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Arquivo da categoria ‘OPINIÃO E ATITUDE’

Publicado por culturareligare em Julho 16, 2008

14/07/2008

Anos 60: incendiários e bombeiros

Os 40 anos de 1968 foram a oportunidade para que se estendesse a lista dos arrependimentos, reiniciada por Cohn-Bendit, que pediu desculpas por tudo o que tinha feito. Por aqui também alastrou-se o consenso de que a resistência armada à ditadura militar teria sido um grave erro. Parece que a legião de bombeiros vai superando amplamente a dos incendiários. Os anos de resistência clandestina costumam ser invocados como experiências individuais palpitantes – objetos de autobiografias de sucesso, filmes, mini-séries -, mas poucas vezes como experiência política que merece ser analisada politicamente.

Derrotada a via institucional da esquerda pelo golpe de 1964, foram fechados todos os caminhos de luta legal, ocupados pela grotesca e inócua tentativa de frente opositora entre Lacerda, Jânio, Adhemar, JK. A resistência tinha que ser clandestina, tanto para a propaganda da luta, como para ações que desafiassem a tentativa dos golpistas de impor rapidamente a ordem ditatorial sobre o país.

Mas enquanto o debate de balanço e de propostas para as novas condições políticas se desenvolviam, com seu ritmo próprio,, chegou por aqui o livro de Debray “Revolução na revolução?”, com dois fortes apelos. O primeiro, a vitória da revolução cubana que, como todo processo revolucionário vitorioso, projeta-se com um poder persuasivo difícil de ser questionado. A esse se acrescentava o estilo demolidor e um aparente domínio sobre o tema da parte de Debray – que na realidade não dava conta nem sequer do que realmente tinha sido a estratégia vitoriosa dos revolucionários cubanos.

O resultado foi um desfecho precoce dos debates na esquerda a e imposição da estratégia dos focos guerrilheiros, protagonizados centralmente pela ALN e pela VPR. Foi uma determinada estratégia de resistência armada – a chamada “foquista” – que precipitou os enfrentamentos militares, reforçada por ações espetaculares – os seqüestros de embaixadores para troca por presos políticos e os desvios de rotas de aviões – bem sucedidas.

Se deveria fazer autocrítica da adoção dessa modalidade de estratégia militar, mas não englobar nela toda forma de resistência clandestina e militar. O maior desafio era o de conseguir reorganizar núcleos dentro do movimento de massas, combinando com ações de vanguarda, que deveriam incluir ações armadas, para marcar presença da oposição, antes que a ditadura conseguisse consolidar seu poder.

Um balanço político crítico seria positivo, para o resgate do que houve de positivo e a rejeição dos evidentes erros cometidos. Mas os arrependimentos costumam ter um ato de rejeição do momento mais generoso da militância de muita gente, feito para demonstrar que não são mais perigosos, que foi um pecadinho de juventude, com aquela velha história de ser incendiário aos 20 e passar a bombeiro a partir dos 40.

Postado por Emir Sader às 15:01

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EDUARDO GALEANO

Publicado por culturareligare em Julho 12, 2008

CIDADÃO DO MERCOSUL

Eduardo Galeano, as palavras e a alma da América Latina

No dia 3 de julho, os países do Mercosul concederam a Eduardo Galeano o título de primeiro Cidadão Ilustre da região. Estas foram suas palavras de agradecimento.

Redação – Carta Maior

Colar de histórias

Nossa região é o reino dos paradoxos.

Tomemos o caso do Brasil, por exemplo:

paradoxalmente, Aleijadinho, o homem mais feio do Brasil, criou as mais altas belezas da arte da época colonial;

paradoxalmente, Garrincha, arruinado desde a infância pela miséria e a poliomielite, nascido para a desgraça, foi o jogador que mais alegria ofereceu em toda a história do futebol;

e, paradoxalmente, Oscar Niemeyer, que já completou cem anos de idade, é o mais novo dos arquitetos e o mais jovem dos brasileiros.

***

Ou, por exemplo, a Bolívia: em 1978, cinco mulheres derrubaram uma ditadura militar. Paradoxalmente, toda a Bolívia zombou delas quando iniciaram sua greve de fome. Paradoxalmente, toda a Bolívia terminou jejuando com elas, até que a ditadura caiu.

Eu conheci uma dessas cinco obstinadas, Domitila Barrios, no povoado mineiro de Llallagua. Em uma assembléia de operários das minas, todos homens, ela levantou e fez todos calarem a boca.

