Arquivo do mês: novembro 2007

Eu, Etiqueta

Em minha calça está grudado um nome

que não é meu de batismo ou de cartório,

um nome… estranho.

Meu blusão traz lembrete de bebida

que jamais pus na boca, nesta vida.

Em minha camiseta, a marca de cigarro

que não fumo, até hoje não fumei.

Minhas meias falam de produto

que nunca experimentei

mas são comunicados a meus pés.

Meu tênis é proclama colorido

de alguma coisa não provada

por este provador de longa idade.

Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,

minha gravata e cinto e escova e pente,

meu copo, minha xícara,

minha toalha de banho e sabonete,

meu isso, meu aquilo,

desde a cabeça ao bico dos sapatos,

são mensagens,

letras falantes,

gritos visuais,

ordens de uso, abuso, reincidência,

costume, hábito, premência,

indispensabilidade,

e fazem de mim homem-anúncio itinerante,

escravo da matéria anunciada.

Estou, estou na moda.

É doce estar na moda, ainda que a moda

seja negar minha identidade,

trocá-la por mil, açambarcando

todas as marcas registradas,

todos os logotipos do mercado.

Com que inocência demito-me de ser

eu que antes era e me sabia

tão diverso de outros, tão mim-mesmo,

ser pensante, sentinte e solidário

com outros seres diversos e conscientes

de sua humana, invencível condição.

Agora sou anúncio,

ora vulgar ora bizarro,

em língua nacional ou em qualquer língua

(qualquer, principalmente).

E nisto me comprazo, tiro glória

de minha anulação.

Não sou – vê lá – anúncio contratado.

Eu é que mimosamente pago

para anunciar, para vender

em bares festas praias pérgulas piscinas,

e bem à vista exibo esta etiqueta

global no corpo que desiste

de ser veste e sandália de uma essência

tão viva, independente,

que moda ou suborno algum a compromete.

Onde terei jogado fora

meu gosto e capacidade de escolher,

minhas idiossincrasias tão pessoais,

tão minhas que no rosto se espelhavam,

e cada gesto, cada olhar,

cada vinco da roupa

resumia uma estética?

Hoje sou costurado, sou tecido,

sou gravado de forma universal,

saio da estamparia, não de casa,

da vitrina me tiram, recolocam,

objeto pulsante mas objeto

que se oferece como signo de outros

objetos estáticos, tarifados.

Por me ostentar assim, tão orgulhoso

de ser não eu, mas artigo industrial,

peço que meu nome retifiquem.

Já não me convém o título de homem.

Meu nome novo é coisa.

Eu sou a coisa, coisamente.

Carlos Drummond de Andrade


Indústria Cultural e Cultura de Massa

Chauí trata a Modernidade como o fim de um processo que se inicia com a Filosofia grega: o Desencantamento do Mundo, do mito à razão, da magia à ciência. Mas, passado algum tempo, na sociedade pós-industrial (a partir de 1970) as artes deixaram de ser vinculadas à Religião ou à Nobreza e passam a uma nova servidão: do mercado capitalista e da indústria cultural. O consumo dos produtos culturais seguem no ritmo da fabricação em série. A arte, de mítica passa a material de consumo rápido e fácil, ditado por uma questão de moda volátil, mera propaganda e publicidade. Ao se massificar (mas sem se democratizar), a arte perde suas três características principais:

  • De expressivas, acabam como reprodutivas e repetitivas;
  • De criação, acabam como evento de consumo rápido e fácil;
  • De experimentação do novo, acabam como consagração do consagrado, sem qualquer inovação.

A questão da nova “modalidade” artística passou a ser valorizada pela exposição, pela contemplação. Mas, com os novos patronos da arte – empresas de produção artística -, os interesses são voltados à fruição rápida, o que deixa de lado todo o trabalho individual e exclusivo do artista. Não se preocupa mais em conhecer o artista, mas sim se a arte será aceita pelo mercado.



Alguns exemplos de bandas que todos os anos repetem fórmulas consagradas para fazer sucesso de vendas nos carnavais.
Como dito anteriormente, a arte não se democratizou. Afinal, a Cultura deixou de ser direito universal para se tornar privilégio de poucos. O que seria teoricamente ampliado a todos pela massificação cultural, na prática, funciona de uma maneira mais perversa:

  • Por separar os bens culturais pelo valor de mercado, uma elite cultural consome o que há de melhor, enquanto o povo recebe algo sem qualidade, massificado, sem identidade. Isto introduz uma divisão social na arte, pobres e ricos em lados opostos;
  • A ilusão de que todos têm acesso à Cultura também é falsa, pois a divulgação cultural pré-seleciona, por horários e por público-alvo, o que cada um pode e deve ouvir, ver e ler;
  • O formato da arte considera que seu receptor será um espectador médio (ou, se preferir, medíocre), com capacidade mental mediana. Entenda médio como o senso comum cristalizado, algo massificado pela aceitação do mercado e que é repassado como novidade (para ser consumido avidamente e logo ser substituído por outra pseudo-novidade);
  • Cultura passa a ser lazer e entretenimento de fácil fruição, e não mais expressão artística e intelectual, o que vulgariza a arte e o conhecimento.

