senhor Jânio
Quadros. Esperança da vassoura. Desastre total. Não foram os
Militares de Ontem que rasgaram a lei e feriram a ordem. Quem
declarou vago o cargo de Presidente foi o Congresso Nacional.  A
Nação ficou ao Deus dará. Ameaça de guerra civil e os políticos
tocando fogo no País e as Forças Armadas divididas pelas paixões
políticas, disseminadas pelas “vivandeiras dos quartéis” como muito
bem alcunhou Castello.

Parlamentarismo, volta ao presidencialismo, aumento das paixões
políticas, Prestes indo até Moscou afirmando que já estavam no
governo, faltando-lhes apenas o Poder. Os militares calados e o
chefe do Estado Maior do Exército (Castello) recomendando que a
cadeia de comando deveria ser mantida de qualquer maneira. A
indisciplina chegando e incentivada dentro dos Quartéis, não pelos
Militares de Ontem e sim pelos políticos de esquerda; e as
vivandeiras tentando colocar o Exército na luta política.

Revoltas de Polícias Militares, revolta de sargentos em Brasília,
indisciplina na Marinha, comícios da Central e do Automóvel Clube
representavam a desordem e o caos contra a LEI e a ORDEM. Lacerda,
Ademar de Barros, Magalhães Pinto e outros governadores e políticos
(todos civis)incentivavam o povo à revolta. As marchas com Deus,
pela Família e pela Liberdade (promovidas por mulheres)
representavam a angústia do País. Todo esse clima não foi produzido
pelos MILITARES DE ONTEM. Eles, contudo, sempre à escuta dos apelos
do povo, pois ELES são o povo em armas, para garantir as Leis e a
Ordem. Minas desce. Liderança primeira de civil; era Magalhães
Pinto. Era a contra-revoluçã o que se impunha para evitar que o
Brasil soçobrasse ao comunismo. O governador Miguel Arraes declarava
em Recife, nas vésperas de 31 de março: haverá golpe. Não sabemos se
deles ou nosso.

Não vamos ser hipócritas. A senhora, inteligente como é, deve ter
lido muitos livros que reportam a luta política daquela época
(exemplos: A Revolução Impossível de Luis Mir – Combates nas Trevas
de Jacob Gorender – Camaradas de William Waack – etc) sabe que a
esquerda desejava implantar uma ditadura de esquerda. Quem afirma é
Jacob Gorender. Diz ele no seu livro: “a luta armada começou a ser
tentada pela esquerda em 1965 e desfechada em definitiva a partir de
1968”.. Na há, em nenhuma parte do mundo, luta armada em que se vão
plantar rosas e é por essa razão que GORENDER afirma: “se quiser
compreendê-la na perspectiva da sua história, A ESQUERDA deve
assumir a violência que praticou”. Violência gera violência.
Castello, Costa e Silva, Médici, Geisel e João Figueiredo com seus
erros e virtudes desenvolveram o País. Não vamos perder tempo com
isso. A senhora é uma economista e sabe bem disso. Veio a ANISTIA.

João Figueiredo dando murro na mesa e clamando que era para todos; e
Ulisses não desejando que Brizolla, Arraes e outros pudessem tomar
parte no novo processo eleitoral, para não lhe disputarem as chances
de Poder. João bateu o pé e todos tiveram direito, pois “lugar de
Brasileiro é no Brasil”, como dizia. Não esquecer o terceiro choque
sofrido pela a esquerda: Queda do Muro de Berlim, que até hoje a
nossa esquerda não sabe desse fato histórico.

Diretas já. Sarney, Collor com seu desastre, Itamar, FHC, LULA e
chega aos aos dias atuais. Os Militares de Hoje, silentes, que não
são os responsáveis pelas desgraças que vivemos agora, mas sempre
aguardando a voz do Povo. Não houve no passado, nem há, nos dias de
hoje, nenhum militar metido em roubo, compra de voto, CPI, dólar em
cueca, mensalões ou mensalinhos. Não há nenhum Delúbio, Zé Dirceu,
José Genoíno, e que tais. O que já se ouve, o que se escuta é o povo
dizendo: SÓ OS MILITARES PODERÃO SALVAR A NAÇÃO. Pois àquela época
da “ditadura” era que se era feliz e não se sabia…Mas os Militares
de Hoje, como os de Ontem, não querem ditadura, pois são formados
democratas. E irão garantir a Lei e a Ordem, sempre que preciso.

Os militares não irão às ruas sem o povo ao seu lado. OS MILITARES
DE HOJE SÃO OS MESMOS QUE OS MILITARES DE ONTEM. A nossa
>  desgraça é que políticos de hoje (olhe os PICARETAS do Lula!) –
as  exceções justificando a regra – são ainda piores do que os de
ontem. São sem ética e sem moral, mas também despudorados. E o
Brasil sofrendo, não por conta dos MILITARES, mas de ALGUNS
POLÍTICOS – uma
corja de canalhas, que rasgam as leis e criam as desordens.

