IDEIAS IDEAIS

Este mundo da injustiça globalizada

José Saramago

Texto lido na cerimônia de encerramento do Fórum Social Mundial 2002

Começarei por vos contar em brevíssimas palavras um facto notável da vida camponesa ocorrido numa aldeia dos arredores de Florença há mais de quatrocentos anos. Permito-me pedir toda a vossa atenção para este importante acontecimento histórico porque, ao contrário do que é corrente, a lição moral extraível do episódio não terá de esperar o fim do relato, saltar-vos-á ao rosto não tarda.

Estavam os habitantes nas suas casas ou a trabalhar nos cultivos, entregue cada um aos seus afazeres e cuidados, quando de súbito se ouviu soar o sino da igreja. Naqueles piedosos tempos (estamos a falar de algo sucedido no século XVI) os sinos tocavam várias vezes ao longo do dia, e por esse lado não deveria haver motivo de estranheza, porém aquele sino dobrava melancolicamente a finados, e isso, sim, era surpreendente, uma vez que não constava que alguém da aldeia se encontrasse em vias de passamento. Saíram portanto as mulheres à rua, juntaram-se as crianças, deixaram os homens as lavouras e os mesteres, e em pouco tempo estavam todos reunidos no adro da igreja, à espera de que lhes dissessem a quem deveriam chorar. O sino ainda tocou por alguns minutos mais, finalmente calou-se. Instantes depois a porta abria-se e um camponês aparecia no limiar. Ora, não sendo este o homem encarregado de tocar habitualmente o sino, compreende-se que os vizinhos lhe tenham perguntado onde se encontrava o sineiro e quem era o morto. “O sineiro não está aqui, eu é que toquei o sino”, foi a resposta do camponês. “Mas então não morreu ninguém?”, tornaram os vizinhos, e o camponês respondeu: “Ninguém que tivesse nome e figura de gente, toquei a finados pela Justiça porque a Justiça está morta.”

Que acontecera? Acontecera que o ganancioso senhor do lugar (algum conde ou marquês sem escrúpulos) andava desde há tempos a mudar de sítio os marcos das estremas das suas terras, metendo-os para dentro da pequena parcela do camponês, mais e mais reduzida a cada avançada. O lesado tinha começado por protestar e reclamar, depois implorou compaixão, e finalmente resolveu queixar-se às autoridades e acolher-se à protecção da justiça. Tudo sem resultado, a expoliação continuou. Então,

desesperado, decidiu anunciar urbi et orbi (uma aldeia tem o exacto tamanho do mundo para quem sempre nela viveu) a morte da Justiça. Talvez pensasse que o seu gesto de exaltada indignação lograria comover e pôr a tocar todos os sinos do universo, sem diferença de raças, credos e costumes, que todos eles, sem excepção, o acompanhariam no dobre a finados pela morte da Justiça, e não se calariam até que ela fosse ressuscitada. Um clamor tal, voando de casa em casa, de aldeia em aldeia, de cidade em cidade, saltando por cima das fronteiras, lançando pontes sonoras sobre os rios e os mares, por força haveria de acordar o mundo adormecido… Não sei o que sucedeu depois, não sei se o braço popular foi ajudar o camponês a repor as estremas nos seus sítios, ou se os vizinhos, uma vez que a Justiça havia sido declarada defunta, regressaram resignados, de cabeça baixa e alma sucumbida, à triste vida de todos os dias. É bem certo que a História nunca nos conta tudo…