Quero dizer só uma coisinha —disse—. Nosso inimigo principal não é o imperialismo, nem a burguesia, nem a burocracia. Nosso inimigo principal é o medo, e nós carregamos ele dentro.

E, anos depois, reencontrei Domitila em Estocolmo. Havia sido expulsa da Bolívia e ela tinha marchado para o exílio, com seus sete filhos. Domitila estava muito agradecida pela solidariedade dos suecos, e admirava a liberdade deles; mas tinha pena deles, tão sozinhos que estavam, bebendo sozinhos, comendo sozinhos, falando sozinhos. E dava-lhes conselhos:

Não sejam bobos –dizia-. Fiquem juntos. Nós, lá na Bolívia, ficamos juntos. Mesmo que seja para brigar, ficamos juntos.

***

E como tinha razão.

Porque, digo eu: existem os dentes, se não ficarem juntos na boca? Existem os dedos, se não ficarem juntos na mão?

Estarmos juntos: e não só para defender o preço dos nossos produtos, mas também, e sobretudo, para defender o valor dos nossos direitos. Bem juntos estão, mesmo que de vez em quando simulem brigas e disputas, os poucos países ricos que exercem a arrogância sobre todos os outros. Sua riqueza come pobreza, e sua arrogância come medo. Bem pouquinho tempo atrás, por exemplo, a Europa aprovou a lei que transforma os imigrantes em criminosos. Paradoxo de paradoxos: a Europa, que durante séculos invadiu o mundo, fecha a porta no nariz dos invadidos, quando eles querem retribuir a visita. E essa lei foi promulgada com uma assombrosa impunidade, que seria inexplicável se não estivéssemos acostumados a sermos comidos e a viver com medo.

Medo de viver, medo de dizer, medo de ser. Esta nossa região faz parte de uma América Latina organizada para o divórcio de suas partes, para o ódio mútuo e a mútua ignorância. Mas somente estando juntos seremos capazes de descobrir o que podemos ser, contra uma tradição que nos amestrou para o medo e a resignação e a solidão e que cada dia nos ensina a não gostar de nós mesmos, a cuspir no espelho, a copiar em vez de criar.

***

Ao longo da primeira metade do século dezenove, um venezuelano chamado Simón Rodríguez caminhou pelos caminhos da nossa América, no lombo de uma mula, desafiando os novos donos do poder:

Vocês —clamava o sr. Simón-, vocês que tanto imitam os europeus, por que não imitam o mais importante, que é a originalidade?

Paradoxalmente, não era ouvido por ninguém este homem que tanto merecia ser ouvido. Paradoxalmente, chamavam-no louco, porque cometia a sensatez de acreditar que devemos pensar com nossa própria cabeça; porque cometia a sensatez de propor uma educação para todos e uma América de todos, e dizia que a quem não sabe, qualquer um engana e a quem não tem, qualquer um compra, e porque cometia a sensatez de duvidar da independência dos nossos países recém-nascidos:

Não somos donos de nós mesmos —dizia. Somos independentes, mas não somos livres.

***

Quinze anos depois da morte do louco Rodríguez, o Paraguai foi exterminado. O único país hispano-americano verdadeiramente livre foi, paradoxalmente, assassinado em nome da liberdade. O Paraguai não estava preso na jaula da dívida externa, porque não devia nem um centavo para ninguém, e não praticava a mentirosa liberdade de comércio, que nos impunha e nos impõe uma economia de importação e uma cultura de impostação.

Paradoxalmente, depois de cinco anos de guerra feroz, entre tanta morte sobreviveu a origem. Segundo a mais antiga de suas tradições, os paraguaios nasceram da língua que os nomeou, e entre as ruínas fumegantes sobreviveu essa língua sagrada, a língua primeira, a língua guarani. E em guarani falam ainda hoje os paraguaios na hora da verdade, que é a hora do amor e do humor.

Em guarani, ñe´é significa palavra e também significa alma. Quem mente a palavra, trai a alma.

Se dou minha palavra, estou me dando.

***

Um século depois da guerra do Paraguai, um presidente do Chile deu sua palavra, e deu-se.

Os aviões cuspiam bombas sobre o palácio de governo, também metralhado pelas tropas de terra. Ele havia dito:

Daqui eu não saio vivo.

Na história latino-americana, é uma frase freqüente. Foi pronunciada por vários presidentes que depois saíram vivos, para continuar pronunciando-a. Mas essa bala não mentiu. A bala de Salvador Allende não mentiu.