Os Meios de Comunicação

Por outro lado, os meios de comunicação são os responsáveis por dividir a programação em público (e seu respectivo poder aquisitivo) e horários, o que está intimamente ligado aos patrocinadores, que financiam tal programação através do intervalo comercial: ou seja, o conteúdo, a forma e o horário do programa são nada além de uma marca do patrocinador, mera imagem de sua empresa. O vínculo entre a verba oferecida pelos patrocinadores às emissoras de rádio e televisão é tão alto que tudo o que se noticia deve estar de acordo com o que agrada aos financiadores: assim, o direito à informação (que, em teoria, seria independente e imparcial) desaparece, dissipa-se. A desinformação atua por:

  • Falta de referência espacial (o espaço real é substituído pelo virtual, onde São Paulo, China, São Carlos e a Europa parecem igualmente próximos e, ao mesmo tempo, identicamente distantes);
  • Ausência de referência temporal (sem continuidade no tempo, causa ou conseqüências).

A substituição do mundo real por um mundo virtual, composto de retalhos e fragmentos da realidade, sem âncoras no espaço e no tempo. Esta inversão entre realidade e ficção é notável principalmente nas novelas, através de três procedimentos ideologicamente trabalhados:

  • O tempo da narração é lento, dando a ilusão que cada curto capítulo fosse um dia de nossas vidas;
  • As personagens, seus hábitos, linguagem, casas, etc, passam a impressão de um realismo tão grande para que a distância entre o espectador e a novela seja a mínima. Imbutido nisso, estão as marcas dos produtos e os modos de vida e de pensar que se divulgam na novela;
  • Assim, a novela passa por relato do real, enquanto o noticiário (que perdeu as referências temporais e espaciais) torna-se irreal. A prova disso são telespectadores que se comovem em demasia com a morte de uma personagem, enquanto um desastre real em algum lugar do mundo (seja na Rússia ou na Vila Pureza) passa por ouvintes inertes e insensíveis ao fato.

 
A realidade dos telejornais é passada como algo distante e irreal, enquanto as novelas emocionam o país como se fossem problemas reais que afetam a todos.
Mais um detalhe importante enquanto função da mídia contemporânea na deformação de mentes e intelectos: a dispersão da atenção e a infantilização. A mídia divide a programação em blocos de sete a onze minutos, separados por intervalos comerciais. Essa divisão do tempo condiciona o espectador a concentrar sua atenção durante os sete ou onze minutos e a desconcentrá-la durante a pausa publicitária. A atenção e a concentração, a capacidade de abstração intelectual e o exercício do livre pensar foram destruídos. Enquanto isso, a mídia também infantiliza seu público, pois uma atitude declaradamente infantil é não suportar a distância temporal entre seu desejo e a satisfação deste: uma criança chora muito exatamente porque é intolerável para ela a espera para realizar seus desejos.

E, assim, a mídia vem com promessas de gratificação instantânea. Cria o desejo ao mesmo tempo que oferece seus produtos (através da publicidade e da programação) para satisfazê-los. Se um canal ou uma estação de rádio não atraem, gira-se o dial, troca-se de canal e logo se tem novamente desejos e produtos para satisfazê-los. Também a programação se volta à modelos já consagrados, ao que já sabe-se e gosta-se, e como temos a Cultura como lazer e entretenimento, a mídia satisfaz exatamente nossos desejos mais primitivos, por não exigir atenção, concentração, crítica ou reflexão. Cultura cobra paciência, reflexão, concentração e espírito crítico, em outras palavras, maturidade. A mídia satizfaz por nada cobrar, a não ser que permaneçamos sempre infantis.

 
No cinema, assim como em toda arte, é possível notar como filmes de qualidade são taxados de chatos e cansativos (por exigir reflexão e maturidade), enquanto as bilheterias de Hollywood fazem fortunas com lazer e entretenimento medíocre.
Mais um de seus traços característicos é um Autoritarismo disfarçado, sob falsa aparência de Democracia. Programas de aconselhamento sempre trazem a opinião de um especialista, que ensina como cuidar dos filhos, como criar cabras, como ver um jogo de futebol, um filme, uma foto, como viver e como pensar. Mas, ao tornar o público infantil, esta postura está carregada de intimidação social, pois o espectador, dócil e passivo, não só é ausente de crítica como acaba absorvendo os hábitos “recomendados” sem qualquer reflexão, tornando-se incompetente para viver e agir sem o apoio do especialista da mídia.

Perversa. Assim é a mídia, enquanto formadora de opinião de nosso país.

A Cidadania Liberal

   
Adam Smith, John Locke e Thomas Hobbes são os principais teóricos do Liberalismo.
O modelo de Estado Liberal apresenta-se como uma República Representativa, constituída dos três poderes:

  • O Executivo, encarregado de administrar o serviço público;
  • O Legislativo, encarregado de instituir as leis;
  • O Judiciário, encarregado de aplicar as leis.