Suponho ter sido esta a única vez que, em qualquer parte do mundo, um sino, uma campânula de bronze inerte, depois de tanto haver dobrado pela morte de seres humanos, chorou a morte da Justiça. Nunca mais tornou a ouvir-se aquele fúnebre dobre da aldeia de Florença, mas a Justiça continuou e continua a morrer todos os dias. Agora mesmo, neste instante em que vos falo, longe ou aqui ao lado, à porta da nossa casa, alguém a está matando. De cada vez que morre, é como se afinal nunca tivesse existido para aqueles que nela tinham confiado, para aqueles que dela esperavam o que da Justiça todos temos o direito de esperar: justiça, simplesmente justiça. Não a que se envolve em túnicas de teatro e nos confunde com flores de vã retórica judicialista, não a que permitiu que lhe vendassem os olhos e viciassem os pesos da balança, não a da espada que sempre corta mais para um lado que para o outro, mas uma justiça pedestre, uma justiça companheira quotidiana dos homens, uma justiça para quem o justo seria o mais exacto e rigoroso sinónimo do ético, uma justiça que chegasse a ser tão indispensável à felicidade do espírito como indispensável à vida é o alimento do corpo. Uma justiça exercida pelos tribunais, sem dúvida, sempre que a isso os determinasse a lei, mas também, e sobretudo, uma justiça que fosse a emanação espontânea da própria sociedade em acção, uma justiça em que se manifestasse, como um iniludível imperativo moral, o respeito pelo direito a ser que a cada ser humano assiste.

Mas os sinos, felizmente, não tocavam apenas para planger aqueles que morriam. Tocavam também para assinalar as horas do dia e da noite, para chamar à festa ou à devoção dos crentes, e houve um tempo, não tão distante assim, em que o seu toque a rebate era o que convocava o povo para acudir às catástrofes, às cheias e aos incêndios, aos desastres, a qualquer perigo que ameaçasse a comunidade. Hoje, o papel social dos sinos encontra-se limitado ao cumprimento das obrigações rituais e o gesto iluminado do camponês de Florença seria visto como obra desatinada de um louco ou, pior ainda, como simples caso de polícia. Outros e diferentes são os sinos que hoje defendem e afirmam a possibilidade, enfim, da implantação no mundo daquela justiça companheira dos homens, daquela justiça que é condição da felicidade do espírito e até, por mais surpreendente que possa parecer-nos, condição do próprio alimento do corpo. Houvesse essa justiça, e nem um só ser humano mais morreria de fome ou de tantas doenças que são curáveis para uns, mas não para outros. Houvesse essa justiça, e a existência não seria, para mais de metade da humanidade, a condenação terrível que objectivamente tem sido. Esses sinos novos cuja voz se vem espalhando, cada vez mais forte, por todo o mundo são os múltiplos movimentos de resistência e acção social que pugnam pelo estabelecimento de uma nova justiça distributiva e comutativa que todos os seres humanos possam chegar a reconhecer como intrinsecamente sua, uma justiça protectora da liberdade e do direito, não de nenhuma das suas negações. Tenho dito que para essa justiça

dispomos já de um código de aplicação prática ao alcance de qualquer compreensão, e que esse código se encontra consignado desde há cinquenta anos na Declaração Universal dos Direitos Humanos, aquelas trinta direitos básicos e essenciais de que hoje só vagamente se fala, quando não sistematicamente se silencia, mais desprezados e conspurcados nestes dias do que o foram, há quatrocentos anos, a propriedade e a liberdade do camponês de Florença. E também tenho dito que a Declaração Universal dos Direitos Humanos, tal qual se encontra redigida, e sem necessidade de lhe alterar sequer uma vírgula, poderia substituir com vantagem, no que respeita a rectidão de princípios e clareza de objectivos, os programas de todos os partidos políticos do orbe, nomeadamente os da denominada esquerda, anquilosados em fórmulas caducas, alheios ou impotentes para enfrentar as realidades brutais do mundo actual, fechando os olhos às já evidentes e temíveis ameaças que o futuro está a preparar contra aquela dignidade racional e sensível que imaginávamos ser a suprema aspiração dos seres humanos. Acrescentarei que as mesmas razões que me levam a referir-me nestes termos aos partidos políticos em geral, as aplico por igual aos sindicatos locais, e, em consequência, ao movimento sindical internacional no seu conjunto. De um modo consciente ou inconsciente, o dócil e burocratizado sindicalismo que hoje nos resta é, em grande parte, responsável pelo adormecimento social decorrente do processo de globalização económica em curso. Não me alegra dizê-lo, mas não poderia calá-lo. E, ainda, se me autorizam a acrescentar algo da minha lavra particular às fábulas de La Fontaine, então direi que, se não interviermos a tempo, isto é, já, o rato dos direitos humanos acabará por ser implacavelmente devorado pelo gato da globalização económica.

