Arquivo do mês: julho 2008

DOMÍNIO PÚBLICO

Uma bela biblioteca digital, desenvolvida em software livre, mas que está prestes a ser desativada por falta de acessos.
Imaginem um lugar onde você pode gratuitamente:

· Ver as grandes pinturas de Leonardo Da Vinci ;
· Escutar músicas em MP3 de alta qualidade;
· Ler obras de Machado de Assis  ou a Divina Comédia;
· Ter acesso às melhores historinhas infantis e vídeos da TV ESCOLA
· e muito mais….

Esse lugar existe!

O Ministério da Educação disponibiliza tudo isso,basta acessar o site:

http://www.dominiopublico.gov.br



Carta de Esquivel ao cardeal Julio Terrazas, da Bolívia

Adolfo Perez Esquivel, prêmio Nobel para a Paz, escreveu uma carta contundente e profética ao cardeal Julio Terrazas, arcebispo de Santa Cruz de la Sierra, a respeito do recente referendo pela autonomia do departamento. Esquivel, católico convicto, trata o cardeal por tu, já que é seu irmão na fé e a gente se trata por tu entre irmãos. Censura-o por suas posições partidárias e procura convencê-lo com veemência, avançando argumentos evangélicos que lhe parecem evidentes e descrevendo- lhe as realidades concretas do país, que ninguém pode ignorar. A carta foi publicada pela revista Témoignage Chrétien de 22 de maio de 2008. Também publicada no site do IHU de 3.6.2008.

Segue a carta

Caro irmão em Cristo, recebe uma saudação fraterna de Paz e Bem.
Pretendia encontrar-te para conversar pessoalmente contigo durante minha recente visita à Bolívia. Procurei estabelecer um contato, mas não tive êxito, pois te encontravas em Lima, no Peru, e soube que não terias retornado a Santa Cruz antes de 4 de maio, portanto após meu retorno à Argentina. Gostaria de compartilhar fraternalmente  algumas preocupações contigo enquanto irmão na fé. O Evangelho é muito claro: Jesus expressou algumas opções concretas com respeito aos pobres e àqueles que estão em necessidade. Além disso, sempre nos ensinou a buscar a Verdade e a Justiça, que são as bases fundamentais para construir a Paz. Jamais manifestou alguma discriminação com os pobres, nem para a cor da pele, da raça ou da condição social. É boa coisa, caro irmão, manter presente o espírito desta mensagem de Jesus: “Se alguém quiser ser o primeiro, que tome o último lugar e se torne servo de todos. Quem recebe um pequenino como estes em meu nome, recebe a mim…” (Mt 9, 35-37).

Quero dizer que estou estupefato pelas escolhas que recém fizeste. Não estou aqui para te julgar, mas quero simplesmente compartilhar contigo as preocupações que nós todos temos, cristãos e não cristãos, que esperamos de ti uma posição coerente com o Evangelho. Preocupa-me muito o fato de que tu defendas aqueles que pretendem desestabilizar um governo democrático e que tu apóies os Comitês Cívicos de Santa Cruz, que saúdam à maneira nazista e ameaçam expulsar da região todos os “Collas“, os indígenas locais. É verdadeiramente um retrocesso para a Bolívia e para a humanidade inteira. Preocupa-nos muito que tu apóies os proprietários de terras que procuram o seu interesse e não o bem do povo. Irmão, tu ignoras todas estas coisas ou as admites?… Preocupa-nos muito que tu chegues a negar a situação de escravidão a que são submetidas as comunidades guaranis da parte dos grandes proprietários. Sabes bem que há situações evidentes já denunciadas pelo governo boliviano.
Não podes ignorar que funcionários enviados a Santa Cruz pelo governo são ameaçados por bandos armados que os impedem de entrar nas haciendas.

Preocupa-nos muito que tenhas votado por um referendum anticonstitucional e ilegal, denunciado pela Organização dos Estados Americanos, pela União Européia e pelos povos e governos de toda a região.

Que tenhas votado ou não, diz respeito à tua consciência, mas não podes ignorar que este referendum é racista, discriminador, portador de exclusão social e, por conseguinte, contrário à mensagem de Jesus.

