O MENINO

Por Wesley Vieira

Minha imaginação viaja pela pobreza dos homens.
Cores opacas, como um fim de tarde chuvoso, ocupam o espaço de qualquer alegria.
À
princípio, estava eu entre dois infinitos, íntimo de uma terra morta e céu cinza, era isso o que eu avistava e sentia.
Minhas lágrimas secavam no rosto logo que se libertavam, o calor do questionamento penetrava em meu corpo. Lentamente, outros objetos surgiam.
Daquela
terra estéril, feita da poeira da ação humana, brotava vestígios de vida. Podem ser vistos pratos quebrados, copos trincados, cachimbos, enfeites, roupas rasgadas, livros enterrados, jóias, óculos, documentos cobertos de terra. Vestígios que faziam sombra à alguma civilização, espalhados por aquela terra, sob um céu que castiga com sua cor.
Ouço
apenas uma brisa. Acompanhando essa brisa, notas ao acaso tocam a melodia do atraso.
Percebo
um menino na cena, não sei qual caminho fez, nem quando exatamente chegou, ele vestia trapos, estava sujo de terra, com olhos expressivos petrifica minha emoção, não sei porque choro, seu olhar é intenso como os dois infinitos que questionam.
Pessoas começam a chegar, eu as observo sentindo o olho do menino ainda em mim. Vejo outras pessoas com trapos, também cobertas de terra morta, são pessoas mais velhas. Seus olhos, diferentemente dos do menino, se confundiam com a terra ou os trapos. Seres vazios que perambulavam sem rumo no meio do infinito. Na medida que caminhavam, pisavam nos vestígios de alguma vida e abaixavam-se, sem reação, para pegar o objeto e usá-lo. A neutralidade forma o gesto e a mulher pega um pano rasgado que caminha no seu rosto, o velho pegava um cachimbo, enquanto o rapaz sentava-se no cadáver para ler um livro de páginas sujas e uma senhora agachava-se para pegar um óculos torto e sem lentes. Depois de alguns segundos largavam, num revezamento contínuo sem propósito algum, trocavam de objeto sem expressar emoções, apenas a escassez de qualquer sentimento.
O
menino continuava como uma estátua de olho vivo, olhar pleno, que me intimidava. Ficamos os dois, eu com minhas sensações e o menino com sua única riqueza, presos por uma linha invisível, com as pessoas sujas de terra que passavam sem nos perceber.
Eu me vejo no olho do menino e tudo o que está em volta começa a sumir formando um espaço de única cor, uma cor sem brilho e tudo o que vejo são os olhos do menino que procuravam respostas.
Minha imaginação viajou pela pobreza dos homens. O espectador que tiver visto um lugar semelhante a esse, consegue me dar alguma resposta que eu não dei ao menino?

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