E a democracia, esse milenário invento de uns atenienses ingénuos para quem ela significaria, nas circunstâncias sociais e políticas específicas do tempo, e segundo a expressão consagrada, um governo do povo, pelo povo e para o povo? Ouço muitas vezes argumentar a pessoas sinceras, de boa fé comprovada, e a outras que essa aparência de benignidade têm interesse em simular, que, sendo embora uma evidência indesmentível o estado de catástrofe em que se encontra a maior parte do planeta, será precisamente no quadro de um sistema democrático geral que mais probabilidades teremos de chegar à consecução plena ou ao menos satisfatória dos direitos humanos. Nada mais certo, sob condição de que fosse efectivamente democrático o sistema de governo e de gestão da sociedade a que actualmente vimos chamando democracia. E não o é. É verdade que podemos votar, é verdade que podemos, por delegação da partícula de soberania que se nos reconhece como cidadãos eleitores e normalmente por via partidária, escolher os nossos representantes no parlamento, é verdade, enfim, que da relevância numérica de tais representações e das combinações políticas que a necessidade de uma maioria vier a impor sempre resultará um governo. Tudo isto é verdade, mas é igualmente verdade que a possibilidade de acção democrática começa e acaba aí. O eleitor poderá tirar do poder um governo que não lhe agrade e pôr outro no seu lugar, mas o seu voto não teve, não tem, nem nunca terá qualquer efeito visível sobre a única e real força que governa o mundo, e portanto o seu país e a sua pessoa: refiro-me, obviamente, ao poder económico, em particular à parte dele, sempre em aumento, gerida pelas empresas multinacionais de acordo com estratégias de domínio que nada têm que ver com aquele bem comum a que, por definição, a democracia aspira. Todos sabemos que é assim, e contudo, por uma espécie de automatismo verbal e mental que não nos deixa ver a nudez crua dos factos, continuamos a falar de democracia como se se tratasse de algo vivo e actuante, quando dela pouco mais nos resta que um conjunto de formas ritualizadas, os inócuos passes e os gestos de uma espécie de missa laica. E não nos apercebemos, como se para isso não bastasse ter olhos, de que os nossos governos, esses que para o bem ou para o mal

elegemos e de que somos portanto os primeiros responsáveis, se vão tornando cada vez mais em meros “comissários políticos” do poder económico, com a objectiva missão de produzirem as leis que a esse poder convierem, para depois, envolvidas no açúcares da publicidade oficial e particular interessada, serem introduzidas no mercado social sem suscitar demasiados protestos, salvo os certas conhecidas minorias eternamente descontentes…

Que fazer? Da literatura à ecologia, da fuga das galáxias ao efeito de estufa, do tratamento do lixo às congestões do tráfego, tudo se discute neste nosso mundo. Mas o sistema democrático, como se de um dado definitivamente adquirido se tratasse, intocável por natureza até à consumação dos séculos, esse não se discute. Ora, se não estou em erro, se não sou incapaz de somar dois e dois, então, entre tantas outras discussões necessárias ou indispensáveis, é urgente, antes que se nos torne demasiado tarde, promover um debate mundial sobre a democracia e as causas da sua decadência, sobre a intervenção dos cidadãos na vida política e social, sobre as relações entre os Estados e o poder económico e financeiro mundial, sobre aquilo que afirma e aquilo que nega a democracia, sobre o direito à felicidade e a uma existência digna, sobre as misérias e as esperanças da humanidade, ou, falando com menos retórica, dos simples seres humanos que a compõem, um por um e todos juntos. Não há pior engano do que o daquele que a si mesmo se engana. E assim é que estamos vivendo.

