14/07/2008

Anos 60: incendiários e bombeiros

Os 40 anos de 1968 foram a oportunidade para que se estendesse a lista dos arrependimentos, reiniciada por Cohn-Bendit, que pediu desculpas por tudo o que tinha feito. Por aqui também alastrou-se o consenso de que a resistência armada à ditadura militar teria sido um grave erro. Parece que a legião de bombeiros vai superando amplamente a dos incendiários. Os anos de resistência clandestina costumam ser invocados como experiências individuais palpitantes – objetos de autobiografias de sucesso, filmes, mini-séries -, mas poucas vezes como experiência política que merece ser analisada politicamente.

Derrotada a via institucional da esquerda pelo golpe de 1964, foram fechados todos os caminhos de luta legal, ocupados pela grotesca e inócua tentativa de frente opositora entre Lacerda, Jânio, Adhemar, JK. A resistência tinha que ser clandestina, tanto para a propaganda da luta, como para ações que desafiassem a tentativa dos golpistas de impor rapidamente a ordem ditatorial sobre o país.

Mas enquanto o debate de balanço e de propostas para as novas condições políticas se desenvolviam, com seu ritmo próprio,, chegou por aqui o livro de Debray “Revolução na revolução?”, com dois fortes apelos. O primeiro, a vitória da revolução cubana que, como todo processo revolucionário vitorioso, projeta-se com um poder persuasivo difícil de ser questionado. A esse se acrescentava o estilo demolidor e um aparente domínio sobre o tema da parte de Debray – que na realidade não dava conta nem sequer do que realmente tinha sido a estratégia vitoriosa dos revolucionários cubanos.

O resultado foi um desfecho precoce dos debates na esquerda a e imposição da estratégia dos focos guerrilheiros, protagonizados centralmente pela ALN e pela VPR. Foi uma determinada estratégia de resistência armada – a chamada “foquista” – que precipitou os enfrentamentos militares, reforçada por ações espetaculares – os seqüestros de embaixadores para troca por presos políticos e os desvios de rotas de aviões – bem sucedidas.

Se deveria fazer autocrítica da adoção dessa modalidade de estratégia militar, mas não englobar nela toda forma de resistência clandestina e militar. O maior desafio era o de conseguir reorganizar núcleos dentro do movimento de massas, combinando com ações de vanguarda, que deveriam incluir ações armadas, para marcar presença da oposição, antes que a ditadura conseguisse consolidar seu poder.

Um balanço político crítico seria positivo, para o resgate do que houve de positivo e a rejeição dos evidentes erros cometidos. Mas os arrependimentos costumam ter um ato de rejeição do momento mais generoso da militância de muita gente, feito para demonstrar que não são mais perigosos, que foi um pecadinho de juventude, com aquela velha história de ser incendiário aos 20 e passar a bombeiro a partir dos 40.

Postado por Emir Sader às 15:01

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