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A linkania e o Religare

25 março 2009 1,237 views One Comment

boy Uma é palavra do futuro. Outra é palavra do passado. E quero aqui falar do presente. Linkando-as e religando-as.

Pretensamente, acho que ninguém obteve até agora ao menos uma turva noção do que a modernidade e a tecnologia representam para o que chamo de mundo novo. E humildemente percebo que não serei eu que terei essa noção. Quero aqui contribuir para o caldo sináptico de teorias. E fazer convites. Um convite para a ação e outro para a conexão.

Antes de explicar o que é linkania – e assim mantenho o suspense e o interesse no artigo :) – quero explicar que alguns erros estão sendo cometidos pelos pensadores (aqui meu lado pretensão) ao mesmo tempo que a humanidade ri, as pessoas comuns não se preocupam com isso, continuam vivendo e gerando as variáveis que estabelecerão o novo paradigma. O tal do mundo novo.

Acho impertinente a visão pequena que associa a internet a um pequeno grupo de pessoas. Porque pra mim internet é rede. Rede é link. E os pobres fazem links há muito mais tempo que nós, os tais conectados. E parece que estamos agora podendo perceber isso, numa espécie de retomada da espontaneidade da solidariedade. É como voltar ao paraíso. É como deixar o inferno da “coisificação”. Ficamos muito tempo deslumbrados com a máquina enquanto que o humano era algo obsoleto. Sou um otimista que enxerga o mundo novo como a volta à conversa, ao link. A possibilidade nunca foi tão presente.

Temos o maior projeto cooperativo da história da humanidade, o linux. Temos uma retomada da conversa despretensiosa, não corporativa, descompromissada e não hierárquica, através dos chats, dos blogs, das listas. E temos os encontros em carne e osso, vitais e reais, que impedem os críticos de propor a falsa rotulagem de que os internautas são seres solitários. (Eles são, isso sim, soliDários…). Temos as iniciativas valiosas da internet nas favelas, nas escolas, nos postos públicos. Temos o mundo corporativo já conectado, onde o office boy não fica mais na fila do banco (ou finge que fica, passa as contas pra secretária pagar pelo bank line e vai jogar fliperama…)

“O computador conectado será em breve (e já é para muitos de nós) uma extensão tecno-natural de nossas mentes e corpo, assim como o carro é há muitas décadas uma extensão tecno-natural de nossas pernas”. (isso é copyleft do marioav)

E então o que falta ? Falta pouco. Falta tempo. Falta só que alguns velhos morram, outros se aposentem e que esta geração jovem já conectada cresça, tome seus lugares nas empresas, nos governos e nas ONGs. Só isso. A nós que estamos vivendo no limbo, no gap desta revolução, só nos resta desfrutar deste mágico momento da incerteza, do caminho nebuloso. Eu estou curtindo viver isso. Esses momentos de tensão e distensão. É como um parto. Sabemos que o mundo novo nascerá saudável, mas essa expectativa/gravidez é uma mistura de aflição com entusiasmo … Ops. Já ia esquecendo de explicar o que é linkania e religare (grávido é assim, está sempre nas nuvens)

Linkania (copyleft meu) é termo do futuro. É que ando cansado do discurso vazio da tal cidadania. Vazio porque não diz quase nada, mas fica bonito dizer. Cidadania, na essência, está vinculado (linkado?) a direitos e deveres. E ao invés de falarmos e exercemos plenamente isso, discutir, ensinar, propagar, falamos na vaga terminologia da cidadania. Os miseráveis escutam e dão de ombros. Os ricos falam e se sentem cidadãos. Se todos soubéssemos quais são nossos direitos e quais são nossos deveres, metade dos problemas (eu diria que mais, mas serei aqui cauteloso) estariam resolvidos. Mas cidadania é mais pomposo. Pega bem. E aí veio o insight : cidadania vem de cidadão, vem de cidade. Mas estamos tão desterritorializados nesta teia que a cidade perde o sentido pra mim, sabe ?

Os ecologistas geração-68 nos trouxeram frase ótima : Pense globalmente e aja localmente. De um lado a globalização, (que sou favorável, porque não é só econômica, aliás essa é a parte que menos me interessa). Do outro lado, o local, a associação comunitária de bairro, que promove cursos, ensina capoeira, tem creche… Ah ! Você não conhece ? Mas os pobres sim. Tua empregada conhece. É que eles estão conectados, sabe ? Estão linkados uns com os outros. Aprenderam faz muito tempo.