Possui ainda um corpo de militares profissionais (Forças Armadas: ou seja, Exército e Polícia) e um corpo de servidores públicos (Burocratas) que são encarregados de cumprir as decisões dos três poderes perante os cidadãos. O Estado Liberal considerava inconcebível que um não-proprietário pudesse ser representante em qualquer um dos três poderes. Quando afirmava que qualquer cidadão era livre e independentes, nas entrelinhas pode-se interpretar que todos eram dependentes de suas posses, ou ainda que não eram livres quem nada possuísse. Assim, se excluíam do poder político os trabalhadores e as mulheres (ou seja, a maioria da sociedade). A idéia de contrato social (onde indivíduos isolados tornam-se multidão e esta em corpo político de cidadãos) não previa assim o direito à cidadania para todos, mas delimitava à uma classe social: a Burguesia (ou proprietários privados, como preferir).

Através de lutas sociais muito intensas, o Estado Liberal foi forçado a se tornar uma Democracia Representativa, ampliando assim a cidadania política plena e o sufrágio universal (voto secreto). Ainda assim, na América Latina, os índios não estavam incluídos em tal processo.

A Democracia como Ideologia

O Estado de Bem-Estar social foi implantado nos países capitalistas avançados do hemisfério norte com o nome de Welfare State. Surgiu durante a Guerra Fria como defesa capitalista de prevenção ao nazifacismo e à Revolução comunista, pois enquanto esplodia uma crise mundial, os sistemas acima criticavam acirradamente os princípios liberais (bases do capitalismo), fazendo com que os trabalhadores encontrassem neles contrapontos para as desigualdades do capital. Assim, o Estado de Bem-Estar social foi uma prática política para tentar corrigir os problemas econômicos e sociais inerentes à sua estrutura desigual. Mais à frente, tal postura foi implementada nos países do chamado Terceiro Mundo, para que nenhuma Revolução eclodisse, como que uma medida apaziguadora, uma reforma no Estado previnindo qualquer Revolução.

O Estado passa a intervir na economia, investindo em indústrias estatais, subsidiando empresas privadas, controlando taxas de juros, preços e salários. Também assume um montante de encargos sociais: saúde, educação, moradia, transporte, previdência social e seguro-desemprego, além de atender a demandas da cidadania, como o sufrágio universal. No Brasil, quem implantou tal modelo de prática política foi o estadista Getúlio Dorneles Vargas, a partir da década de 1930.


O ex-presidente Getúlio Vargas (ao centro) e Franklin Roosevelt (à direita): a exemplo dos Estados Unidos, o Brasil incorporou o Estado de Bem-Estar social para evitar maiores insatisfações populares com as desigualdades sociais gritantes.
Os países mais fortes do bloco capitalista criaram outras medidas para controlar suas “colônias”, como o Banco Mundial para o Desenvolvimento (BID) e o Fundo Monetário Internacional (FMI), os quais fizeram enormes empréstimos financeiros para investir em serviços sociais de seus interesses e em empresas estatais. Por outro lado, com requintados serviços de espionagem e uma fortíssima força bélica, ofereciam apoio e inteligência militar para reprimir revoltas populares e Revoluções, o que estimulou a proliferação de Ditaduras e regimes autoritários, como o caso do Brasil em 1964.
E, cinicamente, no centro do discurso político capitalista, temos a defesa da Democracia. Na verdade, os países do bloco socialista defendiam uma Democracia Social contra as desigualdades das Democracias Liberais, que abandona a sociedade aos interesses dos ricos e poderosos. Enquanto isso, os Estados capitalistas usavam do discurso da Democracia contra os totalitarismos de discursos sociais, e se equilibrava entre a opressão e a liberdade, a Ditadura e a Democracia. A única verdade que podemos ver entre este joguete de bem e mal (pensamento maniqueísta) é que a Democracia se firma como uma ferramenta ideológica que omite o que, no fundo, ela defende nas entrelinhas, dependendo do sistema político-econômico.
Liberalismo e Estado de Bem-Estar social (ou social-democracia) se diferem em relação aos direitos que defendem, mas se asemelham por serem regimes de Lei e Ordem para garantir liberdades individuais. Isso gera quatro condições, no mínimo, complicadas:

  • Liberdade e competição são positivas, tanto como competição econômica (livre-iniciativa) quanto competição política entre partidos;
  • A Lei serve para limitar o poder político contra a Tirania e para garantir os governos escolhidos pela vontade da maioria;
  • A Ordem para conter os conflitos sociais, impedindo a luta de classes (o interesse dos economicamente excluídos contra os interesses das elites econômicas) seja por repressão, seja por atender demandas sociais (emprego, educação, moradia, saúde, etc);
  • Assim a Democracia torna a política um instrumento de poucos (políticos profissionais), o que, de um lado forma uma elite de técnicos competentes à direção do Estado (evitando que extremistas e radicais tomem a cena política), enquanto, de outro, omite o povo de seus direitos políticos de cidadão, tendo apenas o papel de votar a cada quatro anos (passando assim seus direitos de escolha política nas mãos de um representante).