Não tenho mais que dizer. Ou sim, apenas uma palavra para pedir um instante de silêncio. O camponês de Florença acaba de subir uma vez mais à torre da igreja, o sino vai tocar. Ouçamo-lo, por favor.

18/03/2002

LEIS DA DIALÉTICA

1. A Mudança Dialética.
I – O Movimento Dialético.
II – Para a dialética não existe nada de definitivo…
III – O Processo.

2. A Ação Recíproca.
I – O encadeamento de processos
II – O desenvolvimento Histórico ou em espiral.

3. A Contradição.
I As coisas se transformam na sua contraria.
II – afirmação, negação e negação da negação.
III – A unidade das Contrarias.

4. Transformação da quantidade em qualidade.
I – A argumentação política
II – A argumentação cientifica

Primeira lei: A mudança dialética.

A primeira lei da dialética começa por contatar que nada fica onde está nada permanece o que é.

I – O Movimento Dialético.

Quem diz dialética diz movimento, mudança. Para ter um estudo dialético devemos nos colocar no ponto de vista dialético, ou seja, no movimento na mudança.
Eis uma maçã. Temos dois modos de estudá-la: Do ponto de vista metafísico e do dialético.
Os metafísicos descreverão o fruto: Sua forma, cor, peso, tamanho… falarão de seu gosto etc…depois pode se comparar à maçã com a pêra, ver suas semelhanças s diferenças e por fim concluir uma maçã é uma maçã e uma pêra é uma pêra.
Se quisermos estudar a maça dialeticamente, estudamo-la no movimento; não no movimento da maçã que rola e cai, mas o movimento de sua evolução.
Devemos constatar que a maçã madura não foi sempre uma maçã madura, antes era uma maçã verde, que já fora uma flor, que foi um botão; e assim chegaremos até a macieira o broto, a semente…. vimos que a maçã não foi sempre uma maçã, nem permanecerá o que é. Se cair da macieira ira apodrecer, se decompor, libertará as sementes que se tudo correr bem dará um rebento, depois uma árvore. Portanto a maçã não foi e também não ficará sempre o que é.

II – Para a dialética não existe nada de definitivo…

Para a dialética, não existe nada de definitivo, de absoluto, de sagrado; apresenta a *caducidade de todas as coisas e em todas as coisas, e, para ela, nada existe alem do processo ininterrupto do devir e do transitório.
Para a dialética não existe nada de definitivo. Para a dialética tudo tem um passado e terá um futuro; que por conseguinte, nada é de uma vez para sempre, e o que é hoje não é definido. (exemplo da maçã)
Para a dialética, não existe nenhum poder no mundo nem para alem dele que possa fixar as coisas num estado definitivo, portanto Nada de absoluto. (Absoluto significa: Que não está submetido a qualquer condição; portanto, universal, eterno, perfeito.)
Nada de sagrado, isto não quer dizer que a dialética despreze tudo. Não! Uma coisa sagrada é aquela que se considera imutável, que não se deve tocar nem discutir, mas só venerar. A sociedade capitalista é sagrada por exemplo. A dialética diz que nada escapa ao movimento, à mudança, às transformações da historia.
*Caducidade vem de caduco, que significa que cai; uma coisa caduca é a que envelhece e deve desaparecer. Para a dialética o que está caduco já não tem razão de ser. O que é jovem torna-se velho, o que hoje tem vida morre amanha. Portanto para a dialética nada é eterno, salvo a mudança. É considerar que nenhuma coisa particular pode ser eterna, senão o devir.

Mas o que é o devir?

