Carta de Esquivel ao cardeal Julio Terrazas, da Bolívia

Adolfo Perez Esquivel, prêmio Nobel para a Paz, escreveu uma carta contundente e profética ao cardeal Julio Terrazas, arcebispo de Santa Cruz de la Sierra, a respeito do recente referendo pela autonomia do departamento. Esquivel, católico convicto, trata o cardeal por tu, já que é seu irmão na fé e a gente se trata por tu entre irmãos. Censura-o por suas posições partidárias e procura convencê-lo com veemência, avançando argumentos evangélicos que lhe parecem evidentes e descrevendo- lhe as realidades concretas do país, que ninguém pode ignorar. A carta foi publicada pela revista Témoignage Chrétien de 22 de maio de 2008. Também publicada no site do IHU de 3.6.2008.

Segue a carta

Caro irmão em Cristo, recebe uma saudação fraterna de Paz e Bem.
Pretendia encontrar-te para conversar pessoalmente contigo durante minha recente visita à Bolívia. Procurei estabelecer um contato, mas não tive êxito, pois te encontravas em Lima, no Peru, e soube que não terias retornado a Santa Cruz antes de 4 de maio, portanto após meu retorno à Argentina. Gostaria de compartilhar fraternalmente  algumas preocupações contigo enquanto irmão na fé. O Evangelho é muito claro: Jesus expressou algumas opções concretas com respeito aos pobres e àqueles que estão em necessidade. Além disso, sempre nos ensinou a buscar a Verdade e a Justiça, que são as bases fundamentais para construir a Paz. Jamais manifestou alguma discriminação com os pobres, nem para a cor da pele, da raça ou da condição social. É boa coisa, caro irmão, manter presente o espírito desta mensagem de Jesus: “Se alguém quiser ser o primeiro, que tome o último lugar e se torne servo de todos. Quem recebe um pequenino como estes em meu nome, recebe a mim…” (Mt 9, 35-37).

Quero dizer que estou estupefato pelas escolhas que recém fizeste. Não estou aqui para te julgar, mas quero simplesmente compartilhar contigo as preocupações que nós todos temos, cristãos e não cristãos, que esperamos de ti uma posição coerente com o Evangelho. Preocupa-me muito o fato de que tu defendas aqueles que pretendem desestabilizar um governo democrático e que tu apóies os Comitês Cívicos de Santa Cruz, que saúdam à maneira nazista e ameaçam expulsar da região todos os “Collas“, os indígenas locais. É verdadeiramente um retrocesso para a Bolívia e para a humanidade inteira. Preocupa-nos muito que tu apóies os proprietários de terras que procuram o seu interesse e não o bem do povo. Irmão, tu ignoras todas estas coisas ou as admites?… Preocupa-nos muito que tu chegues a negar a situação de escravidão a que são submetidas as comunidades guaranis da parte dos grandes proprietários. Sabes bem que há situações evidentes já denunciadas pelo governo boliviano.
Não podes ignorar que funcionários enviados a Santa Cruz pelo governo são ameaçados por bandos armados que os impedem de entrar nas haciendas.

Preocupa-nos muito que tenhas votado por um referendum anticonstitucional e ilegal, denunciado pela Organização dos Estados Americanos, pela União Européia e pelos povos e governos de toda a região.

Que tenhas votado ou não, diz respeito à tua consciência, mas não podes ignorar que este referendum é racista, discriminador, portador de exclusão social e, por conseguinte, contrário à mensagem de Jesus.

Sabes muito bem que o Novo Estatuto, bem como toda a campanha autonomista desencadeada pelos grandes proprietários serve, antes de tudo, para defender os seus interesses econômicos e que, na realidade, procuram promover um golpe de estado contra um governo democraticamente eleito com grande maioria pelo povo.

Sabes também muito bem que durante os numerosos anos em que estes senhores feudais governaram o país, jamais se interessaram em promover as autonomias departamentais e, menos ainda, em pôr em ação um processo de descentralização do poder em direção ao povo. Se agora reagem assim, é que sentem que os seus interesses econômicos estão ameaçados.
Procuram o modo de desestabilizar as instituições do país e promover o separatismo junto a outras regiões que formam aquela que é chamada a “Meia Lua”. Tudo isto ameaça a soberania nacional e a integridade da Bolívia. A América Latina não necessita de “pactos de autonomia”, como pretendem os grandes proprietários para poder angariar benefícios para si e somente prejuízos
para o povo.

