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RELENDO SARAMAGO

Relendo Saramago

O espaço da praça, bem que de volta eu queria
onde a vida acontecia à volta da catedral.

Os jardins, toda gente circulando tão normal,
ocupando espaço público, em bancos de contemplar,
o azul, o verde, a brisa, a mente, a prosa,
os pássaros, o sorriso, intercâmbio da alegria,
com pessoas se encontrando no prazer
de relaxar, viver e conviver…

No lugar da catedral, onde tudo acontecia,
algo estranho aconteceu,
novo perfil se estendeu.

Desse espaço de humanismo,
nova mente compulsão formatada no consumo,
se estendeu. Virou centro comercial o coração.
Tudo se aprisionou.

Tomou conta do espaço, o consumo tentação,
Foi entrando pelos olhos, nos ouvidos e nariz,
tomou conta dos sentidos, toda a mente do indivíduo,
temeroso de exclusão, de expulsão do paraíso
de comprar, consumir, de ter mais por mais não ser.

Tendo em vista a nova crise, o consumo perde espaço,
novo risco a arriscar interroga o mercado que desaba em aflição.

Há no ar acontecendo novos jeitos, que não quero especular.

Quero a crise que questione, desinstale, que coloque no lugar,
o que é justo a cada ser no espaço da catedral,
Cada qual com seu espaço alternativo de viver…

Nova praça, nova escola, novo tempo em saber me quero ver.
Quero sonhos, quero amar com todo o mundo ser feliz,
filosofo em meu querer…Novo jeito de entender,

Transformar.

Gaiô.

Outra leitura para a crise
Abril 7, 2009 by José Saramago

A mentalidade antiga formou-se numa grande superfície que se chamava catedral; agora forma-se noutra grande superfície que se chama centro comercial. O centro comercial não é apenas a nova igreja, a nova catedral, é também a nova universidade. O centro comercial ocupa um espaço importante na formação da mentalidade humana. Acabou-se a praça, o jardim ou a rua como espaço público e de intercâmbio. O centro comercial é o único espaço seguro e o que cria a nova mentalidade. Uma nova mentalidade temerosa de ser excluída, temerosa da expulsão do paraíso do consumo e por extensão da catedral das compras.
E agora, que temos? A crise.
Será que vamos voltar à praça ou à universidade? À filosofia?

Gaiô
Publicado no Recanto das Letras em 20/06/2010
Código do texto: T2330988
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EDUARDO GALEANO

CIDADÃO DO MERCOSUL

Eduardo Galeano, as palavras e a alma da América Latina

No dia 3 de julho, os países do Mercosul concederam a Eduardo Galeano o título de primeiro Cidadão Ilustre da região. Estas foram suas palavras de agradecimento.

Redação – Carta Maior

Colar de histórias

Nossa região é o reino dos paradoxos.

Tomemos o caso do Brasil, por exemplo:

paradoxalmente, Aleijadinho, o homem mais feio do Brasil, criou as mais altas belezas da arte da época colonial;

paradoxalmente, Garrincha, arruinado desde a infância pela miséria e a poliomielite, nascido para a desgraça, foi o jogador que mais alegria ofereceu em toda a história do futebol;

e, paradoxalmente, Oscar Niemeyer, que já completou cem anos de idade, é o mais novo dos arquitetos e o mais jovem dos brasileiros.

***

Ou, por exemplo, a Bolívia: em 1978, cinco mulheres derrubaram uma ditadura militar. Paradoxalmente, toda a Bolívia zombou delas quando iniciaram sua greve de fome. Paradoxalmente, toda a Bolívia terminou jejuando com elas, até que a ditadura caiu.

Eu conheci uma dessas cinco obstinadas, Domitila Barrios, no povoado mineiro de Llallagua. Em uma assembléia de operários das minas, todos homens, ela levantou e fez todos calarem a boca.

Quero dizer só uma coisinha —disse—. Nosso inimigo principal não é o imperialismo, nem a burguesia, nem a burocracia. Nosso inimigo principal é o medo, e nós carregamos ele dentro.

E, anos depois, reencontrei Domitila em Estocolmo. Havia sido expulsa da Bolívia e ela tinha marchado para o exílio, com seus sete filhos. Domitila estava muito agradecida pela solidariedade dos suecos, e admirava a liberdade deles; mas tinha pena deles, tão sozinhos que estavam, bebendo sozinhos, comendo sozinhos, falando sozinhos. E dava-lhes conselhos:

Não sejam bobos –dizia-. Fiquem juntos. Nós, lá na Bolívia, ficamos juntos. Mesmo que seja para brigar, ficamos juntos.