Sabes muito bem que o Novo Estatuto, bem como toda a campanha autonomista desencadeada pelos grandes proprietários serve, antes de tudo, para defender os seus interesses econômicos e que, na realidade, procuram promover um golpe de estado contra um governo democraticamente eleito com grande maioria pelo povo.

Sabes também muito bem que durante os numerosos anos em que estes senhores feudais governaram o país, jamais se interessaram em promover as autonomias departamentais e, menos ainda, em pôr em ação um processo de descentralização do poder em direção ao povo. Se agora reagem assim, é que sentem que os seus interesses econômicos estão ameaçados.
Procuram o modo de desestabilizar as instituições do país e promover o separatismo junto a outras regiões que formam aquela que é chamada a “Meia Lua”. Tudo isto ameaça a soberania nacional e a integridade da Bolívia. A América Latina não necessita de “pactos de autonomia”, como pretendem os grandes proprietários para poder angariar benefícios para si e somente prejuízos
para o povo.

TutoQuiroga, o chege dos independentes, que hoje fala tanto de democracia, foi aliado do ditador Hugo Banzer e também vice-presidente da Bolívia naquela época. Junto com aquele ditador foi até responsável por um genocídio e por crimes contra a humanidade. Além disso, quando participou daquela presidência, jamais fez nada pelo povo, em particular pelos mais pobres que, sob aquele governo ditatorial, tiveram que suportar a humilhação e o desprezo daqueles senhores feudais que então
governavam a Bolívia.

Na realidade, não suportam hoje que um irmão indígena Aymara, Evo Morales, seja o presidente da Nação, que uma irmã “Colla” seja ministro da Justiça e que os indígenas e os camponeses sejam finalmente respeitados e reconhecidos em suas culturas, identidades e valores sociais e espirituais. Sobretudo, não suportam que o governo recupere os recursos naturais e promova a reforma agrária e a do direito e da igualdade para todos, e não só para alguns. O presidente Morales aceitou a solicitação de outro referendum em todo o país, para que o povo decida se seu governo cumpriu com suas obrigações e se quer que a Bolívia seja um povo livre e soberano ou que viva escrava e de joelhos diante de seus opressores, como outrora.

Mas tu, irmão, onde te colocas à luz do Evangelho?… Talvez ignores que o governo de Evo Morales em dois anos conduziu positivamente políticas de transformação e de dignidade para o povo boliviano, coisa que jamais haviam feito os governos precedentes? Sabes que ele teve a coragem política de recuperar a soberania de um país sobre seus recursos naturais e energéticos e que decidiu voluntariamente combater o analfabetismo e melhorar a saúde do povo?… Não te sentes mal quando países irmãos como a Venezuela e Cuba vêm ajudar em solidariedade o povo boliviano e encorajam o governo para que desenvolva ulteriormente programas de saúde e de instrução para elevar o nível de vida de todos?…

De outra parte, também sabes muito bem que os meios de comunicação do país estão nas mãos dos grandes proprietários e que desenvolvem uma sórdida campanha contra o governo, mantendo, porém, em silêncio as manipulações da embaixada dos Estados Unidos que continua conspirando contra o governo e procurando os seus próprios interesses.

Que o governo boliviano tenha cometido algum erro, é certo. Reconhece-os e sabe que deve corrigi-los.

Mas tu, o que fizeste para ajudá-los e para caminhar com o povo? Tu, irmão, que és o chefe da Igreja da Bolívia,
qual é a tua opção e que leitura fazes de tudo o que eu te disse e que já sabes muito bem?…

É preciso, a todo o custo, escolher entre duas opções: ou seguir o Evangelho, ou continuar envolto nas mentiras e nas injustiças, nas discriminações, no ódio, no racismo e na exclusão social. É preciso “dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”.

Como irmão em Cristo, peço-te que medites, que rezes e que peças a Deus que te ilumine e te conduza.

De nossa parte, rezaremos por ti e por todos aqueles que lutam para construir um mundo mais justo e mais fraterno, reforçando a democracia e o respeito dos direitos humanos. Com muitos irmãos e irmãs na fé, com as comunidades religiosas e com todas as igrejas cristãs, fiquemos unidos na oração e peçamos ao Senhor que, em sua infinita bondade, fortifique todos os bolivianos no caminho da Verdade e da Justiça, para chegar à Paz e à unidade de todo o povo.