Como sei que a senhora é uma democrata, espero que publique esta
carta no local onde a senhora escreve os seus artigos, que os leio
atenta e religiosamente, como se fossem uma Bíblia. Perfeitos no
campo econômico, mas não muitos católicos ou evangélicos no campo
político por uma razão muito simples: quando parece que a senhora
tem o vírus de uma reacionária de esquerda.

Atenciosa e respeitosamente,

GENERAL DE DIVISÃO REFORMADO DO EXÉRCITO
FRANCISCO BATISTA TORRES DE MELO.

(Um militar de ontem, que respeita os militares de hoje, que pugnam  pela Lei e a Ordem).


A linkania e o Religare

25 março 2009 1,237 views One Comment

boy Uma é palavra do futuro. Outra é palavra do passado. E quero aqui falar do presente. Linkando-as e religando-as.

Pretensamente, acho que ninguém obteve até agora ao menos uma turva noção do que a modernidade e a tecnologia representam para o que chamo de mundo novo. E humildemente percebo que não serei eu que terei essa noção. Quero aqui contribuir para o caldo sináptico de teorias. E fazer convites. Um convite para a ação e outro para a conexão.

Antes de explicar o que é linkania – e assim mantenho o suspense e o interesse no artigo :) – quero explicar que alguns erros estão sendo cometidos pelos pensadores (aqui meu lado pretensão) ao mesmo tempo que a humanidade ri, as pessoas comuns não se preocupam com isso, continuam vivendo e gerando as variáveis que estabelecerão o novo paradigma. O tal do mundo novo.

Acho impertinente a visão pequena que associa a internet a um pequeno grupo de pessoas. Porque pra mim internet é rede. Rede é link. E os pobres fazem links há muito mais tempo que nós, os tais conectados. E parece que estamos agora podendo perceber isso, numa espécie de retomada da espontaneidade da solidariedade. É como voltar ao paraíso. É como deixar o inferno da “coisificação”. Ficamos muito tempo deslumbrados com a máquina enquanto que o humano era algo obsoleto. Sou um otimista que enxerga o mundo novo como a volta à conversa, ao link. A possibilidade nunca foi tão presente.

Temos o maior projeto cooperativo da história da humanidade, o linux. Temos uma retomada da conversa despretensiosa, não corporativa, descompromissada e não hierárquica, através dos chats, dos blogs, das listas. E temos os encontros em carne e osso, vitais e reais, que impedem os críticos de propor a falsa rotulagem de que os internautas são seres solitários. (Eles são, isso sim, soliDários…). Temos as iniciativas valiosas da internet nas favelas, nas escolas, nos postos públicos. Temos o mundo corporativo já conectado, onde o office boy não fica mais na fila do banco (ou finge que fica, passa as contas pra secretária pagar pelo bank line e vai jogar fliperama…)

“O computador conectado será em breve (e já é para muitos de nós) uma extensão tecno-natural de nossas mentes e corpo, assim como o carro é há muitas décadas uma extensão tecno-natural de nossas pernas”. (isso é copyleft do marioav)

E então o que falta ? Falta pouco. Falta tempo. Falta só que alguns velhos morram, outros se aposentem e que esta geração jovem já conectada cresça, tome seus lugares nas empresas, nos governos e nas ONGs. Só isso. A nós que estamos vivendo no limbo, no gap desta revolução, só nos resta desfrutar deste mágico momento da incerteza, do caminho nebuloso. Eu estou curtindo viver isso. Esses momentos de tensão e distensão. É como um parto. Sabemos que o mundo novo nascerá saudável, mas essa expectativa/gravidez é uma mistura de aflição com entusiasmo … Ops. Já ia esquecendo de explicar o que é linkania e religare (grávido é assim, está sempre nas nuvens)

Linkania (copyleft meu) é termo do futuro. É que ando cansado do discurso vazio da tal cidadania. Vazio porque não diz quase nada, mas fica bonito dizer. Cidadania, na essência, está vinculado (linkado?) a direitos e deveres. E ao invés de falarmos e exercemos plenamente isso, discutir, ensinar, propagar, falamos na vaga terminologia da cidadania. Os miseráveis escutam e dão de ombros. Os ricos falam e se sentem cidadãos. Se todos soubéssemos quais são nossos direitos e quais são nossos deveres, metade dos problemas (eu diria que mais, mas serei aqui cauteloso) estariam resolvidos. Mas cidadania é mais pomposo. Pega bem. E aí veio o insight : cidadania vem de cidadão, vem de cidade. Mas estamos tão desterritorializados nesta teia que a cidade perde o sentido pra mim, sabe ?

Os ecologistas geração-68 nos trouxeram frase ótima : Pense globalmente e aja localmente. De um lado a globalização, (que sou favorável, porque não é só econômica, aliás essa é a parte que menos me interessa). Do outro lado, o local, a associação comunitária de bairro, que promove cursos, ensina capoeira, tem creche… Ah ! Você não conhece ? Mas os pobres sim. Tua empregada conhece. É que eles estão conectados, sabe ? Estão linkados uns com os outros. Aprenderam faz muito tempo.

