Uma coletividade crítica

NEY PIACENTINI E S ÉRGIO DE CARVALHO

A chance de uma inserção mais viva do teatro no sistema das artes está na sua desmercantilização. É a partir de uma contradição que se abre alguma possível mudança: uma nova circulação em alguma medida será um retorno à produtividade, à não-circulação. Ela depende do fim do imperialismo do valor de troca, da negação do sentido mercantil do trabalho teatral. É do retorno a uma utilidade propriamente artística, uma utilidade afeita ao inútil, uma utilidade da ação supérflua em relação à sobrevivência físicamas necessária em relação à vida livre, que o teatro extrai a chance de um diálogo produtivo com sua época. Sempre que se sujeita acriticamente aos limites convencionais impostos pelo chamado mercado das artes (entidade mal formada num país sem burguesia liberal), o teatro reafirma a voz da mercadoria. As temporadas nos teatros centrais nas grandes cidades, quando não criam um novo lugar de encontro artístico, reproduzem a marca da instituição acolhedora. O dinheiro gasto com mídia paga, assessorias de imprensa e bajulação dos servidores das empresas jornalísticas acena para céu dos grandes capitais como o primo pobre cumprimenta o grande parente financista e nesse gesto expressa sua aprovação invejosa. Enquanto isso, encalham os cartazes e filipetas que insistimos em manter como lembrança de uma época em que se tinha uma relação mais direta com o público, lembrança de um tempo pré-financeirizado em que os produtores tinham o gosto de mercadejar porque na feira dos bens culturais ainda existia alguma relação viva para além da hegemonia das marcas. Nos antípodas disso, a recusa simples em participar do jogo, a decisão em se afastar dos centros urbanos e dos lugares marcados do teatro não garante a ninguém uma desmercantilização das relações. O movimento de fuga pode carregar consigo o horror de origem.

Para carregar o autoritarismo ideológico das falsas respostas ou o fetichismo da cultura autorizada. Para criar um novo lugar, o teatro não pode ignorar que o processo de mercantilização atravessa toda a vida subjetiva e objetiva da sociedade, nem deixar de se dirigir aos despossuídos. Se é verdade que o movimento vem das províncias e subúrbios, é também verdade que não devemos deixar de atuar nos centros da produção simbólica e dos debates críticos, porque é em relação a eles que os extremos se posicionam. Aos descontentes, em toda parte, nos dirigimos.

A esperança para o teatro provém de seu potencial de dizer não às tendências dominantes do mundo da mercadoria – a especialização, a individualização, a serialização, a facilitação, a hedonização, a consumição. É porque esse potencial subsiste que não desistimos por completo da tentativa de uma relação direta com o público. Isso quer dizer – as companhias que pretendem superar os limites pré-estabelecidos pelo que se chama de mercado não devem priorizar o seu aprimoramento estético mas também trabalhar para substituir o destino de todo produto (a circulação) por um destino de ativação da coletividade. A criação de coletivos de grupos teatrais, o cooperativismo, a junção com parceiros não habituados a partilhar do chamado universo cultural, o estabelecimento de objetivos produtivos que façam – de atores e publico – seres conscientemente ativos e responsáveis, tudo isso pode ser o ponto de partida para um trabalho desmercantilizado nos centros ou periferias das cidades. Não são produtos ou eventos culturais que devemos oferecer, mas processos de invenção livre de uma vida melhor. A elaboração de políticas públicas para o teatro terá importância real quando liberar energias para uma democratização verdadeira das potencialidades críticas da sensibilidade.

Não são aos consumidores de arte que nos dirigimos. Não deveríamos reforçar a ilusão de que o mercado oferece escolhas e autonomia, mas sim trabalhar para uma coletividade crítica. A capacidade de diálogo com espectadores se mede pela desautomatização de seus hábitos de consumo cultural, pela formação de novos modelos produtivos, pela flexibilização de suas estruturas de pensamento, imaginação e percepção, pela lembrança simbólica de que existimos coletivamente. Cabe a nóscom nossa capacidade profissional, em meio ao mundo da mercadoriaproduzir condições materiais para que o livre Amadorismo seja um direito de todos e um modelo para o ofício. Se as gerações anteriores encontraram saídas para o seu tempo, cabe a nós pôr em movimento nossa história.

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