Adolfo Pérez Esquivel, Prêmio Nobel para a Paz.

Nota
1 O cardeal da Bolívia tem sua sede em Santa Cruz , um departamento muito rico situado na parte leste do país, onde os grandes proprietários de terras organizaram há pouco um referendum local pela autonomia. O cardeal tomou publicamente posição em favor desta autonomia e afirmou, contra toda evidência, que não existe escravidão na região. Mais uma vez a Igreja oficial se enfileirou do lado dos ricos e dos poderosos, enquanto deveria, na luz do Evangelho, assumir a defesa dos pobres e dos indígenas.

ESTAMOS CHEGANDO NAS 30.OOO VISUALIZAÇÕES


14/07/2008

Anos 60: incendiários e bombeiros

Os 40 anos de 1968 foram a oportunidade para que se estendesse a lista dos arrependimentos, reiniciada por Cohn-Bendit, que pediu desculpas por tudo o que tinha feito. Por aqui também alastrou-se o consenso de que a resistência armada à ditadura militar teria sido um grave erro. Parece que a legião de bombeiros vai superando amplamente a dos incendiários. Os anos de resistência clandestina costumam ser invocados como experiências individuais palpitantes – objetos de autobiografias de sucesso, filmes, mini-séries -, mas poucas vezes como experiência política que merece ser analisada politicamente.

Derrotada a via institucional da esquerda pelo golpe de 1964, foram fechados todos os caminhos de luta legal, ocupados pela grotesca e inócua tentativa de frente opositora entre Lacerda, Jânio, Adhemar, JK. A resistência tinha que ser clandestina, tanto para a propaganda da luta, como para ações que desafiassem a tentativa dos golpistas de impor rapidamente a ordem ditatorial sobre o país.

Mas enquanto o debate de balanço e de propostas para as novas condições políticas se desenvolviam, com seu ritmo próprio,, chegou por aqui o livro de Debray “Revolução na revolução?”, com dois fortes apelos. O primeiro, a vitória da revolução cubana que, como todo processo revolucionário vitorioso, projeta-se com um poder persuasivo difícil de ser questionado. A esse se acrescentava o estilo demolidor e um aparente domínio sobre o tema da parte de Debray – que na realidade não dava conta nem sequer do que realmente tinha sido a estratégia vitoriosa dos revolucionários cubanos.

O resultado foi um desfecho precoce dos debates na esquerda a e imposição da estratégia dos focos guerrilheiros, protagonizados centralmente pela ALN e pela VPR. Foi uma determinada estratégia de resistência armada – a chamada “foquista” – que precipitou os enfrentamentos militares, reforçada por ações espetaculares – os seqüestros de embaixadores para troca por presos políticos e os desvios de rotas de aviões – bem sucedidas.

Se deveria fazer autocrítica da adoção dessa modalidade de estratégia militar, mas não englobar nela toda forma de resistência clandestina e militar. O maior desafio era o de conseguir reorganizar núcleos dentro do movimento de massas, combinando com ações de vanguarda, que deveriam incluir ações armadas, para marcar presença da oposição, antes que a ditadura conseguisse consolidar seu poder.

Um balanço político crítico seria positivo, para o resgate do que houve de positivo e a rejeição dos evidentes erros cometidos. Mas os arrependimentos costumam ter um ato de rejeição do momento mais generoso da militância de muita gente, feito para demonstrar que não são mais perigosos, que foi um pecadinho de juventude, com aquela velha história de ser incendiário aos 20 e passar a bombeiro a partir dos 40.

Postado por Emir Sader às 15:01


EDUARDO GALEANO

CIDADÃO DO MERCOSUL

Eduardo Galeano, as palavras e a alma da América Latina

No dia 3 de julho, os países do Mercosul concederam a Eduardo Galeano o título de primeiro Cidadão Ilustre da região. Estas foram suas palavras de agradecimento.

Redação – Carta Maior

Colar de histórias

Nossa região é o reino dos paradoxos.