A Democracia se torna um regime político eficaz, baseado na idéia de cidadania política organizada em partidos políticos, manifestada no processo eleitoral, na rotatividade de governantes e nas soluções técnicas (não políticas) para problemas sociais. Assim, de acordo com o economista, filósofo e sociólogo alemão Karl Marx, a Democracia é uma ideologia política, formalista jurídica pelo direito de cidadania. Ou seja, defende tais direitos em meio a uma sociedade estruturada de maneira que tais direitos inexistem para a maioriada população. Democracia formal, e não concreta.

A Sociedade Democrática

Na prática democrática há uma verdade que tal ideologia deixa transparecer. Primeiro, eleições são meramente a rotatividade de governos ou a alternância do poder. O poder se torna um lugar vazio preenchido por representantes periódicos, e não identificado com os ocupantes do governo. Situação e oposição, maiorias e minorias: a sociedade é tratada como internamente dividida (legitimamente) e essa divisão é publicamente expressa. A democracia, assim, é a única forma política que legaliza e legitima o conflito.
Em segundo, igualdade e liberdade como direitos civis: ao tratar o cidadão um sujeito de direitos, se tais direitos não existem, é certo o direito (e o dever) de lutar por eles e exigi-los. Temos aqui o cerne da Democracia. Direito não é necessidade, carência ou interesse, características individuais que são tantas quanto os grupos sociais representados no país. Direito não é algo particular ou específico, mas sim geral e universal, válido para todos os indivíduos, grupos e classes socias. Uma sociedade é realmente democrática quando, além de eleições, partidos políticos, três poderes, respeito à vontade da maioria e das minorias, institui direitos.
Quando a Democracia foi inventada pelos atenienses, originalmente defendia três direitos essenciais: igualdade, liberdade e participação no poder:

  • Igualdade significa igualar os desiguais, seja por redistribuição de renda, seja por garantir a participação política. Mais a frente, Karl Marx defendeu que só haveria igualdade se existinguissem escravos, servos e assalariados explorados. A mera declaração de igualdade não quer dizer que automaticamente todos são iguais, mas que deve se instituir um instrumento eficaz para aplicá-la;
  • Liberdade significa o direito de qualquer cidadão expor em público interesses e opiniões, debatê-los e acatar a decisão pública da maioria (sendo aprovado ou rejeitado). Após a Revolução francesa, este direito se ampliou para a independência para escolher o ofício, o local de moradia, o tipo de educação, o cônjuge – consequentemente, a recusa das hierarquias supostamente divinas ou naturais. Também se acrescentou o direito que todos são inocentes até que se prove o contrário perante tribunal (e liberação ou punição devem ser dadas perante a lei). Os movimentos sociais ampliaram a liberdade ao direito de lutar contra todas as tiranias, censuras e torturas, contra toda exploração e dominação, seja social, religiosa, econômica, cultural ou política. Assim como a igualdade,  o direito à liberdade é o dever de se instituir ferramentas para aplicá-la;
  • Participação no poder significa que todo cidadão tem competência para opinar e decidir, já que política não é uma questão técnica nem científica, mas uma ação coletiva. Da Democracia ateniense direta, passamos à moderna Democracia representativa, com o direito à participação indireto através de representantes. Surge o sufrágio universal e a garantia de que qualquer um possa se candidatar para ser representante (desde que não esteja sob suspeita de crime). Mais uma vez, temos a criação de um direito que necessita de ferramentas para se aplicar.

   
A supremacia norte-americana: endividamento dos países “colonizados” e apoio logístico e militar na resolução de mobilizações populares. Democracia?
Assim, a Democracia se distingue por ser:

  • A única sociedade e regime que considera o conflito legítimo, como direito a ser reconhecido e respeitado, o que, quando organizado socialmente, limita o poder do Estado;
  • Uma sociedade verdadeiramente histórica, isto é, aberta ao tempo, ao possível, às transformações e ao novo. Logo, se transforma ao longo dos tempos para se moldar às novas necessidades.