***

E como tinha razão.

Porque, digo eu: existem os dentes, se não ficarem juntos na boca? Existem os dedos, se não ficarem juntos na mão?

Estarmos juntos: e não só para defender o preço dos nossos produtos, mas também, e sobretudo, para defender o valor dos nossos direitos. Bem juntos estão, mesmo que de vez em quando simulem brigas e disputas, os poucos países ricos que exercem a arrogância sobre todos os outros. Sua riqueza come pobreza, e sua arrogância come medo. Bem pouquinho tempo atrás, por exemplo, a Europa aprovou a lei que transforma os imigrantes em criminosos. Paradoxo de paradoxos: a Europa, que durante séculos invadiu o mundo, fecha a porta no nariz dos invadidos, quando eles querem retribuir a visita. E essa lei foi promulgada com uma assombrosa impunidade, que seria inexplicável se não estivéssemos acostumados a sermos comidos e a viver com medo.

Medo de viver, medo de dizer, medo de ser. Esta nossa região faz parte de uma América Latina organizada para o divórcio de suas partes, para o ódio mútuo e a mútua ignorância. Mas somente estando juntos seremos capazes de descobrir o que podemos ser, contra uma tradição que nos amestrou para o medo e a resignação e a solidão e que cada dia nos ensina a não gostar de nós mesmos, a cuspir no espelho, a copiar em vez de criar.

***

Ao longo da primeira metade do século dezenove, um venezuelano chamado Simón Rodríguez caminhou pelos caminhos da nossa América, no lombo de uma mula, desafiando os novos donos do poder:

Vocês —clamava o sr. Simón-, vocês que tanto imitam os europeus, por que não imitam o mais importante, que é a originalidade?

Paradoxalmente, não era ouvido por ninguém este homem que tanto merecia ser ouvido. Paradoxalmente, chamavam-no louco, porque cometia a sensatez de acreditar que devemos pensar com nossa própria cabeça; porque cometia a sensatez de propor uma educação para todos e uma América de todos, e dizia que a quem não sabe, qualquer um engana e a quem não tem, qualquer um compra, e porque cometia a sensatez de duvidar da independência dos nossos países recém-nascidos:

Não somos donos de nós mesmos —dizia. Somos independentes, mas não somos livres.

***

Quinze anos depois da morte do louco Rodríguez, o Paraguai foi exterminado. O único país hispano-americano verdadeiramente livre foi, paradoxalmente, assassinado em nome da liberdade. O Paraguai não estava preso na jaula da dívida externa, porque não devia nem um centavo para ninguém, e não praticava a mentirosa liberdade de comércio, que nos impunha e nos impõe uma economia de importação e uma cultura de impostação.

Paradoxalmente, depois de cinco anos de guerra feroz, entre tanta morte sobreviveu a origem. Segundo a mais antiga de suas tradições, os paraguaios nasceram da língua que os nomeou, e entre as ruínas fumegantes sobreviveu essa língua sagrada, a língua primeira, a língua guarani. E em guarani falam ainda hoje os paraguaios na hora da verdade, que é a hora do amor e do humor.

Em guarani, ñe´é significa palavra e também significa alma. Quem mente a palavra, trai a alma.

Se dou minha palavra, estou me dando.

***

Um século depois da guerra do Paraguai, um presidente do Chile deu sua palavra, e deu-se.

Os aviões cuspiam bombas sobre o palácio de governo, também metralhado pelas tropas de terra. Ele havia dito:

Daqui eu não saio vivo.

Na história latino-americana, é uma frase freqüente. Foi pronunciada por vários presidentes que depois saíram vivos, para continuar pronunciando-a. Mas essa bala não mentiu. A bala de Salvador Allende não mentiu.

Paradoxalmente, uma das principais avenidas de Santiago do Chile chama-se, ainda, Onze de Setembro. E não se chama assim pelas vítimas das Torres Gêmeas de Nova York. Não. Chama-se assim em homenagem aos verdugos da democracia no Chile. Com todo o respeito por esse país que amo, atrevo-me a perguntar, por simples senso comum: não seria hora de mudar-lhe o nome? Não seria hora de chamá-la Avenida Salvador Allende, em homenagem à dignidade da democracia e à dignidade da palavra?