Vimos a historia da maçã. Vejamos agora o lápis que também tem sua historia.
O lápis hoje usado, já foi novo. A madeira da qual o lápis foi feito saiu de uma prancha, e esta de uma arvore. A maçã e o lápis têm cada um a sua historia, e não foram sempre o que são. Mas há uma diferença entre essas duas historias!
A maça verde tornou-se madura. Podia, se tudo corresse bem, não se tornar madura? Não, Devia amadurecer, cair a terra, apodrecer, se decompor e libertar as sementes.
Enquanto a arvore de que vem o lápis pode não se tornar prancha, e esta não se tornar lápis. E este pode, ele próprio não ser afiado.
No caso da maçã uma fase sucede à outra, e inevitavelmente uma outra fase se dará (se nada interromper a evolução).
Já na historia do lápis uma fase pode não seguir a outra, se a historia do lápis percorre todas as fases é por uma intervenção estranha – a do homem.
A maçã possui em seu processo fases que se sucedem, a segunda que deriva da primeira, etc…ela segue o devir. No lápis as fases justapõem-se, sem resultar uma da outra. É que a maçã tem processo natural.

III – O Processo.

Palavra que vem do latim, e quer dizer marcha em frente, ou ato de avançar, de progredir.
Por que é que a maçã sendo verde se torna madura?
Quando examinamos a flor que se tornará maçã, a maçã verde que se tornará madura, constatamos que os encadeamentos que impelem a maçã na sua evolução atuam sob o domínio de forças internas a que chamamos: autodinamismo, que significa: força que vem do próprio ser.
Quando o lápis era ainda prancha , foi preciso a intervenção do homem para torná-lo lápis, por que nunca a prancha se transformaria sozinha em lápis.
Não houve autodinamismo, portanto quem diz dialética não diz só movimento, mas também autodinamismo.
Podemos constatar que nem todo movimento é dialético. Se tomarmos novamente o exemplo do lápis a prancha torna-se lápis certamente houve a mudança, mas será ela dialética?
Não, sem o homem a arvore não seria cortada e essa não seria transformada em prancha que por sua vez não viria a ser um lápis. Essa mudança não é dialética, mas, mecânica.

Segunda lei a ação recíproca

I – O encadeamento de processos

Vimos na historia da maçã o que é um processo. Retomemos esse exemplo. Nossas pesquisas devem nos levar até a árvore. Mas, pomos o problema de pesquisa também para esta. De onde ela vem? Da maçã. Da maçã que caiu, apodreceu, liberou as sementes, e isto nos leva a estudar as condições do solo, as influencias do sol, do ar, etc… Partindo do processo da maçã somos conduzidos ao exame do solo, passando do processo da maçã ao da árvore; este processo encadeia-se , por sua vez no do solo. Temos o que se chama: Um ,encadeamento de processos, Isto vai nos permitir estudar a segunda lei da dialética: a lei da ação recíproca.
Tomemos agora o teatro épico como exemplo. Se estudarmos do ponto de vista dialético procuraremos de onde vem, e teremos a resposta inicial: que é uma forma de teatro desenvolvida por Bertold Brecht, que se opõe à ilusão cênica da forma dramática convencional. Seu cunho é narrativo e didático e utiliza uma serie de recursos teatrais para levar o espectador a refletir. Teremos então outra pergunta; quem foi Brecht? Teremos outra resposta que pode ser simples: Poeta e dramaturgo alemão, nascido em Augsburg, em 1898 fez-se, através de seus textos, o grande inimigo do nazismo. Seus objetivos principais resumiam-se no operariado, do qual era fanático protetor. Por que era protetor do operariado? Por que era marxista. Então de onde vem o marxismo?
Vemos pois que a pesquisa do encadeamento de processos nos conduz a estudos minuciosos e completos. Mais ainda: indagando de onde vem o marxismo, seremos levados a constatar que essa doutrina é a própria consciência do proletário, vemos pois que o proletário existe; chegamos novamente ao operariado de que nos referimos ao falar de Brecht poremos então a pergunta: de onde vem o proletariado?
Sabemos que veio de um sistema econômico: o capitalismo. Sabemos da divisão da sociedade em classes vem de um processo que já estudamos. Portanto de processo em processo, chegamos ao exame das condições de existência do capitalismo. Temos assim, um encadeamento de processos, que nos demonstra que tudo influi sobre tudo. É a lei da ação recíproca. É preciso entender que as coisas não são tão simples. O que constatamos é a existência, em todas as coisas, do encadeamento de processos que se produzem pela forca interna (o autodinamismo). Para a dialética insistimos nisso: nada está acabado. É necessário considerar as coisas como nunca tendo cena final. No fim de uma peça de teatro do mundo, começa o primeiro ato de uma outra. Para dizer a verdade ele já começa no ultimo da peça precedente. Devemos por tanto fixar que: a ciência, a natureza, a sociedade devem ser vistas como um encadeamento de processos, e o motor que trabalha para desenvolver tal encadeamento é o autodinamismo.