Assim, temos a política democrática como o governo do povo, pelo povo e para o povo. Entretanto, existem as classes sociais que subdividem o povo em classes sociais antagônicas (como definido por Marx). A sociedade democrática não esconde suas divisões, mas as trabalha pelas instituições e leis. Todavia, dentro do capitalismo, o conflito de interesses é posto pela exploração de uma classe social por outra, mesmo que, ideologicamente, se afirme que todos são livres e iguais. Grandes obstáculos à verdadeira Democracia. As lutas sociais nos países de capitalismo avançado garantiram direitos e atenuaram tais dificuldades, mas por outro lado, os encargos destas conquistas recaíram sobre os trabalhadores dos países do Terceiro Mundo. Coincidentemente, enquanto nos países de capitalismo avançado se conquistavam tais direitos, nos países do Terceiro Mundo se implantavam os Regimes Ditatoriais.
Nos dias atuais esta situação fica mais complicada, pois as mudanças nos modos de produção capitalista contemporânea adapta os mercados toda vez que surge uma crise, deixando os custos da crise para a população economicamente mais pobre: o Neoliberalismo implica no abandono do Estado de Bem-Estar social (privatização) e o retorno da idéia de autocontrole da economia pelos mercados, afastando o Estado de tais decisões (desregulação). Soma-se a isto o avanço dos meios de comunicação e de tecnologias eletrônicas, como mudanças na automação da produção e na distribuição dos produtos, o que acarreta em desemprego em massa, movimentos racistas e exclusão social, política e cultural. Direitos conquistados tornam-se frágeis, pois os trabalhadores não são mais tão necessários neste novo cenário.
Outros obstáculos à Democracia situam-se também na questão que tange à participação política. A partir da segunda metade do século XX, surge um novo modelo de divisão social: dirigentes (recebem educação científica e tecnológica) e executantes (por não possuir conhecimentos tecnológicos ou científicos, apenas executam tarefas, sem conhecimento das finalidades de suas ações, considerados incompetentes e destinados a obedecer). Desta divisão, surge a capacidade contemporânea de quem manda e quem obedece, e deste fator temos uma nova ideologia: a competência tcnocientífica, ou seja, conhecimentos dão o poder de mando e direção. Com o fortalecimento da mídia, tal ideologia invadiu à política, de maneira que um indivíduo, para se candidatar a algum cargo, deve ser considerado um administrador competente. Política, assim, deixa de ser uma ação coletiva de todo e qualquer cidadão. Além disto, para ser “competente”, deve ter recursos financeiros para estudar e adquirir tais conhecimentos – ou seja, “competentes” são sempre da classe economicamente dominante (o que gera interesses de classes acima de interesses coletivos e públicos). Por último, os meios de comunicação de massa em sua maioria estão vinculados à grupos de interesses econômicos, o que pode acarretar em informações transmitidas de maneira deturpada durante e fora dos períodos eleitorais. Esta informação é a base de que quase todos os eleitores se utilizam para se decidirem no momento do voto.
Ainda assim, deve-se lembrar que, mesmo com todos os obstáculos apresentados, somente em uma sociedade democrática podemos notá-los, discuti-los e superá-los.

Dificuldades para a Democracia no Brasil

Após o regime Militar, definiu-se que no Brasil implantou-se a Democracia, pois, a partir de então, temos eleições, partidos políticos, divisão da República em três poderes, liberdade de pensamento e expressão, contraposto ao Autoritarismo (golpe de Estado, sem eleições ou partidos políticos, o poder Executivo domina os outros dois, há censura do pensamento e da expressão, além da prisão de inimigos políticos). Portanto, ao contrapor as condições do Estado brasileiro, define-se o Brasil como uma Democracia. Mas esta visão exclui o autoritarismo social, muito presente em nosso país. Nossa sociedade é hierárquica, entre inferiores que obedecem e superiores que mandam. Além disso, temos um Autoritarismo violento, baseado em racismo, machismo, discriminação religiosa, social, desigualdade econômica, exclusão cultural e política. Deste modo, a prática da igualdade e da liberdade ficam debilitadas. Desta maneira, a sociedade brasileira fica polarizada entre carências das classes populares e os interesses das elites dominantes, sem alcançar a esfera dos direitos, transforma esta mesma polarização entre despossuídos e privilegiados. E tais privilegiados são os considerados competentes para a direção da sociedade.

   
Entre privilégios e carências, dissipasse a questão dos Direitos Universais do ser humano.
Outro problema são o modelo dos partidos políticos, que basicamente se dividem em três:

  • Clientelistas, que mantêm relações de favores com seus eleitores;
  • Populistas, que tratam seus eleitores como um pai de família trata seus filhos menores;
  • Vanguardistas, que substituem seus eleitores pela vontade dos dirigentes.

Favores, paternalismo ou substituição evidenciam a indústria política, uma criação de imagem dos representantes por meio da mídia de massa, o que transforma eleitores em consumidores. Também a estrutura social de nosso país alimenta um imaginário de um político autoritário, “salvador da nação”, quase que um messias enviado por Deus e referendado pelo voto da maioria, o que transforma eleitores em votantes (da escolha à delegação da competência de escolher para alguém). Uma espécie de concepção teocrática em que governantes são quase divindades e que suas escolhas tem força de lei.

 
As leis brasileiras não são compreendidas por boa parte da população, o que as transforma em algo alheio às suas vidas.

As leis, por ser um espelho de privilégios (de dominantes) ou vontades (do governante), ficam longe de ser expressão de direitos ou decisões coletivas. O Judiciário é quase incompreensível, algo misterioso, místico, o que faz das leis incompreensíveis e ineficientes (daí a origem ao “jeitinho brasileiro” de transgredir normas para obter o almejado).

De acordo com as palavras de Marilena Chauí, “a Democracia, no Brasil, ainda está por ser inventada“.

Fontes de Pesquisa:

  • Chauí, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo. Atica, 1994.