***

E atravessando a cordilheira, pergunto-me: por que será que o Che Guevara, o argentino mais famoso de todos os tempos, o mais universal dos latino-americanos, tem o costume de continuar nascendo?

Paradoxalmente, quanto mais é manipulado, quanto mais é traído, mais nasce. Ele é o mais nascedor de todos.

E pergunto-me: Não será porque ele dizia o que pensava e fazia o que dizia? Não será por isso que ele continua sendo tão extraordinário, neste mundo onde as palavras e os fatos muito rara vez se encontram, e quando se encontram não se cumprimentam, porque não se reconhecem?

***

Os mapas da alma não têm fronteiras e eu sou patriota de várias pátrias. Mas quero culminar este viagenzinha pelas terras da região evocando um homem nascido, como eu, aqui pertinho.

Paradoxalmente, ele morreu há um século e meio, mas continua sendo meu compatriota mais perigoso. É tão perigoso que a ditadura militar do Uruguai não conseguiu encontrar nem uma única frase sua que não fosse subversiva e teve que decorar com datas e nomes de batalhas o mausoléu que erigiu para ofender sua memória.

A ele, que se recusou a aceitar que nossa pátria grande se quebrasse em pedaços; a ele, que se recusou a aceitar que a independência da América fosse uma emboscada contra seus filhos mais pobres, a ele, que foi o verdadeiro primeiro cidadão ilustre da região, dedico este título, que recebo em seu nome.

E termino com palavras que escrevi para ele algum tempo atrás:

1820, Paso del Boquerón. Sem virar a cabeça, você afunda no exílio. Estou vendo, estou vendo você: desliza o Paraná com preguiça de lagarto e ao longe se afasta flamejando seu poncho esfarrapado, ao trote do cavalo, e se perde na mata. Você não diz adeus à sua terra. Ela não iria acreditar. Ou talvez você não sabe, ainda, que está indo para sempre.

Acinzenta-se a paisagem. Você está indo, vencido, e sua terra fica sem alento. Irão devolver-lhe a respiração os filhos que nasçam dela, os amantes que a ela chegarem? Aqueles que dessa terra brotem, aqueles que nela entrem, far-se-ão dignos de tristeza tão funda?

Sua terra. Nossa terra do sul. Você será muito necessário para esta terra, Dom José. Cada vez que os cobiçosos a firam e humilhem, cada vez que os tolos acreditem que está muda ou estéril, você fará falta. Porque você, Dom José Artigas, general dos simples, é a melhor palavra que ela já disse.

Tradução: Naila Freitas / Verso tradutores

http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=15091


Francisco Julião

 

“Agitador, sim! Como é possível conceber a vida sem agitação? Porque o vento agita a planta, o pólen se une ao pólen de onde nasce o fruto e se abotoa a espiga que amadurece nas searas. O gameto masculino busca o óvulo porque há uma causa que o agita. Se o coração não se agita, o sangue não circula e a vida se apaga.”

site excelente sobre Julião

http://www.alepe.pe.gov.br/perfil/parlamentares/FranciscoJuliao.html

 



Gregório Bezerra (1900- 1983)


Gregório Bezerra

Gregório Bezerra nasceu na cidade de Panelas de Miranda (a 200km de Recife) em 13 de março de 1900, filho de Lourenço Bezerra e Belarmina Conceição. Desde jovem vivenciou problemas brasileiros, especialmente aqueles ligados à seca, que castigava os lavradores pobres da região onde morava. Desde os 4 anos de idade trabalhava na lavoura e, quando ficou órfão de pai e mãe, aos oito anos de idade, passou a ser escravo doméstico. Fugiu depois de dois anos de maus-tratos. Viu muitos de seus amigos morrerem de fome. Assim como muitos deles, era sem-terra, sem-teto e analfabeto. Comia nos dias em que conseguia trabalho. Entre as várias atividades que exerceu, uma delas foi a de jornaleiro. Embora não soubesse ler os jornais que ele mesmo vendia, seu interesse pela política pôde ser despertado na medida em que conhecia a realidade brasileira de uma forma mais ampla na medida em que os seus colegas liam as notícias de jornais para ele.