TutoQuiroga, o chege dos independentes, que hoje fala tanto de democracia, foi aliado do ditador Hugo Banzer e também vice-presidente da Bolívia naquela época. Junto com aquele ditador foi até responsável por um genocídio e por crimes contra a humanidade. Além disso, quando participou daquela presidência, jamais fez nada pelo povo, em particular pelos mais pobres que, sob aquele governo ditatorial, tiveram que suportar a humilhação e o desprezo daqueles senhores feudais que então
governavam a Bolívia.

Na realidade, não suportam hoje que um irmão indígena Aymara, Evo Morales, seja o presidente da Nação, que uma irmã “Colla” seja ministro da Justiça e que os indígenas e os camponeses sejam finalmente respeitados e reconhecidos em suas culturas, identidades e valores sociais e espirituais. Sobretudo, não suportam que o governo recupere os recursos naturais e promova a reforma agrária e a do direito e da igualdade para todos, e não só para alguns. O presidente Morales aceitou a solicitação de outro referendum em todo o país, para que o povo decida se seu governo cumpriu com suas obrigações e se quer que a Bolívia seja um povo livre e soberano ou que viva escrava e de joelhos diante de seus opressores, como outrora.

Mas tu, irmão, onde te colocas à luz do Evangelho?… Talvez ignores que o governo de Evo Morales em dois anos conduziu positivamente políticas de transformação e de dignidade para o povo boliviano, coisa que jamais haviam feito os governos precedentes? Sabes que ele teve a coragem política de recuperar a soberania de um país sobre seus recursos naturais e energéticos e que decidiu voluntariamente combater o analfabetismo e melhorar a saúde do povo?… Não te sentes mal quando países irmãos como a Venezuela e Cuba vêm ajudar em solidariedade o povo boliviano e encorajam o governo para que desenvolva ulteriormente programas de saúde e de instrução para elevar o nível de vida de todos?…

De outra parte, também sabes muito bem que os meios de comunicação do país estão nas mãos dos grandes proprietários e que desenvolvem uma sórdida campanha contra o governo, mantendo, porém, em silêncio as manipulações da embaixada dos Estados Unidos que continua conspirando contra o governo e procurando os seus próprios interesses.

Que o governo boliviano tenha cometido algum erro, é certo. Reconhece-os e sabe que deve corrigi-los.

Mas tu, o que fizeste para ajudá-los e para caminhar com o povo? Tu, irmão, que és o chefe da Igreja da Bolívia,
qual é a tua opção e que leitura fazes de tudo o que eu te disse e que já sabes muito bem?…

É preciso, a todo o custo, escolher entre duas opções: ou seguir o Evangelho, ou continuar envolto nas mentiras e nas injustiças, nas discriminações, no ódio, no racismo e na exclusão social. É preciso “dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”.

Como irmão em Cristo, peço-te que medites, que rezes e que peças a Deus que te ilumine e te conduza.

De nossa parte, rezaremos por ti e por todos aqueles que lutam para construir um mundo mais justo e mais fraterno, reforçando a democracia e o respeito dos direitos humanos. Com muitos irmãos e irmãs na fé, com as comunidades religiosas e com todas as igrejas cristãs, fiquemos unidos na oração e peçamos ao Senhor que, em sua infinita bondade, fortifique todos os bolivianos no caminho da Verdade e da Justiça, para chegar à Paz e à unidade de todo o povo.


Adolfo Pérez Esquivel, Prêmio Nobel para a Paz.

Nota
1 O cardeal da Bolívia tem sua sede em Santa Cruz , um departamento muito rico situado na parte leste do país, onde os grandes proprietários de terras organizaram há pouco um referendum local pela autonomia. O cardeal tomou publicamente posição em favor desta autonomia e afirmou, contra toda evidência, que não existe escravidão na região. Mais uma vez a Igreja oficial se enfileirou do lado dos ricos e dos poderosos, enquanto deveria, na luz do Evangelho, assumir a defesa dos pobres e dos indígenas.
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