Tomemos o caso do Brasil, por exemplo:

paradoxalmente, Aleijadinho, o homem mais feio do Brasil, criou as mais altas belezas da arte da época colonial;

paradoxalmente, Garrincha, arruinado desde a infância pela miséria e a poliomielite, nascido para a desgraça, foi o jogador que mais alegria ofereceu em toda a história do futebol;

e, paradoxalmente, Oscar Niemeyer, que já completou cem anos de idade, é o mais novo dos arquitetos e o mais jovem dos brasileiros.

***

Ou, por exemplo, a Bolívia: em 1978, cinco mulheres derrubaram uma ditadura militar. Paradoxalmente, toda a Bolívia zombou delas quando iniciaram sua greve de fome. Paradoxalmente, toda a Bolívia terminou jejuando com elas, até que a ditadura caiu.

Eu conheci uma dessas cinco obstinadas, Domitila Barrios, no povoado mineiro de Llallagua. Em uma assembléia de operários das minas, todos homens, ela levantou e fez todos calarem a boca.

Quero dizer só uma coisinha —disse—. Nosso inimigo principal não é o imperialismo, nem a burguesia, nem a burocracia. Nosso inimigo principal é o medo, e nós carregamos ele dentro.

E, anos depois, reencontrei Domitila em Estocolmo. Havia sido expulsa da Bolívia e ela tinha marchado para o exílio, com seus sete filhos. Domitila estava muito agradecida pela solidariedade dos suecos, e admirava a liberdade deles; mas tinha pena deles, tão sozinhos que estavam, bebendo sozinhos, comendo sozinhos, falando sozinhos. E dava-lhes conselhos:

Não sejam bobos –dizia-. Fiquem juntos. Nós, lá na Bolívia, ficamos juntos. Mesmo que seja para brigar, ficamos juntos.

***

E como tinha razão.

Porque, digo eu: existem os dentes, se não ficarem juntos na boca? Existem os dedos, se não ficarem juntos na mão?

Estarmos juntos: e não só para defender o preço dos nossos produtos, mas também, e sobretudo, para defender o valor dos nossos direitos. Bem juntos estão, mesmo que de vez em quando simulem brigas e disputas, os poucos países ricos que exercem a arrogância sobre todos os outros. Sua riqueza come pobreza, e sua arrogância come medo. Bem pouquinho tempo atrás, por exemplo, a Europa aprovou a lei que transforma os imigrantes em criminosos. Paradoxo de paradoxos: a Europa, que durante séculos invadiu o mundo, fecha a porta no nariz dos invadidos, quando eles querem retribuir a visita. E essa lei foi promulgada com uma assombrosa impunidade, que seria inexplicável se não estivéssemos acostumados a sermos comidos e a viver com medo.

Medo de viver, medo de dizer, medo de ser. Esta nossa região faz parte de uma América Latina organizada para o divórcio de suas partes, para o ódio mútuo e a mútua ignorância. Mas somente estando juntos seremos capazes de descobrir o que podemos ser, contra uma tradição que nos amestrou para o medo e a resignação e a solidão e que cada dia nos ensina a não gostar de nós mesmos, a cuspir no espelho, a copiar em vez de criar.

***

Ao longo da primeira metade do século dezenove, um venezuelano chamado Simón Rodríguez caminhou pelos caminhos da nossa América, no lombo de uma mula, desafiando os novos donos do poder:

Vocês —clamava o sr. Simón-, vocês que tanto imitam os europeus, por que não imitam o mais importante, que é a originalidade?

Paradoxalmente, não era ouvido por ninguém este homem que tanto merecia ser ouvido. Paradoxalmente, chamavam-no louco, porque cometia a sensatez de acreditar que devemos pensar com nossa própria cabeça; porque cometia a sensatez de propor uma educação para todos e uma América de todos, e dizia que a quem não sabe, qualquer um engana e a quem não tem, qualquer um compra, e porque cometia a sensatez de duvidar da independência dos nossos países recém-nascidos:

Não somos donos de nós mesmos —dizia. Somos independentes, mas não somos livres.

***

Quinze anos depois da morte do louco Rodríguez, o Paraguai foi exterminado. O único país hispano-americano verdadeiramente livre foi, paradoxalmente, assassinado em nome da liberdade. O Paraguai não estava preso na jaula da dívida externa, porque não devia nem um centavo para ninguém, e não praticava a mentirosa liberdade de comércio, que nos impunha e nos impõe uma economia de importação e uma cultura de impostação.