Em um pequeno histórico realizado sobre as greves no Brasil, vimos que uma das greves mais marcantes e importantes para a nossa história foi a de 1917. Nesta greve, Gregório Bezerra começa a atuar ativamente, lutando com diversos trabalhadores pela jornada de 8 horas e em favor da Revolução Bolchevique. Neste episódio foi preso, acusado de perturbar ordem pública e cumpriu 5 anos de prisão. No ano de 1922 ele alista-se no Exército e decide se alfabetizar para entrar na Escola de Sargentos. Deixava muitas vezes de comer para pagar seus professores. a partir de 1927 passou a ler diversas obras marxistas e no ano de 1929 consegue entrar para a Escola de Sargentos. Gregório Bezerra casa-se neste mesmo ano com Maria da Silva, com a qual teve um casal de filhos. No ano seguinte ele filia-se ao Partido Comunista Brasileiro e passa a proteger militantes perseguidos pelo movimento integralista da época.

Em 1932 Gregório recebeu a missão de comandar um exército de analfabetos e flagelados da seca, que combateu os Paulistas na Revolução Constitucionalista. Participante da Aliança Nacional Libertadora (ANL), sua principal tarefa foi filiar o maior número militares à frente que tinha como principais objetivos libertar o país dos exploradores e da corrupção do governo, através de uma insurreição popular. Gregório obteve sucesso nesta tarefa, além de conseguir centenas de fuzis e munições para a frente. Teve a incumbência, ainda, de deflagrar o movimento revolucionário em Recife. Liderou a tomada do Quartel General e vários pontos importantes da cidade. Com o movimento derrotado, Gregório foi preso, espancado e barbaramente torturado. O mesmo aconteceu com o seu irmão José Lourenço Bezerra, que morreu assassinado, deixando mulher e cinco filhos menores.

Por participar dos eventos ligados à insurreição comunista, Gregório foi condenado a 27 anos de prisão. Em 1942 foi transferido para a Ilha Grande. No ano seguinte, quando passou para o presídio Frei Caneca, conheceu Luís Carlos Prestes. Saiu da prisão em 1945 e participou do comício de Prestes, no estádio Vasco da Gama. Recebeu do PCB a tarefa de reorganizar o partido em Pernambuco. pôde encontrar novamente a sua família. Nas eleições de dezembro do mesmo ano, Gregório é o Deputado Federal mais votado para a Constituinte. Muitas questões que hoje se apresentam como direitos adquiridos ou que ainda vigoram entre as lutas da atualidade, foram defendidas por Gregório Bezerra no período em que atuou na Constituinte. Podemos citar, por exemplo, o direito de greve e a autonomia sindical; direito de votos aos analfabetos e aos militares; denúncia da exploração do trabalho, principalmente infantil; defesa da construção de creches para as mães solteiras e trabalhadoras, assim como sua obrigatoriedade em escolas, postos médicos, favelas e locais de trabalho. Mas todas estas lutas estavam diretamente vinculadas à defesa do socialismo para a solução dos problemas brasileiros. A sua experiência de vida não o deixou esquecer das lutas relativas à questão da terra. Foi defensor incondicional da Reforma Agrária Radical, que defendia o confisco das terras dos grandes latifundiários para distribuí-las a camponeses sem-terra, com empréstimos a juros baixos e a longo prazo, para o desenvolvimento agrícola.

Em setembro de 1947 o PCB volta novamente à ilegalidade e o mandato de seus deputados são cassados, inclusive o de Gregório Bezerra. Em 1948 foi seqüestrado e preso por ordem do então presidente Eurico Gaspar Dutra. Foi falsamente acusado de incendiar o quartel 15 R.I., em João Pessoa, na Paraíba. Sofreu várias tentativas de assassinato. Depois de dois anos de prisão foi absolvido por unanimidade pelo STM. Mesmo solto, continuou sendo perseguido. Entrou para a clandestinidade mas continuou atuando na organização do PCB. Atuou em São Paulo, Goiás, Mato Grosso e Paraná. Conseguiu milhares de assinaturas para a campanha a favor da Paz Mundial e também lutou ativamente na campanha “O Petróleo é Nosso”. Em 1957 foi novamente preso por sua militância, principalmente formando Ligas Camponesas e sindicatos rurais. Foi liberto por habeas corpus, impetrado por seus companheiros.