© Revista Eletrônica de Ciências – Número 24 – Fevereiro / Março de 2004.


cultura de massa

(trecho do material enviado pela Mayara)

Cultura popular, cultura de elite, cultura de massa
Orlando Fedeli
Cultura de massa é, em nossos dias, conceito dos mais amplos, abrangendo, muitas vezes, toda e qualquer manifestação de atividades ditas populares. Do carnaval ao rock and roll, do jeans à coca-cola, das novelas da televisão às revistas em quadrinhos, tudo, hoje, pode ser inserido no cômodo e amplo conceito de cultura de massa.
Todavia, muitos dos que assim utilizam tal conceito ver-se-íam em dificuldades se indagados acerca de sua real abrangência.
Antes, porém, de estudar o que vem a ser cultura de massa, cabe perguntar: o que é cultura? O que é massa?
Povo e Massa
O Papa Pio XII, em sua célebre Radiomensagem de Natal de 1944, distinguiu magistralmente os dois conceitos.
O povo, ensina o Pontífice, é formado por indivíduos que se movem por princípios. Ele é ativo, agindo conscientemente de acordo com determinadas idéias fundamentais, das quais decorrem posições definidas diante das diversas situações .
A massa, ao contrário, não passa de um amálgama de indivíduos que não se movem, mas são movidos por paixões. A massa é sempre, e necessariamente, passiva. Ela não age racionalmente e por sua conta, mas se alimenta de entusiasmos e idéias não estáveis. É sempre escrava das influências instáveis da maioria, das modas e dos caprichos que passam.
A massa é como a areia movida pelo vento, ou o rebanho nas mãos do pastor. Movem-na apenas veleidades: o dinheiro, a facilidade, o luxo, o prazer, o prestígio.
Como animais que temem desgarrar-se do rebanho, os indivíduos que compõem a massa jamais discordam da maioria. Pergunte a um jovem se conhece determinado cantor da moda, e ele terá imensa vergonha em confessar sua eventual ignorância. Em seguida, ele procurará conhecer tal cantor, decorar suas músicas (mesmo que na verdade não as aprecie), conhecer sua história. Somente então, sentir-se-á reconfortado, pois estará finalmentecomo todo mundo“.
A inserção na massa lhe impõe que se vista como os outros, que coma como os outros, que goste do que gostam os outros.
Ser, pensar, agir, estar sempre, obrigatoriamente, “como os outros” é amoldar-se inexoravelmente a esse implacáveldeus” chamado todo mundo. É renunciar à própria individualidade, trocando-a pelo amorfo e medíocreeu coletivo” da multidão.
Inserir-se na massa é socializar a si mesmo.
A massa é, portanto, o povo degenerado.
Pode a massa ter cultura?

A CULTURA EM REFLEXÃO – Júnio Santos

Eu vim da cratera norte

Pra defender
Nossos resquícios culturais (bis)
Defender nossos quintais
Feito lingüeta de fogo
Sobre lavas, sob lavras
pra manter
Nossos resquícios culturais (bis)
Na língua do cantado
Sanfona branca e baião
No cheiro do meu amor
Com a força Boi Barbatão!
São coisas que ainda restam
Por força do milharal
Rapadura, carne-seca, feijão verde
Plantados no meu quintal (bis)
Mevida que me basta
Mevida que me basta!
(Poema de Ray Lima )
 
A PALAVRA CULTURA
 
Cultura provém do latim medieval significando cultivo da terra.
Do verbo latino original COLO que é igual a cultivar, que juntando a cultum, forma a palavra CULTURA, que volto a dizer, no início era relativo ao cultivo da terra.
 
Sua transformação começa a partir da sabedoria acumulada no trato do ambiente natural e a experiência secular de pastores e agricultores acabaram conferindo ao termo cultura, o sentido de conhecimento intelectual, aplicado à ação transformadora do mundo. Por outro lado, podemos dizer que é a convicção do saber acumulado pela existência do trabalho que produz uma libertação de condicionamento.
 
ANTROPOLOGICAMENTE sabemos que “a cultura é o conjunto de experiências humanas adquiridas pelo contato social e acumuladas pelos povos através do tempo.
 
CONCEITOS
 
Os conceitos que iremos listar nos levarão, quem sabe, por caminhos diferentes, porém alcançando um fim comum. Assim vejamos:
 
Italo Calvino diz “quem somos nós? Quem é cada um de nós senão uma combinatória de experiências, de informações, de leituras e imaginações? Cada vida é uma enciclopédia, uma biblioteca, um inventário de objetos, uma amostragem de estilos, onde tudo pode ser continuamente remexido e reordenado de todas as maneiras”.
 
Analisando o que disse Calvino, refletimos que na realidade brasileira atual, podemos sim, ser uma biblioteca, mas uma biblioteca de livros editados e na melhor das hipóteses, editados por um único canal de televisão, ou por algumas vozes poderosas de um mesmo rádio, situado num sistema de comunicação a serviço de uma elite dominante.
 