Paradoxalmente, uma das principais avenidas de Santiago do Chile chama-se, ainda, Onze de Setembro. E não se chama assim pelas vítimas das Torres Gêmeas de Nova York. Não. Chama-se assim em homenagem aos verdugos da democracia no Chile. Com todo o respeito por esse país que amo, atrevo-me a perguntar, por simples senso comum: não seria hora de mudar-lhe o nome? Não seria hora de chamá-la Avenida Salvador Allende, em homenagem à dignidade da democracia e à dignidade da palavra?

***

E atravessando a cordilheira, pergunto-me: por que será que o Che Guevara, o argentino mais famoso de todos os tempos, o mais universal dos latino-americanos, tem o costume de continuar nascendo?

Paradoxalmente, quanto mais é manipulado, quanto mais é traído, mais nasce. Ele é o mais nascedor de todos.

E pergunto-me: Não será porque ele dizia o que pensava e fazia o que dizia? Não será por isso que ele continua sendo tão extraordinário, neste mundo onde as palavras e os fatos muito rara vez se encontram, e quando se encontram não se cumprimentam, porque não se reconhecem?

***

Os mapas da alma não têm fronteiras e eu sou patriota de várias pátrias. Mas quero culminar este viagenzinha pelas terras da região evocando um homem nascido, como eu, aqui pertinho.

Paradoxalmente, ele morreu há um século e meio, mas continua sendo meu compatriota mais perigoso. É tão perigoso que a ditadura militar do Uruguai não conseguiu encontrar nem uma única frase sua que não fosse subversiva e teve que decorar com datas e nomes de batalhas o mausoléu que erigiu para ofender sua memória.

A ele, que se recusou a aceitar que nossa pátria grande se quebrasse em pedaços; a ele, que se recusou a aceitar que a independência da América fosse uma emboscada contra seus filhos mais pobres, a ele, que foi o verdadeiro primeiro cidadão ilustre da região, dedico este título, que recebo em seu nome.

E termino com palavras que escrevi para ele algum tempo atrás:

1820, Paso del Boquerón. Sem virar a cabeça, você afunda no exílio. Estou vendo, estou vendo você: desliza o Paraná com preguiça de lagarto e ao longe se afasta flamejando seu poncho esfarrapado, ao trote do cavalo, e se perde na mata. Você não diz adeus à sua terra. Ela não iria acreditar. Ou talvez você não sabe, ainda, que está indo para sempre.

Acinzenta-se a paisagem. Você está indo, vencido, e sua terra fica sem alento. Irão devolver-lhe a respiração os filhos que nasçam dela, os amantes que a ela chegarem? Aqueles que dessa terra brotem, aqueles que nela entrem, far-se-ão dignos de tristeza tão funda?

Sua terra. Nossa terra do sul. Você será muito necessário para esta terra, Dom José. Cada vez que os cobiçosos a firam e humilhem, cada vez que os tolos acreditem que está muda ou estéril, você fará falta. Porque você, Dom José Artigas, general dos simples, é a melhor palavra que ela já disse.

Tradução: Naila Freitas / Verso tradutores

http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=15091

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Vamos encarar a politização?

Publicado por culturareligare em Janeiro 11, 2008

MATERIA EXTRAIDA DO JORNAL O SARRAFO EM NOVEMBRO DE 2005

INÁ CAMARGO COSTA

“O preço da liberdade é a eterna vigilância”. Com esta frase lapidar, os liberais brasileiros forjaram no século passado um ótimo álibi para apoiar a ditadura militar de 1964 a 1980. A jogada foi extremamente eficiente pois, além de assegurar com a força das armas a sua liberdade à custa da liberdade dos que pensavam diferente, essa gente conseguiu adestrar o conjunto da sociedade para viver segundo as suas deliberações sem risco de questionamentos radicais. Esquematizando a operação, digamos que primeiro eliminaram os divergentes, depois forçaram e cultivaram a mais radical despolitização e, finalmente, obtiveram o mais duradouro resultado: uma geração inteira despolitizada, que não tem a menor noção do que está em jogo na vida política (nem se interessa por ela) e, por isso mesmo, acredita piamente que política é votar em eleições ou que decisões como as tomadas pelo Ministro da Fazenda de plantão ou pelo Banco Central não são políticas. Para completar o quadro, desde a queda do muro de Berlim, seguida pelo fim do lado oriental da “cortina de ferro”, a maioria dos partidos ditos de esquerda jogou fora as suas bandeiras e lançou-se alegremente nas fileiras dos adoradores do Deus Mercado, abraçando a nova religião universal.