Paradoxalmente, depois de cinco anos de guerra feroz, entre tanta morte sobreviveu a origem. Segundo a mais antiga de suas tradições, os paraguaios nasceram da língua que os nomeou, e entre as ruínas fumegantes sobreviveu essa língua sagrada, a língua primeira, a língua guarani. E em guarani falam ainda hoje os paraguaios na hora da verdade, que é a hora do amor e do humor.

Em guarani, ñe´é significa palavra e também significa alma. Quem mente a palavra, trai a alma.

Se dou minha palavra, estou me dando.

***

Um século depois da guerra do Paraguai, um presidente do Chile deu sua palavra, e deu-se.

Os aviões cuspiam bombas sobre o palácio de governo, também metralhado pelas tropas de terra. Ele havia dito:

Daqui eu não saio vivo.

Na história latino-americana, é uma frase freqüente. Foi pronunciada por vários presidentes que depois saíram vivos, para continuar pronunciando-a. Mas essa bala não mentiu. A bala de Salvador Allende não mentiu.

Paradoxalmente, uma das principais avenidas de Santiago do Chile chama-se, ainda, Onze de Setembro. E não se chama assim pelas vítimas das Torres Gêmeas de Nova York. Não. Chama-se assim em homenagem aos verdugos da democracia no Chile. Com todo o respeito por esse país que amo, atrevo-me a perguntar, por simples senso comum: não seria hora de mudar-lhe o nome? Não seria hora de chamá-la Avenida Salvador Allende, em homenagem à dignidade da democracia e à dignidade da palavra?

***

E atravessando a cordilheira, pergunto-me: por que será que o Che Guevara, o argentino mais famoso de todos os tempos, o mais universal dos latino-americanos, tem o costume de continuar nascendo?

Paradoxalmente, quanto mais é manipulado, quanto mais é traído, mais nasce. Ele é o mais nascedor de todos.

E pergunto-me: Não será porque ele dizia o que pensava e fazia o que dizia? Não será por isso que ele continua sendo tão extraordinário, neste mundo onde as palavras e os fatos muito rara vez se encontram, e quando se encontram não se cumprimentam, porque não se reconhecem?

***

Os mapas da alma não têm fronteiras e eu sou patriota de várias pátrias. Mas quero culminar este viagenzinha pelas terras da região evocando um homem nascido, como eu, aqui pertinho.

Paradoxalmente, ele morreu há um século e meio, mas continua sendo meu compatriota mais perigoso. É tão perigoso que a ditadura militar do Uruguai não conseguiu encontrar nem uma única frase sua que não fosse subversiva e teve que decorar com datas e nomes de batalhas o mausoléu que erigiu para ofender sua memória.

A ele, que se recusou a aceitar que nossa pátria grande se quebrasse em pedaços; a ele, que se recusou a aceitar que a independência da América fosse uma emboscada contra seus filhos mais pobres, a ele, que foi o verdadeiro primeiro cidadão ilustre da região, dedico este título, que recebo em seu nome.

E termino com palavras que escrevi para ele algum tempo atrás:

1820, Paso del Boquerón. Sem virar a cabeça, você afunda no exílio. Estou vendo, estou vendo você: desliza o Paraná com preguiça de lagarto e ao longe se afasta flamejando seu poncho esfarrapado, ao trote do cavalo, e se perde na mata. Você não diz adeus à sua terra. Ela não iria acreditar. Ou talvez você não sabe, ainda, que está indo para sempre.

Acinzenta-se a paisagem. Você está indo, vencido, e sua terra fica sem alento. Irão devolver-lhe a respiração os filhos que nasçam dela, os amantes que a ela chegarem? Aqueles que dessa terra brotem, aqueles que nela entrem, far-se-ão dignos de tristeza tão funda?

Sua terra. Nossa terra do sul. Você será muito necessário para esta terra, Dom José. Cada vez que os cobiçosos a firam e humilhem, cada vez que os tolos acreditem que está muda ou estéril, você fará falta. Porque você, Dom José Artigas, general dos simples, é a melhor palavra que ela já disse.

Tradução: Naila Freitas / Verso tradutores

http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=15091