De volta a Pernambuco organizou a Frente Nacionalista de Recife, que elegeu Pelópidas Silveira para prefeito da cidade. No V Congresso do partido, no ano de 1960, é eleito para o Comitê Central. Em 1962 saiu em Viagem pela China, União Soviética e Europa. Na volta dedicou-se à campanha do General Lott e João Goulart. Ajudou a organizar o movimento camponês, que teve crescimento reivindicatório extraordinário no campo e nas cidades nesta época. Mas com o Golpe Militar de 1964, Gregório foi novamente cassado, espancado e barbaramente torturado pelos militares. Durante o período em que esteve preso, foi levado às ruas de Recife, amarrado com cordas pelo pescoço e arrastado, num espetáculo onde a tortura deveria servir de exemplo para aqueles que pretendessem lutar. Gregório foi quase enforcado publicamente e até hoje, as pessoas que presenciaram o espetáculo macabro, acreditam que ele morreu naquele episódio. Ainda na prisão, Gregório recebeu a visita dos Generais Olímpio Mourão e Ernesto Geisel, que negaram que tivesse havido qualquer tipo de tortura com relação a ele e aos outros presos políticos.

Gregório foi processado e condenado por crime de lesa Pátria e por subversão a 19 anos de prisão e sua saúde e integridade física foram totalmente abalados. Foi libertado, somente, no ano de 1969, trocado, junto com 13 presos políticos, pela vida do embaixador americano seqüestrado no Brasil. Foi enviado ao México, Cuba e URSS, onde recebeu assistência médica para tratar de sua saúde. Recuperado, passou a integrar o Movimento Internacional da Classe Operária no exílio. Retornou ao Brasil no ano de 1979, com a Anistia, após publicar seu livro Memórias. Aqui, foi recebido com festa, alegria e carinho por todos e declarou: “Tenho confiança inabalável na compreensão e no sentimento do povo. Eu voltei para me ligar novamente ao movimento de massas e com ele trabalhar até alcançar definitivamente as liberdades democráticas em nosso país”.

Desde que voltou do exílio até seus últimos dias, o herói do povoFeito de Ferro e de Flor“, conforme o poema de Ferreira Gullar, dedicou suas energias à luta pela derrubada da ditadura, pelas liberdades democráticas e pelo Socialismo. Em 1980 desliga-se do PC, solidarizando-se com Prestes, afirmando que continuaria fiel ao Marxismo-Leninismo e lutando pela Anistia Ampla, Geral e Irrestrita. Em 1982, candidata-se à Deputado Federal por Pernambuco, conseguindo a suplência.

Pouco antes de morrer Gregório declarou: “Gostaria de ser lembrado como o homem que foi amigo das crianças, dos pobres e excluídos; amado e respeitado pelo povo, pelas massas exploradas e sofridas; odiado e temido pelos capitalistas, sendo considerado o inimigo número um das Ditaduras Fascistas”.

Gregório Bezerra morreu em São Paulo à 21 de outubro de 1983, mas a sua vida de lutas deve ficar em nossas lembranças, principalmente para aqueles que têm esperanças num Brasil mais digno para todos.

http://www.brasilcultura.com.br/conteudo.php?id=547&menu=97?=581

ORIGEM BRASIL CULTURA


GLOBOCOLONIZAÇÃO – FREI BETO

Frei Betto

 


Alberto Libânio Christo
(Frei Betto)

25 de junho de 2002
Para muitos, a globalização, entendida como mundialização do mercado, é um avanço, cujos efeitos negativos podem ser corrigidos. Para outros, ela representa, de fato, a ocidentalização do mundo, com o objetivo de atender aos interesses do capitalismo.

Não é a economia que se mundializa, é o mundo que se economiciza, reduzindo todos os valores, materiais e simbólicos, ao preço de mercado. Tal fenômeno submete a cultura e a política à lei da oferta e da procura. Como a teoria econômica não fixa nenhum limite ao império do mercado, tudo que é objeto do desejo humano é reduzido às relações de troca, segundo as regras do sistema: um dos parceiros leva mais vantagem do que o outro.

No plano cultural, a criatividade tende a abandonar as ousadias do espírito humano para adequar-se à fôrma do mero entretenimento, como os enlatados que entopem nossos canais de TV. A agenda política dos países passa a ser ditada, cada vez mais, pelos interesses das transnacionais e, cada vez menos, pelas reais necessidades nacionais. A política abandona progressivamente sua função de administrar o processo econômico e social interno, para gerir estratégias econômicas impostas aos países de fora para dentro.

No plano cultural, toda a comunicação de massa torna-se mero apêndice publicitário, voltada mais a formar consumidores que cidadãos.