Como demonstrou um dos mais profundos estudiosos das entranhas desse deus, cujo nome verdadeiro é modo de produção capitalista, seu móvel é a taxa de lucro e sua única finalidade é a valorização do capital. Como periodicamente aquela taxa cai, esta queda retarda a formação de novos capitais autônomos, promovendo, inevitavelmente, superprodução, especulação, crises, capital supérfluo e, para  o que nos interessa diretamente, POPULAÇÃO SUPÉRFLUA. Na condição de parte da população supérflua, inúmeros grupos de teatro vêm se organizando em todo o Brasil desde os anos 90 do século passado. E como os demais supérfluos, sobrevivem, em total liberdade (sobretudo a de passar fome), à margem da esfera pública

– está inteiramente privatizada e entregue a todos os exploradores da nova religião: igrejas propriamente ditas, jornais, rádio, televisão, cinema e demais espaços, ditos convencionais, de circulação de espetáculos-mercadoria, popularmente conhecidos como teatros.

Parodiando a frase dos nossos antigos liberais, não é excessivo dizer que o preço da nossa liberdade é a completa irrelevância. Como somos supérfluos do ponto de vista econômico, não constituímos ameaça real aos negócios do ramo do espetáculo e, como estamos à margem da esfera pública privatizada, o Estado também não precisa se preocupar conosco. Isto posto, e considerando que entretanto continuar fazendo o que fazemos é para nós questão de vida ou morte, como reverter este quadro?

A chave da porta é evidentemente a política, entendida não mais como fatalística submissão às regras do jogo e sim como amplo processo de questionamento não do próprio jogo e suas regras, mas sobretudo da sociedade que os forjou e para a qual aparece como fatalidade a existência de uma população supérflua. No caso dos que fazemos teatro, esta idéia obriga a enfrentar uma ampla pauta de estudos, mas uma parte importante da nossa experiência e da história de nossos antecessores pode servir de horizonte para a nossa luta pelo direito à existência.

Nossa experiência de grupo ensinou a necessidade de combater os valores subjetivos que asseguram a existência da sociedade que fez de nós seres supérfluos. É

o caso, por exemplo, do individualismo, da irresponsabilidade, do descompromisso com o coletivo, ou falta de solidariedade e do autoritarismo. Estes valores, to-dos a serviço da concorrência que é parte do funcionamento da sociedade capitalista, são uma permanente ameaça à sobrevivência de um grupo teatral. A eles, o trabalho coletivo opõe entre outros altruísmos, generosidade, responsabilidade, solidariedade e relações democráticas. Mas se a duras penas temos conseguido cultivá-los entre nós e em meio ao público que nos acompanha e apóia, sem conquistar a esfera pública propriamente dita, o senti-do profundo das nossas experiências, que é político, corre o risco de se perder. Para dar o passo que falta, a história das lutas sociais do século vinte, envolvendo também artistas de teatro, apresenta alguns episódios capazes de no mínimo mobilizar a nossa imaginação.

O primeiro ilustra o modo como oshow business está sempre de olho em talentos individuais onde quer que estes se manifestem. Contam os livros de história do anarco-sindicalismo americano que uma jovem adolescente participava de um ato público em Nova Iorque e chamou a atenção de um produtor da Broadway. Seu desempenho oratório era tão brilhante que, ao final, ele tratou de convidá-la para integrar o elenco de sua próxima produção. A militante da IWW (Industrial Workers of the World), organização que ainda existe, recusou a proposta e um salário milionário, respondendo sem pestanejar: “Eu falo o meu próprio textoou, em inglês, I speak my own lines. Não se deve esperar de um ator a mesma capacidade de resistência ao canto de sereia do mercado sintetizada no gesto daquela militante anarquista, mas um ator com experiência em teatro de grupo, inspirado nele, pode negociar melhor os termos em que venderá sua força de trabalho se não se esquecer de que provém de um coletivo a parte decisiva de seu talento.