Um outro conceito nos diz que a cultura é uma expressão simbólica das linguagens, da imensa diversidade que caracteriza o processo e os modos como os povos definem as suas identidades, num contexto, como o nosso, complexo, contraditório, difícil, rico, espelhado pela riqueza do saber popular, afirmamos então, que a cultura é um elemento fundamental de resgate dos valores sem os quais a experiência humana torna-se uma experiência empobrecida e amarga, por isso essa cultura deve ser solidaria, fraterna, igualitária, liberta, justa e que se contraponha à avalanche imposta pelo projeto neoliberal, que como diz o ex-prefeito petista de Belo Horizonte, Patrus Ananias “reduz o sonho humano a uma conta bancária, uma casinha de praia”.
 
A cultura vista desta forma, solidaria, fraterna, liberta e justa, é um instrumento de luta permanente da memória, contra o esquecimento, é abrangente, criadora e mantenedora de valores, significados, símbolos, normas, mitos, imagens, etc… presentes nas práticas cotidianas, nas instituições, movimentos, pensamentos, na arte. É uma cultura que penetra nos coletivos humanos e nos indivíduos, dos conceitos de trabalhos as emoções. Com esse sentido ela é o modo de viver, ser, fazer, pensar, sentir, simbolizar e imaginar das sociedades humanas.
 
Constatamos porém, que com essa diversidade ela é plural e com isso trás diferenças nos significados culturais, mas também cria certas condições que leva uma sociedade inteira a participar dessa mesma criação coletiva, quer seja através da cultura popular, da erudita, da cultura de massa ou da cultura revolucionária para a libertação, expressa através dos ritos religiosos (grandes procissões), espetáculos artísticos, movimentação política ou outros.
 
Porém cultura não significa tão somente esses momentos ou somente o espetáculo. Como diz Marilena Chauí “Cultura não é simplesmente a arte ou o evento”, não é área ou departamento, não é definida pela economia de mercado, é na verdade e sobretudocriação individual e coletiva das obras de arte, do pensamento, dos valores, dos comportamentos e do imaginário.
 
Expresso isso, não podemos nos limitar a pensar a cultura apenas como manifestação cultural, temos que a pensar como parte da trajetória da raça humana, como a marca deixada do homem e da mulher na história do mundo, pois o ato que gera a cultura é a criação, a invenção, a transformação e trabalhar com a cultura é trabalhar com a revolução do próprio corpo, pensamento, no tempo e no espaço, a todo instante, trabalhando o momento de critica e de construção, de continuidade e percepção, porque a cultura faz com que você se olhe no espelho e se reconheça como o próximo, como o outro, como o diferente, como o igual, como o negro e o branco, trabalhando nas múltiplas possibilidades.
 
CULTURA POPULAR
 
Um conceito simples e direto diz quecultura popular é o conjunto de experiências adquiridas, imaginadas, criadas e recriadas pela maioria, contemplando suas tradições, costumes, modos, valores, crenças, folguedos, expressões artísticas, idéias, ações do cotidiano e conhecimentos”. De uma maioria que é a massa dos trabalhadores, hoje no Brasil, a massa sem emprego, sem teto, sem terra, sem dignidade, sem cidadania. Um enorme contigente, uma pária pura, induzida e enganada pela ideologia dominante, desprovida de bens materiais, com um baixo poder aquisitivo e subordinada pela força do capital. Essa cultura com bandeiras arriadas e estandartes danificados é engolida por uma indústria cultural organizada e repressora a serviço da classe dominante, que quer, a todo custo, impor uma nova ordem, pregando, defendendo e impondo uma cultura comum, globalizada e alienante, que desrespeita a história, a tradição, os mitos e as crenças populares.
 
CULTURA ERUDITA
 
Outra cultura em discussão é a chamada erudita. Louis Porcher diz: “Não há duvida de que até uma época recente a arte (vista aqui não como produto, mas sim como cultura), sempre teve na sociedade uma conotação aristocrática, enquanto exercício de lazer e marca registrada da elite”.
 
É claro que a cultura, hoje dita como erudita, era na verdade a cultura popular de nossos colonizadores. Shakespeare era representado na Inglaterra, para o povo e pelo povo e ele era popular, era mestre como é mestre os nossos artesãos, nossos brincantes de reizados, coco-de-roda e de outros folguedos populares (vejam o filme Shakespeare Apaixonado). A comédia Del’Arte era popular no sul da Itália e na França (vejam o filme “Ciranu de Bejerac”), até mesmo no momento em que Molliere assume a sua paternidade e entregue-a a aristocracia francesa; Lopes de Veja era popular na Espanha, na época do teatro de ouro Espanhol; Gil Vicente e seus autos eram popular em Portugal e até recentemente, nesse século que se finda, Garcia Lorca era popular na Espanha com o teatro La Barraca se opondo ao Governo ditatorial e facista de Franco e Bertold Brecht era popular na Alemanha combatendo a força nazista. Essas grandes potências nos colonizaram e nos colonizam até os dias atuais, e se no passado histórico se fecharam em espaços excludentes para ritualizar e perpetuar suas culturas, enquanto os negros dançavam na senzala a capoeira e os índios festejavam suas guerras, caças e deuses da natureza, hoje usam a força dos meios de comunicação e se reúnem nos grandes supermercados culturais, que são as majestosas casas de espetáculos, teatro, casas de shows, arenas de rodeios, financiados e garantidos pelo poder público, restando ao povo, poucos deles por sinal, os sítios, beiras de praias, bairros periféricos, sem apoio, nem moral, para expressar a sua cultura.
 