Constata-se, hoje, um grande paradoxo: quanto mais se fala de liberdade de informação, mais os meios são enfeixados em mãos dos grandes atores econômicos, que impõem a todos os habitantes do planeta um mesmo modo de pensar e de viver, tudo em função desta soberana senhora: a mercadoria. É a mcdonaldização do mundo, reduzido também a um só paladar.

Fonte: ADITAL


Betinho: trajetória cidadã

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A trajetória de militância de Betinho vem da adolescência, a partir do contato que travou com padres dominicanos que exerceram grande influência na Ação Católica, em Belo Horizonte.

Betinho teve grande participação no movimento estudantil. Durante o curso secundário ingressou na Juventude Estudantil Católica (JEC) e depois, durante o período universitário, fez parte da Juventude Universitária Católica (JUC). Nesse momento, começou a viajar pelo Brasil nas caravanas do Centro Popular de Cultura (CPC) da União Nacional dos Estudantes (UNE).

Na Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), fez parte do núcleo que fundou a Ação Popular (AP), organização política criada no fim de 1962, formada por católicos(as) determinados(as) a construir o socialismo no Brasil. Desde então, ficaram claros os princípios que marcariam seu discurso e suas ações.
Em 1962, formou-se em Sociologia e engajou-se na luta pelas chamadas reformas de base que marcaram o governo João Goulart. Ao mesmo tempo, exerceu funções de coordenação e assessoria no Ministério da Educação e Cultura – onde fez articulações a favor do projeto de alfabetização de pessoas adultas do então jovem professor pernambucano Paulo Freire – e na Superintendência de Reforma Agrária. Além disso, elaborou estudos sobre a estrutura social brasileira para a Comissão Econômica para a América Latina (Cepal), da Organização das Nações Unidas (ONU).

Exílio

Depois do golpe de 1964, Betinho passou a atuar na resistência à ditadura militar. Perseguido pelo regime, ficou na clandestinidade. Continuou militando na AP e fez parte do movimento operário, passando a morar no ABC paulista. Em 1971, quando a repressão intensificou-se, partiu para o exílio.

Morou primeiro no Chile, onde viviam cerca de 5 mil brasileiros e brasileiras articulados(as) em mais de 40 grupos de esquerda. Deu aulas na Faculdad Latinoamericana de Ciencias Sociales, em Santiago, e atuou como assessor do presidente Allende, deposto em 1973 pelo general Augusto Pinochet com apoio da CIA, agência de inteligência dos Estados Unidos.

Conseguiu escapar do sangrento golpe asilando-se na embaixada do Panamá. Em 1974, já vivendo um processo de desengajamento da AP, foi para o Canadá e depois para o México, onde cursou o doutorado e deu novo rumo à sua história pessoal.

Durante o exílio, exerceu cargos de direção e consultoria em organizações como o Conselho Latino-americano de Pesquisa para a Paz (Ipra), a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) e o Latin American Research Unit (Laru).

Pré-Ibase

Ainda no exílio, participou da criação do Centro de Estudos Latino-americanos, que produzia análises sobre a América Latina veiculadas em diversas publicações e até em audiovisuais. Era uma espécie de pré-Ibase, como gostava de dizer, comparando com o instituto que fundaria com os companheiros de exílio Carlos Afonso e Marcos Arruda, dois anos depois de voltar ao Brasil.

No fim da década de 1970, com o aumento das pressões para a abertura política no Brasil, o nome do irmão do Henfil tornou-se um dos símbolos da campanha pelo retorno das pessoas que haviam sido cassadas e exiladas, celebrizado nos versos da canção de Aldir Blanc e João Bosco, “O bêbado e o equilibrista”.

Em 1979, com a anistia, voltou ao Brasil. Betinho trouxe do exterior a experiência de um novo modo de organização da sociedade civil que não passava pelos partidos políticos e pelos sindicatos.

No início da década de 1980, fundou o Ibase – instituição de caráter suprapartidário e supra-religioso dedicada a democratizar a informação sobre as realidades econômicas, políticas e sociais no Brasil.

Frentes de luta

Betinho desempenhou papel decisivo como articulador da Campanha Nacional pela Reforma Agrária, congregando entidades de trabalhadores(as) rurais em busca de uma solução para a grave questão da distribuição, posse e uso da terra, um dos principais problemas estruturais dos países em desenvolvimento. Na luta pela democratização da terra, organizou, em 1990, o movimento Terra e Democracia, que levou ao Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro, milhares de pessoas.