Outro caso, que delineia um horizonte muito próximo do nosso, verificou-se em fins do século XIX e começo do XX. Quem conhece a história do Teatro Livre sabe que sua marca registrada foi a arregimentação de trabalhadores que gostavam de teatro a ponto de também querer fazê-lo, a começar por André Antoine, um empregado da companhia de gás parisiense. Mas estes trabalhadores queriam encenar textos que tratava de assuntos censurados ou sem interesse para o mercado teatral. A versão alemã desta experiência em pouco tempo viu-se diante do desafio de politizar-se porque seus espetáculos atropelavam os critérios da censura, que reagiu com violência, e os trabalhadores organizados em partidos e sindicatos apoiaram a sua luta. O resultado desta aproximação entre teatro e trabalhadores organizados é a Volksbühne, que até hoje resiste e produz espetáculos que dão o que pensar, como vimos recentemente em São Paulo e outras capitais brasileiras.
Um dos cartazes do espetáculo Isto não pode acontecer aqui, que estreou no mesmo dia em 18 cidades

Um terceiro caso, um pouco mais complexo, deu-se nos Estados Unidos durante o governo Roosevelt. Como a crise de 1929 produziu uma verdadeira legião de artistas supérfluos, foi criado um programa federal de apoio às artes que os empregou aos milhares. Chamada Federal Theatre, a parte que nos interessa deste programa promoveu a mais ampla experiência teatral da história daquele país. Para ficar em apenas um exemplo:

o espetáculo Isto não pode acontecer aqui (It can’t happen here) estreou no mesmo dia em 18 cidades, em 22 produções diferentes, quatro das quais em Nova Iorque e duas em Los Angeles. Isto aconteceu no dia 27 de outubro de 1936. Duas semanas depois estreou uma 23ª produção e nove delas ainda circularam pelo país uma vez encerrada a temporada de estréia. Ao final do processo, o espetáculo tinha sido visto por cerca de 500 mil pessoas. Este episódio único se explica pelo alto grau de politização dos envolvidos no processo.

Por muito suspeito que possa soar, não dá para resistir à tentação de dizer que o teatro tende a inspirar políticas democráticas radicais e que a mobilização política inspira práticas teatrais muito mais democráticas do que se pode imaginar. O caminho é a luta                                                                                                                          

 

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Frank Castorf

Publicado por culturareligare em Janeiro 11, 2008

Frank Castorf é um dos mais importantes encenadores da atualidade. Oriundo da Alemanha Oriental, foi por cinco vezes eleito diretor do ano pelos críticos teatrais da Alemanha . Sua sede de trabalho é o lendário Volksbühne (o Teatro do Povo), construído em 1914 por associações operárias e que continua a ser um dos espaços mais influentes do teatro europeu.

 

O SARRAFOO que você parece estar fazendo é traduzir Brecht para a Alemanha atual, aplicando seu método a uma forma de encenação quepara instaurar um novo distanciamentochega ao ponto de romper com as técnicas tradicionais de fabulação. Para se aproximar de Brecht o senhor chega a romper com o “classicismoépico.

CASTORF – A base, no entanto,é a mesma. A hipótese com que eu trabalho é que a influência mais importante de Brecht para o teatro alemão atual pode ser percebida naqueles que definem o homem a partir de uma relação materialista. está o ponto importante. As pessoas não existem através do seu espírito:
o
que as define como indivíduo é a situação e condições na qual se movem e o que elas fazem. É nessa perspectiva que eu e outros na Alemanha procuramos fazer teatro.

veja a matéria na íntegra em http://www.jornalsarrafo.com.br/sarrafo/materias08.htm

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SANTA MARIA DE IQUIQUE

Publicado por culturareligare em Janeiro 6, 2008

http://www.youtube.com/watch?v=9yVQ3a08y-s&feature=related

COPIE E COLE

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Santa Maria de Iquique, há cem anos

Publicado por culturareligare em Janeiro 6, 2008

De: Ivy Judensnaider

Escuela Santa Maria de Iquique
1907 – 2007

arScientia, La Insignia

Señoras y señores,
venimos a contar,
aquello que la historia
no quiere recordar.
Paso en el Norte Grande,
fue Iquique la ciudad,
mil novecientos siete
marcó fatalidad.
Allí al pampino pobre
mataron por matar