II – O desenvolvimento Histórico ou em espiral.

Se examinarmos um pouco mais de perto o processo que começamos a conhecer , vemos que a maçã é o resultado de uma serie de processos. De onde vem à maçã? Da árvore. De onde vem à árvore? Da maçã. Podemos portanto pensar que existe um circulo vicioso onde voltamos sempre ao mesmo ponto. Se considerássemos as coisas assim, não seria um processo e sim um circulo, (retorno ao eterno).
Mas vejamos como se põe o problema.

Eis uma maçã.
Esta se decompondo, dá origem a uma ou mais árvores.
cada arvore não dá uma maçã, mas varias.

Não voltamos, portanto, ao mesmo ponto de partida; voltamos à maçã, mas em um outro plano.
Do mesmo modo se partimos da arvore, teremos:

Uma árvore que dá
maçãs, e maçãs que darão
árvores.

Também aqui voltamos à árvore, mas num outro plano. O ponto de vista amplio-se.

Não temos pois um circulo, como as aparências pretendiam mostra mas um processo de desenvolvimento, a que chamaremos desenvolvimento histórico.
O mundo, a natureza a sociedade constituem um desenvolvimento que é histórico, e, em linguagem filosófica, se chama desenvolvimento em espiral.
Usamos a imagem da espiral para fixar as idéias. é uma comparação para ilustrar que as ciências evoluem segundo um processo circular, mas não voltam ao ponto de partida; voltam um pouco acima, num outro plano, e assim sucessivamente, o que dá uma espiral ascendente.
Não podemos esquecer que o motor que põe em movimento esta espiral é o autodinamismo.
Cabe a filosofia dar uma explicação do mundo e dos problemas mais gerais; é a missão em particular do materialismo dialético – reunir todas as descobertas particulares de cada ciência, para fazer a síntese, e dar assim, uma teoria que nos torne cada vez mais, como dizia Descartes, mestres e possuidores da natureza.