Então linkania é isso. É a cidadania sem cidades. É desterritorializado. A ação se dá localmente, mas a conexão é global. É o link do amigo, do vizinho. É a dica. É o negócio entre duas empresas de 2 continentes diferentes. É a ajuda que teu primo te dá desde Madri por email. É a discussão que circula na lista pra visitar tal exposição, e o link pra exposição, que imprimem e colocam no mural da creche. Tudo isso é link. É a matéria que um blogueiro comenta e que te faz pensar. É a descoberta valiosa do desempregado que vai a um infocentro e se cadastra em um programa de governo que lhe dará um emprego. E foi o vizinho que disse. Deu a dica, o link. E aí, pouco a pouco, vamos descobrindo quais são nossos direitos, porque a informação é pública . E vamos percebendo quais são nossos deveres, porque quem está em volta sugere e a gente concorda. E é assim mesmo, meio caótico, desestruturado. De acordo com o interesse de cada um e na disponibilidade que o sujeito tem em linkar e ser linkado. Em receber e repassar informação. Os herméticos irão perdendo terreno, ou se linkarão a outros herméticos e então tudo bem. Os velhos irão perdendo o terreno. Ou se linkarão com outros velhos, só por prazer. Tudo isso está fluindo e para que mude o paradigma falta pouco. É uma revolução silenciosa e divertida. E é sub-corporativa, deliciosamente caótica, enredada, sináptica, não linear, não metódica.

Percebe que falei todo o tempo de internet e não falei de grana ? É que a internet e não lucrativa, sabe ? Eu não estou falando dos cabos, das máquinas, das bases de dados, isso é “coisificação”. Eu estou falando das relações entre humanos. As conversas. Os icqs. É obvio que alguns humanos podem se linkar pra fazer negócios na rede. Mas podem também se linkar pra jogar conversa fora. Em ambos os casos estão conversando percebe ? Cluetrain , saca ?

E ainda não falei em religare mas acho que você já percebeu, não é ? Enquanto linkania é palavra do futuro, religare é palavra do passado. É de onde se originou a palavra religião. Mas acho religare mais bonito. Muito mais bonito. Porque não implica credos, rituais ou instituições. Não implica fiéis e infiéis. Implica basicamente re-conectar-se. Com a vida, com o mundo, com o todo. E com seu vizinho.

Religare está ocorrendo pra nós, que temos internet, somos “incluídos digitalmente”, estamos em bunkers em nossas cidades, exercemos ou não uma pretensa cidadania. Estamos na fase “RE” do re-ligare. A miséria esteve sempre no “ligare”. Foi sempre a única saída. Entre eles próprios, a fraternidade ocorreu por sobrevivência e com naturalidade. Por isso continuam vivos, porque se ajudam. Nós não os ajudamos desde quando nos desconectamos deles, quando os “coisificamos”. E o que falta então ? Tempo. O tempo da nova geração conectada crescer enquanto os filhos dos pobres crescem conectados em suas escolas e associações de bairro. Na rede sem hierarquias e descompromissada, coisas acontecerão.

Cabe a nós conectados o religare. O link que os pobres já exercem entre si. É nessa imensa brincadeira cooperativa onde nos linkamos pela web pra enviar um texto, pra marcar um chopp, que está ocorrendo o caldo, a gênese desse mundo novo. Cabe a nós o link. Quero falar com muitas pessoas. Aprender delas e ensinar pra elas. Numa troca. A idéia do João me dá o insight, que passo pra Maria, que repassa e que o Pedro transforma em ação, que dá uma idéia pro Caio…

Falei no começo que faria dois convites. E você pode escolher. Ambos são muito valiosos. Se você se conectar, já estará contribuindo para o caos sináptico. O caldo ficará mais engrossado e isso é ótimo (e os Pedros e Marias agradecerão). Se você quer agir, siga em frente. Só não seja hermético. Nós perderemos com isso. A tua ação, se não tiver link com nada a não ser com você mesmo, não engrossará o caldo. E aí não dá liga. Agindo linkado, o universo conspirará a seu favor. Parece papo de religião, não é ? Não. Não é. É religare. E linkania.

Marcelo Estraviz é copyleft

Tudo que escrevo pode ser copiado, editado, trans-substanciado e abduzido. Todas as fotos deste site são free, provenientes daqui: http://www.sxc.hu Tudo que é sólido se desmancha no ar ou se espatifa no chão, como as jacas. Marcelo Estraviz é facinho. É casado com Elisa. É pai babão de Luisa. Torce para o Jabaquara. Acredita em ateus. Marcelo Estraviz é um profissional. É um artesão. Marcelo Estraviz não pode ser vendido separadamente. “marcelo estraviz é tipuri.”

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