Cantata de Santa Maria de Iquique
Luis Advis

Há cem anos

Há cem anos, uma revolta promovida pelos trabalhadores de minas de salitre por melhores condições de trabalho, em Santa Maria de Iquique (Chile, região desértica de Atacama), acabou em massacre. Em Iquique, o ambiente era insalubre: os mineiros trabalhavam de oito a dez horas por dia; no verão, enfrentavam temperaturas elevadas e, no inverno, extremamente baixas; a água não era potável, e o esforço para carregar o salitre era subumano. Os trabalhadores, dependendo da mina, estavam submetidos ao pó asfixiante, aos perigos dos explosivos usados para explorar as minas e às tragédias por mau funcionamento do maquinário utilizado na extração e refino do salitre. Eram comuns os castigos físicos e os mineiros também estavam sujeitos aos gases venenosos, em locais que careciam de luz, água e ventilação apropriada. Sem qualquer proteção social, sequer recebiam salário: ao invés de dinheiro, mesmo que a título de injusta remuneração pelo esforço de extrair o oro blanco da terra, recebiam vales, fichas cambiáveis apenas nos locais autorizados pelos proprietários das minas, embora a lei proibisse particulares de emitir moeda ou algo semelhante.

No mundo todo, o crescimento do proletariado trazia à tona o debate sobre as condições de vida e de trabalho, bem como discussões a respeito da utilização da greve como instrumento de luta e defesa dos interesses dos operários. Não apenas na extração de salitre, que empregava cerca de 35 mil trabalhadores em 1907 (no total, 110 mil trabalhadores em todo o setor salitreiro, sendo destes 66 mil chilenos e 12 mil bolivianos), em todas as áreas da economia chilena eram os operários mal tratados e mal remunerados, e as greves eram freqüentes.

Segundo o historiador Sergio Grez Tozo, o movimento chileno transitava de um modelo primitivo, com combates pré-políticos e formas de organização rudimentares, para outro modelo mais moderno, em que se mantinham elementos dos antigos fundos de ajuda mútua, ao mesmo tempo em que novos elementos do movimento proletário mundial eram absorvidos (elementos esses que estariam finalmente cristalizados na Revolução Mexicana de 1910, e na Russa, de 1917). A linha difusa entre greves com reivindicações claras e greves com um contorno menos nítido seria comum durante o final do século XIX e o início do XX: geralmente, as variáveis que definiam o perfil das greves estavam relacionadas ao tipo de atividade econômica de onde nasciam os movimentos, grau de sedentarização e proletarização da mão-de-obra, e às conexões com esferas mais politizadas e organizadas do movimento operário internacional. No caso de Iquique, alguns elementos apontam para a participação de operários anarquistas no fomento, organização e condução da greve, como evidencia a liderança do norte-americano José Briggs e de Luis Olea Castillo, considerados próximos ao movimento anarquista (Briggs, depois, ao perceber os rumos que a greve de Iquique tomava e já adivinhando o seu trágico final, proporia aos Estados Unidos que concedessem asilo político aos principais partícipes do movimento).

A pauta de reivindicações dos mineiros de Santa Maria de Iquique revela que o núcleo dos protestos estava localizado nas questões específicas da atividade mineradora: a greve tinha como objetivo obter melhorias como aceitação geral dos vales usados como pagamento ou a substituição dos vales por dinheiro, a construção de escolas noturnas, condições menos insalubres nas salitreiras, e liberdade de movimento para os trabalhadores (eles, sequer, podiam sair das Oficinas ou receber visitas externas sem a aprovação e o consentimento dos administradores). A Intendência das minas aguardou a chegada da força militar, enquanto negociava com os grevistas, simulando interesse. Depois de buscar abrigo na Escola de Santa Maria, os trabalhadores foram atacados pelas milícias…

A economia salitreira

Si contemplan la pampa y sus rincones
verán las sequedades del silencio
el suelo sin milagro y oficinas
vacías, como el último desierto.
Y si observan la pampa y la imaginan
en tiempos de la industria del salitre
verán a la mujer y al fogón mustio
al obrero sin cara, al niño triste

Cantata de Santa Maria de Iquique
Luis Advis

Para as autoridades chilenas, a questão trabalhista nas minas era um problema britânico, já que os ingleses eram os donos das minas desde a vitória chilena contra a Bolívia e o Peru na Guerra do Pacifico (1879 – 1883): àquela época, as terras ricas em nitratos (de Tarapacá até Antofogasta) haviam sido facilmente compradas pelos britânicos por causa da baixa dos títulos e das ações durante o conflito militar.