Rubem Alves, diante disso diz: “A preservação do índio e sua cultura, a harmonia do homem com a natureza, a salvação das florestas, rios e mares, a recusa a violência, a opção pelo pacifismo – todas essas são causas derrotadas. Elas não tem chance alguma frente ao poder econômico e ao poder das armas”.
CULTURA DE MASSA
 
Com o surgimento do protestantismo emerge a burguesia. Até esse momento, historicamente tínhamos a cultura erudita e fechada da aristocracia decadente e a cultura popular e aberta do povo.
 
A burguesia que tinha sua própria arquitetura, os burgos e sua própria religião o protestantismo mas que não tinha referencia cultural, começou a construir seu próprio espaço, os grandes teatros, pensando a cultura como mais uma mercadoria que podia aumentar o seu capital e consequentemente o seu poder de força, tirando da cultura o seu caráter lúdico e questionador, mesclando partes do erudito com o popular, roubando do povo suas expressões legitimas, modificando-as a seu bel prazer, tendo como instrumento  o avanço da tecnologia e o grau de amplitude dos meios de comunicação de massa, empurrando, goela abaixo do povo, uma nova ordem cultural, uma nova e moderna cultura, uma cultura alienante e sufocante, com cheiro de povo e cara de burguesia, indo buscar os instrumentos no seio do próprio povo, oferecendo-lhes vantagens e riquezas supérfluas, apropriando-se de vez do seu maior bem e herança, transformando o próprio povo, em consumidor desse lixo cultural sem criatividade, sem compromisso, que como carimbo ou produto em série, faz o povo perder a criatividade e passar a ser apenas repetidor de movimentos, de frases indiferentes, de tchans, bundinhas nas garrafas, varrendo vassourinha, humilhando e ridicularizando um povo rico em histórias e tradições.
 AÇÃO CULTURAL TRANSFORMADORA
 Surge como uma opção de combate a cultura de massa e se realiza como bem expressa Paulo Freire “em oposição as classes dominantes, nascendo do seio da cultura popular negada, sendo permanentemente regida pela análise crítica dos valores, pois essa ação é transformadora e se transforma sempre”… dizemos até é camaleonica, não sendo nemslogan” propagandeado pela mídia, como a cultura de massa, nem idealista como a cultura erudita e nem pura e inocente como a cultura popular, mas sendo sim, completa Paulo Freire (…) “uma forma radical e resistente de ser dos seres humanos, pois se expressa de forma consciente e com a necessidade do recriar para resistir”. Esta arte transformadora que se rebela  se engaja e se compromete com outros movimentos sociais organizados, quer seja através  da poesia, da música, das artes plásticas, do cinema, da dança,  da arquitetura, do teatro e de outras formas de expressão, em busca de uma linguagem de fato popular, no âmbito de uma ação cultural emancipatória, ocupa um lugar importante com sua contribuição prática e teórica, para que possa nos dar, com base na cultura popular histórica, novos referenciais e práticas sociais.
Vemos aqui não somente o artistahomem ou mulhermas sim a arte, a cultura, que atravessa, historicamente os povos e as gerações oprimidas, pois se somos os únicos seres vivos capazes de ouvir, ver, tocar, cheirar, sentir, sorrir, chorar, se emocionar e provocar emoções em outros, se temos esses privilégios porque não podemos nos opor as formas alienantes e escravistas da classe dominante com sua cultura enlatada, sendo empurrada alma a dentro sem nenhum respeito ao legados de nossa história e as nossa origens?  A arte e a cultura é bem mais que diversão pura e simples, e deve cumprir a função social, coletiva e mobilizadora de preencher o vazio existencial próprio do ser humano, pois como diz Augusto Boal, …” teremos de fato e direito uma cultura popular, quando o povo dominar os meios de comunicação”…
Sabemos que esta é uma conversa sem fim, dinâmica como a própria vida, onde qualquer unanimidade  é burra e nenhuma unanimidade é possível. No entanto devemos e temos o direito de saber e reproduzir, que no mundo globalizado que ora se instala e se amplia, sobreviverão os países onde a cultura seja elemento preponderante de evolução e crescimento e não apenas peças ornamentais e lucrativas de discursos vazios e improdutivos dos dominantes.
Para refrescar o caos e pensar na eternização dos nossos valores, evocamos Chico Cesar que canta: “O CARNEIRO SACRIFICADO MORRE, O AMOR MORRE, A ARTE NÃO”!.
 
Aracati, 28 de novembro de 1999
 
Júnio Santos

FONTES PESQUISADAS
Revista Palavra – nº 04 – junho de 1999.
Revista Polis – nº 22 de 1995.
Paulo Freire e seu livroAção Cultural Para a Liberdade” – 7ª edição.