Terceira lei: a contradição

I – As coisas se transformam na sua contraria

A dialética nos ensina que as coisas não são eternas: tem um começo meio e fim, a morte.
Por que é que o que nasce é, portanto obrigado a morrer? Eis uma grande lei da dialética, que devemos confrontar.
Normalmente consideramos as coisas de um modo isolado, quando pesquisamos vida fazemos isso sem relacioná-la com qualquer outro fenômeno. Se examinarmos a morte, faremos da mesma maneira.
E acabaremos por concluir: ávida é a vida, e a morte é a morte. Não há nada de comum entre elas não se pode estar ao mesmo tempo vivo e morto, pois são coisas opostas, inteiramente opostas uma a outra. Correto?
Não. Examinamos as coisas desta maneira pois temos uma concepção metafísica do mundo, vemos as coisas apenas por um lado, não por que queremos ver as coisas assim, mas por que essa visão esta enraizada em nós pela nossa formação cristã.
Não podemos separar tão brutalmente a vida e a morte, uma vez que a experiência e a realidade nos mostram que a morte continua a vida, que a morte vem do vivo. E a vida também pode sair do morto, pois os elementos do corpo morto vão transformar-se para dar origem a outras vidas. A própria vida só é possível pela continua substituição de células que morrem por outras que nascem.
Se examinarmos a verdade e o erro, pensamos não há nada de comum entre eles. A verdade é a verdade, e um erro é um erro. Se dissermos: “Olha, chove!” acontece que, por vezes nem terminamos de completar a frase e já não chove. A frase que era exata tornou-se um erro. Vemos que a verdade se transforma em erro, será que o erro se transforma em verdade?
Na antiguidade, sobretudo no Egito, os homens imaginavam uma luta entre deuses para tentar explicar o por e o nascer do sol; era um erro quando se colocava a questão da luta dos deuses. Mas as ciências dão parcialmente razão a este raciocínio, dizendo que há realmente forças (físicas) que fazem mover o sol. Vemos, pois, que o erro não está oposto à verdade.
Observando de perto um ser vivo, notamos que este é composto de células que desaparecem e aparecem no mesmo lugar. Vivem e morrem sem cessar em um ser vivo, onde existe, portanto vida e morte.
Assim, as coisas não só se transformam umas nas outras, uma coisa não é apenas ela pura e simplesmente, mas também a sua contraria. Toda coisa é ao mesmo tempo, ela própria e sua contraria.
Assim no interior de cada coisa existem forças opostas, e estas lutam. Uma coisa é movida por forças que se chocam pois estas estão em direções opostas.
Uma tende para a afirmação (vida) e a outra para a negação (morte).

II – afirmação, negação e negação da negação.

É necessário fazer aqui uma distinção o que se chama contradição verbal – que significa responder Não quando alguém lhe diz Sim – a que acabamos de ver é a contradição dialética, isto é, nos fatos nas coisas.
Pensem em um ovo que posto e chocado por uma galinha: este ovo contém um germe, que a uma certa temperatura se desenvolve. Desenvolvendo-se dará um pintinho, desse modo o germe já é a negação do ovo. Veremos que no ovo existem duas forças; a que tende para que permaneça ovo, e a que tende para que se torne pintinho. O ovo está, portanto em desacordo consigo próprio, existe aqui a afirmação e a negação.
Uma coisa começa por ser uma afirmação que sai de uma negação. O pintinho é a afirmação resultante de negação do ovo.esta foi uma fase do processo.
A galinha por sua vez será a transformação do pintinho, haverá novamente uma luta para que o pintinho se torne galinha, e outra para que continue sendo pintinho.
A galinha será, portanto a negação do pintinho, que era a negação do ovo.
afirmação – ovo
negação – pintinho
negação da negação – galinha

afirmação – chamado também Tese.
negação – ou Antítese.
negação da negação – ou Síntese.

A destruição é uma negação. O pintinho é a negação do ovo, uma vez que nascendo, o destrói.
Assim a contradição verbal quer dizer não a contradição dialética quer dizer destruição.
Mas a destruição só é uma negação quando é dialética, quando for um produto da afirmação, se dela sair. O ovo é a afirmação, sendo chocado origina sua negação – torna-se pintinho, este simboliza a destruição ou a negação do ovo, rompendo, destruindo a casca.
No pintinho, vemos duas forcas adversas: pintinho e galinha; no decurso deste desenvolvimento do processo, a galinha porá ovos, nova negação da negação. Destes partirá então um novo encadeamento de processo.
Observamos a esse respeito, pelos exemplos, que regressamos sempre ao ponto de partida, mas num outro plano mais elevado, (desenvolvimento em espiral).

III – A unidade das contrarias.