As terras salitreiras forneciam o salitre, o oro blanco formado pelo processo de evaporação de águas subterrâneas filtradas pela Cordilheira dos Andes. O salitre, origem inclusive da disputa entre Chile, Bolívia e Peru, tinha a sua procura historicamente ligada aos interesses da fabricação de pólvora e manipulação de metais preciosos para o fabrico de moedas desde o século XVIII. Também era utilizado para a agricultura, pois apresentava propriedades fertilizantes. Já era mencionado pelos viajantes naturalistas que visitavam e mapeavam os países da América Latina, inclusive o Brasil, e que recebiam instruções de buscá-lo e identificar suas fontes; Charles Darwin, em visita a Iquique em 1835, também descreveria essas terras. O trabalho cuidadoso e detalhado da historiadora da ciência Márcia Helena Mendes Ferraz, quando do estudo sobre a produção de salitre no Brasil colonial, menciona as “cinzas e terras nitrogenadas”, lugares onde se poderia encontrar o salitre. Não apenas aquele depositado naturalmente, mas também o possível de ser extraído em tanques artificiais que, “tratados de forma adequada, depois de um certo tempo dariam o precioso sal”.

A economia chilena, ao final do século XIX e início do XX, era de natureza monoextrativista e latifundiária, exportando salitre e importando manufaturados; caracterizava-se, portanto, por uma alta vulnerabilidade às oscilações de preço do nitrato no mercado internacional. O negócio envolvia a busca de terrenos, a extração do caliche e a elaboração do salitre nas Oficinas. O oro blanco vindo das minas passou a ser a principal atividade econômica do Chile, após o abandono paulatino da monocultura agrícola: ao tempo das idéias de Adam Smith, buscava-se espaço no mercado internacional através da exportação de mercadorias em cuja produção havia vantagens competitivas. Assim, em 1890, 52% das rendas obtidas em exportação vinham do comércio do salitre, e quase 60% da exploração salitreira estava nas mãos de estrangeiros, especialmente ingleses. A figura do inglês Thomas North, dono da companhia distribuidora de água potável, de quinze oficinas salitreiras, quatro ferrovias, proprietário do Banco de Tarapacá e Londres e da companhia distribuidora de alimentos, é emblemática e simbólica do predomínio inglês nos negócios chilenos. O Império Britânico expandia-se; concomitantemente, os países recém-saídos da condição de colônia ocupavam-se com a busca de suas identidades como Estados-nação. Assim, se a atuação da sociedade chilena originava-se dos elos construídos entre a comunidade inglesa e a burguesia nacional, do ponto de vista político-econômico a fricção se dava nos movimentos do capital privado – nacional e internacional – e o setor público. A oligarquia nacional oscilava entre defender os interesses do capital britânico ou se opor às ameaças do oligopólio estrangeiro naquilo que era a principal fonte de riqueza da nação, e a guerra civil de 1891, embora não diretamente relacionada à questão das propriedades das minas de salitre, evidenciou os conflitos existentes no seio da burguesia chilena. Eram estes os conflitos que deixavam transparecer as lutas por uma maior representatividade no governo – espaço da prática política –, e as discordâncias sobre a nacionalização das riquezas em posse dos estrangeiros. De qualquer forma, tanto a elite oriunda do capital nacional quanto a elite com origem no capital estrangeiro apoiavam-se na força repressora do Estado para garantir a continuidade dos negócios e do lucro que o salitre trazia, fazendo inclusive uso de forças policiais para garantir a ordem em dias de pagamento dos salários dos operários salitreiros. Em 1907, a participação do salitre chegaria a 44% das rendas chilenas com exportação, rendas essas advindas dos impostos aduaneiros, já que todo o negócio de exploração, produção e transporte do salitre estavam em mãos estrangeiras.

À revolta de Iquique, a milícia respondeu com violência e algumas estatísticas apontam perto de três mil mortos. Há cem anos, em 21 de dezembro de 1907, os trabalhadores de Santa Maria de Iquique foram assassinados e a greve encerrada.

O legado de Iquique

Ustedes que ya escucharon la historia que se contó,
no sigan allí sentadospensando que ya pasó.
No basta solo el recuerdo, el canto no bastará.
No basta sólo el lamento, miremos la realidad.

Cantata de Santa Maria de Iquique
Luis Advis

O salitre continuou como sustentáculo da economia chilena até 1929: no mínimo, representaria 45% das rendas com exportação até 1923. De 1924 a 1929 perderia participação na pauta de exportações do Chile, decrescendo continuamente, e alcançando não mais que 23% em 1929. A partir desta data, a economia chilena daria impulso a três processos: o primeiro, em decorrência das dificuldades originadas pela Quebra da Bolsa americana, de transição do modelo monoexportador para o modelo de substituição de importações, buscando implantar no país uma indústria que pudesse suprir as necessidades de bens industriais e manufaturados; segundo, o de substituição do salitre pelo cobre, especialmente em função da queda internacional dos preços do nitrato ocasionada pela concorrência da produção, na Alemanha, do amoníaco sintético, similar ao salitre (substituição essa levada a cabo com eficiência já que, durante o período da II Guerra Mundial, o cobre chileno responderia por 18% de todo o metal consumido no conflito); finalmente, o terceiro, de mudança no perfil dos investidores externos com significativa participação nos negócios chilenos, trocando o predomínio inglês pelo americano, mudança essa finalizada com a II Guerra Mundial e a posterior política internacional hegemônica dos Estados Unidos em todos os cantos do mundo.