Em 1985, Betinho soube que havia se infectado com o HIV numa das transfusões de sangue que precisava fazer periodicamente, em função da hemofilia. A inevitabilidade da doença sem cura o estimulou a abrir uma nova frente de luta.

Em 1986, ajudou a fundar a Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (Abia), uma das primeiras e mais influentes instituições do país nessa área, da qual foi presidente durante 11 anos.

Em 1992, integrou a liderança do Movimento Pela Ética na Política, que culminou no impeachment do então presidente Fernando Collor de Mello, em setembro do mesmo ano, e serviu de base para a maior mobilização da sociedade brasileira em favor das populações excluídas: a Ação da Cidadania contra a Miséria e pela Vida.

Mostrou-se também um especialista no trato com a mídia, deixando suas idéias registradas em inúmeras entrevistas. Não foi por acaso que foi escolhido o Homem de Idéias 1993 pelo suplemento cultural do Jornal do Brasil.

Betinho morreu aos 61 anos em sua casa, no bairro de Botafogo, Zona Sul do Rio de Janeiro, em 9 de agosto de 1997, um sábado à noite, cercado por amigos, amigas e parentes.

FONTE http://www.novae.inf.br/


O DIREITO DE SONHAR – EDUARDO GALEANO

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Tente adivinhar como será o mundo depois do ano 2000. Temos apenas uma única certeza: se estivermos vivos, teremos virado gente do século passado. Pior ainda, gente do milênio passado. Sonhar não faz parte dos trinta direitos humanos que as Nações Unidas proclamaram no final de 1948. Mas, se não fosse por causa do direito de sonhar e pela água que dele jorra, a maior parte dos direitos morreria de sede. Deliremos, pois, por um instante. O mundo, que hoje está de pernas para o ar, vai ter de novo os pés no chão. Nas ruas e avenidas, carros vão ser atropelados por cachorros. O ar será puro, sem o veneno dos canos de descarga, e vai existir apenas a contaminação que emana dos medos humanos e das humanas paixões. O povo não será guiado pelos carros, nem programado pelo computador, nem comprado pelo supermercado, nem visto pela TV. A TV vai deixar de ser o mais importante membro da família, para ser tratada como um ferro de passar ou uma máquina de lavar roupas. Vamos trabalhar para viver, em vez de viver para trabalhar. Em nenhum país do mundo os jovens vão ser presos por contestar o serviço militar. Serão encarcerados apenas os quiserem se alistar. Os economistas não chamarão de nível de vida o nível de consumo, nem de qualidade de vida a quantidade de coisas. Os cozinheiros não vão mais acreditar que as lagostas gostam de ser servidas vivas. Os historiadores não vão mais acreditar que os países gostem de ser invadidos. Os políticos não vão mais acreditar que os pobres gostem de encher a barriga de promessas. O mundo não vai estar mais em guerra contra os pobres, mas contra a pobreza. E a indústria militar não vai ter outra saída senão declarar falência, para sempre. Ninguém vai morrer de fome, porque não haverá ninguém morrendo de indigestão. Os meninos de rua não vão ser tratados como se fossem lixo, porque não vão existir meninos de rua. Os meninos ricos não vão ser tratados como se fossem dinheiro, porque não vão existir meninos ricos. A educação não vai ser um privilégio de quem pode pagar por ela. A polícia não vai ser a maldição de quem não pode comprá-la. Justiça e liberdade, gêmeas siamesas condenadas a viver separadas, vão estar de novo unidas, bem juntinhas, ombro a ombro. Uma mulher – negra – vai ser presidente do Brasil, e outra – negra – vai ser presidente dos Estados Unidos. Uma mulher indígena vai governar a Guatemala e outra, o Peru. Na Argentina, as loucas da Praça de Maio vão virar exemplo de sanidade mental, porque se negaram a esquecer, em tempos de amnésia obrigatória. A Santa Madre Igreja vai corrigir alguns erros das Tábuas de Moisés. O sexto mandamento vai ordenar: “Festejarás o corpo”. E o nono, que desconfia do desejo, vai declará-lo sacro. A Igreja vai ditar ainda um décimo-primeiro mandamento, do qual o Senhor se esqueceu: “Amarás a natureza, da qual fazes parte”. Todos os penitentes vão virar celebrantes, e não vai haver noite que não seja vivida como se fosse a última, nem dia que não seja vivido como se fosse o primeiro.