Uma coisa não tem nada a ver com a sua contraria, é o que se pensa em geral. Mas para a dialética toda coisa é, ao mesmo tempo ela própria, e a sua contraria, unidade de contrarias, e é preciso entender bem isso.
Se tomarmos como exemplo o saber e a ignorância, concluiremos, metafisicamente: “um sábio não é ignorante, e um ignorante não é um sábio”. No entanto se analisarmos melhor, não poderemos colocá-las em oposição tão rígida. Primeiramente reinou a ignorância, depois é que com aprendizados vem o saber; então verificamos que a ignorância se torna o saber. Uma coisa que se torna sua contraria. Não existe o ignorante completo. Um sujeito por mais ignorante que seja sabe, pelo menos, reconhecer objetos, existe sempre um pouco de saber na ignorância. Mas, há ignorância no saber, pode existir o saber cem por cento? Não. Há sempre o que aprender, não há saber absoluto. Todos os saberes contem uma parte de ignorância.
Podemos retomar os exemplos que já vimos: a vida e a morte, a verdade e o erro; veríamos que em ambos, existe uma unidade de contrarias, isto é, que cada um contem, ao mesmo tempo, ela própria e sua contraria.
Uma coisa não só se transforma na sua contraria, ela é ao mesmo tempo ela própria e sua contraria.
É preciso compreender bem essa lei dialética que é a contradição, precisamos evitar querer aplicar em tudo, mecanicamente, por exemplo à negação da negação, devemos prestar muita atenção quando explicamos ou aplicamos a lei das contrarias, por que nossos conhecimentos são limitados, e isso pode nos deixar em situações críticas.
O que conta, é o principio: a dialética e as suas leis nos fazem estudar as coisas para descobrir sua evolução e as forcas, as contrarias, que determinam essa evolução. É preciso estudar a unidade das contrarias contida nas coisas, e esta equivale a dizer que uma afirmação não é nunca uma afirmação absoluta, uma vez que contém em si mesma, uma parte da negação. E isso é o essencial: é por conterem a sua própria negação que as coisas se transformam. A negação é o dissolvente, se não existissem as coisas não mudariam.
Há mudança, movimento, onde haja contradição. Em uma situação temos a afirmação à negação em conflito pois são contrarias, e quando aparece o terceiro termo, a negação da negação, aparece a solução, porque, nesse momento a razão da contradição é eliminada.
Para resumir, e como conclusão teórica, diremos: “As coisas mudam, porque encerram uma contradição interna, elas próprias, (afirmação), e suas contrarias, (negação) as contrarias estão em conflito, e as mudanças nascem desse conflito (negação da negação) assim a mudança (negação da negação) é a solução do conflito”.

Quarta lei: Transformação da qualidade e quantidade ou lei do progresso por saltos.

I – Exemplo político

Um exemplo político da lei do progresso por saltos: Um homem que se apresenta à candidatura a um mandato qualquer, precisa de 4500 votos para obter a maioria absoluta não é eleito com 4499 votos, continua a ser apenas um candidato, com um voto a mais a mudança pela quantidade de votos determina uma mudança de qualidade uma vez que o candidato que era, se torna um eleito.

II – Exemplo cientifico

Tomemos por exemplo à água. Partamos de 0º e façamos subir de 1º , 2º , 3º até 98º: a mudança é continua iremos ainda até 99º, mas a 100º, temos uma mudança brusca, a água transformasse em vapor.
Se invertermos o processo de 99º descermos até 1º, teremos novamente uma mudança continua, mas a 0o a água transformasse em gelo.
De 1º a 99º , permanece sempre água apenas a temperatura muda é apenas uma mudança quantitativa, quantidade de calor que tem a água. Quando se transforma em gelo ou vapor, temos uma mudança qualitativa, uma mudança de qualidade. Já não é água, é gelo ou vapor.
Quando uma coisa não muda de natureza, temos uma mudança quantitativa (no exemplo da água, uma mudança de grau de calor, mas não de qualidade).
Se muda a natureza, quando se torna outra coisa, a mudança é qualitativa.


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