A VELHA – por Wesley Vieira

Domingo, 17 de Junho de 2007

O céu é vermelho intenso. Não voam mais as aves. As árvores mortas com seus galhos sem vida se emaranhando umas nas outras formam um desespero escultural. Flores não existem. Não existem mais os parques. Existem muitas fogueiras, altas como prédios que falam com os homens dando ordens a eles. Muitos velhos, não de idade, não de espiríto, mas uma legião de homens de peles enrugadas ao extremo, sabedoria em camadas anormais e crianças com rugas que não contam história nenhuma. O pior são os olhos, não enxergamos direito, não temos espelhos pois não conseguimos usá-los. Vemos manchas, borrões de um artista louco e enfurecido e estamos condenados nesse quadro.
Não temos rios e o que resta dos mares está envenenado, peixes e outros animais preenchem mortos um novo lago. Nem lágrimas nós temos e a vontade de chorar é muita. A água é um liquído precioso e privilégio entre os homens. Plantas morrem em escala, as sementes são mais que nunca sinal de alguma esperança, estamos com muita fome. Campos destruídos, cidades destruídas. Os prédios como conhecíamos foram corroídos por grandes nuvens, que vinham como deuses berrando chuvas que com sua acidez derrubou os gigantes edificados, santos do homem, construindo ruínas em estilo macabro, lembrando o inferno, um inferno provocado pelo descaso desse homem. Sol é a palavra mais temida e banal é como a palavra pobrezadécadas atrás, algo doloroso e normal
Nesse
ambiente de intensa destruição corre a velha com um maço de folhas na mão, lê-se “Protocolo de Montreal”, uma das muitas utopias de nossos antepassados que visava uma barreira desse cenário, mas essa utopia também não foi realizada. A velha está coberta com uma capa, seus olhos estão brancos pela catarata e suas mãos e rosto são de uma velhice não merecida, que traça ruas de prepotência e egoísmo com suas rugas.
Um refletor que nada ilumina foca o desespero da velha e simboliza a ruína de nossa beleza e a escuridão desse novo mundo. O refletor é a reflexão. É um buraco negro no meio daquele céu banhado em sangue, que marca o início de um final assustador da vida humana.
Tem
medo? Eu também. É extremo como todos os pesadelos. Foi assim que fiz esse quadro, minhas tintas e pincéis estão agora cansados e o quadro registra essa minha agonia. Tanto a agonia quanto a velha estão no quadro como um grito parado no ar, um grito abafado, sem som, mas intenso, que pode arrepiar a alma da pessoa mais fria dessa terra.

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