Então linkania é isso. É a cidadania sem cidades. É desterritorializado. A ação se dá localmente, mas a conexão é global. É o link do amigo, do vizinho. É a dica. É o negócio entre duas empresas de 2 continentes diferentes. É a ajuda que teu primo te dá desde Madri por email. É a discussão que circula na lista pra visitar tal exposição, e o link pra exposição, que imprimem e colocam no mural da creche. Tudo isso é link. É a matéria que um blogueiro comenta e que te faz pensar. É a descoberta valiosa do desempregado que vai a um infocentro e se cadastra em um programa de governo que lhe dará um emprego. E foi o vizinho que disse. Deu a dica, o link. E aí, pouco a pouco, vamos descobrindo quais são nossos direitos, porque a informação é pública . E vamos percebendo quais são nossos deveres, porque quem está em volta sugere e a gente concorda. E é assim mesmo, meio caótico, desestruturado. De acordo com o interesse de cada um e na disponibilidade que o sujeito tem em linkar e ser linkado. Em receber e repassar informação. Os herméticos irão perdendo terreno, ou se linkarão a outros herméticos e então tudo bem. Os velhos irão perdendo o terreno. Ou se linkarão com outros velhos, só por prazer. Tudo isso está fluindo e para que mude o paradigma falta pouco. É uma revolução silenciosa e divertida. E é sub-corporativa, deliciosamente caótica, enredada, sináptica, não linear, não metódica.

Percebe que falei todo o tempo de internet e não falei de grana ? É que a internet e não lucrativa, sabe ? Eu não estou falando dos cabos, das máquinas, das bases de dados, isso é “coisificação”. Eu estou falando das relações entre humanos. As conversas. Os icqs. É obvio que alguns humanos podem se linkar pra fazer negócios na rede. Mas podem também se linkar pra jogar conversa fora. Em ambos os casos estão conversando percebe ? Cluetrain , saca ?

E ainda não falei em religare mas acho que você já percebeu, não é ? Enquanto linkania é palavra do futuro, religare é palavra do passado. É de onde se originou a palavra religião. Mas acho religare mais bonito. Muito mais bonito. Porque não implica credos, rituais ou instituições. Não implica fiéis e infiéis. Implica basicamente re-conectar-se. Com a vida, com o mundo, com o todo. E com seu vizinho.

Religare está ocorrendo pra nós, que temos internet, somos “incluídos digitalmente”, estamos em bunkers em nossas cidades, exercemos ou não uma pretensa cidadania. Estamos na fase “RE” do re-ligare. A miséria esteve sempre no “ligare”. Foi sempre a única saída. Entre eles próprios, a fraternidade ocorreu por sobrevivência e com naturalidade. Por isso continuam vivos, porque se ajudam. Nós não os ajudamos desde quando nos desconectamos deles, quando os “coisificamos”. E o que falta então ? Tempo. O tempo da nova geração conectada crescer enquanto os filhos dos pobres crescem conectados em suas escolas e associações de bairro. Na rede sem hierarquias e descompromissada, coisas acontecerão.

Cabe a nós conectados o religare. O link que os pobres já exercem entre si. É nessa imensa brincadeira cooperativa onde nos linkamos pela web pra enviar um texto, pra marcar um chopp, que está ocorrendo o caldo, a gênese desse mundo novo. Cabe a nós o link. Quero falar com muitas pessoas. Aprender delas e ensinar pra elas. Numa troca. A idéia do João me dá o insight, que passo pra Maria, que repassa e que o Pedro transforma em ação, que dá uma idéia pro Caio…

Falei no começo que faria dois convites. E você pode escolher. Ambos são muito valiosos. Se você se conectar, já estará contribuindo para o caos sináptico. O caldo ficará mais engrossado e isso é ótimo (e os Pedros e Marias agradecerão). Se você quer agir, siga em frente. Só não seja hermético. Nós perderemos com isso. A tua ação, se não tiver link com nada a não ser com você mesmo, não engrossará o caldo. E aí não dá liga. Agindo linkado, o universo conspirará a seu favor. Parece papo de religião, não é ? Não. Não é. É religare. E linkania.

Marcelo Estraviz é copyleft

Tudo que escrevo pode ser copiado, editado, trans-substanciado e abduzido. Todas as fotos deste site são free, provenientes daqui: http://www.sxc.hu Tudo que é sólido se desmancha no ar ou se espatifa no chão, como as jacas. Marcelo Estraviz é facinho. É casado com Elisa. É pai babão de Luisa. Torce para o Jabaquara. Acredita em ateus. Marcelo Estraviz é um profissional. É um artesão. Marcelo Estraviz não pode ser vendido separadamente. “marcelo estraviz é tipuri.”


SOBRE A TORTURA

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