A questão da nacionalização das minas (de cobre, já que as de salitre nada mais valiam) perpassaria a história do Chile nos mais diversos momentos ao longo do século XX: a nacionalização, iniciada no governo de Eduardo Frei (1964 – 1970), estaria finalizada com Allende. O golpe de 1973, quando Pinochet toma o poder à força, reverteria o processo: não apenas o General retrocederia em relação à nacionalização das minas, como também entregaria o restante da economia aos americanos e ao capital internacional, seguindo à risca aquilo que, no futuro, o discurso midiático chamaria de processo de globalização. Antecipando-se em quase duas décadas, Pinochet instituiria o livre comércio e o processo de desregulamentação da economia sob os auspícios teóricos de Milton Friedman, enterrando o modelo de Estado desenvolvimentista e condutor do processo de industrialização a partir das substituições das importações. Como herança, além dos milhares de mortos e desaparecidos (e as mãos de Victor Jara barbaramente decepadas), deixaria o Chile com índices invejáveis de crescimento, uma economia monoexportadora de produtos primários e importadora de manufaturados, e totalmente vulnerável ao preço internacional do cobre. Dependente do capital externo, o Chile é hoje o país com uma das mais injustas distribuições de renda da América Latina (atualmente, o quarto pior índice de Gini, o mesmo que a Colômbia, e logo após o Brasil, Paraguai e Bolívia).

A revolta de Iquique e as mais de 200 greves que aconteceriam entre 1902 e 1908 (50% delas na zona salitreira) deixariam como legado os pavimentos para a construção do sindicalismo chileno. Quase sempre vinculado ao modelo econômico vigente e às condições da economia de cada época, este sindicalismo se desenvolveria a partir de três grandes vertentes, e já presentes na greve de 1907: o anarcosindicalismo, o assistencialismo e o sindicalismo propriamente dito. No governo Allende, em função das rachaduras e conflitos entre várias correntes da esquerda, inúmeros setores entrariam em greve (inclusive em uma mina de cobre nacionalizada, El Teniente). Com o golpe militar de 1973, a luta operária sofreria um grande revés com o desmanche dos sindicatos, e a prisão ou assassinato de seus líderes. Nos dias de hoje, (e como no restante do mundo, aliás) o movimento sindicalista busca discutir o modelo econômico mais adequado ao Chile, o papel do Estado dentro desse modelo e como provedor de benefícios sociais, e a defesa dos direitos dos trabalhadores.

Em 1970, Luis Advis compôs a Cantata de Santa Maria de Iquique, que logo se tornou um hino em prol dos movimentos operários durante as décadas de 70 e 80. A matança ainda inspirou obras literárias (e as de Hernan Rivera Letelier e Eduardo Devés são as mais conhecidas) que, mesclando o gênero literário e o estudo histórico, preencheram as lacunas que a ausência de fontes primárias e outras fontes documentais nos deixaram de herança. Quanto às velhas oficinas salitreiras abandonadas no desértico clima árido, elas hoje revelam apenas vestígios da riqueza que um dia o salitre trouxe ao Chile. Segundo o emocionado e poético texto do escritor, educador e investigador Juan Adrada, à paisagem dos pampas salitreiros somam-se as fantasmagóricas sombras do antigo clube da sociedade huberstoniana, com seus bilhares, cozinhas, salão de bailes e piscina. O portentoso teatro municipal é prova da pujança da região no começo do século XX, bem como as velhas máquinas, casas de operários, trilhos de trem. Símbolos de um passado glorioso e de lutas, as Oficinas Salitreiras de Humberstone e Santa Laura, da região de Tarapacá e Antofogasta, província de Iquique, empreenderam pedidos em 2003, junto à Unesco, para serem alçadas à condição de Patrimônio Mundial.

De Iquique, não restaram apenas músicas, obras literárias, ruínas. Sobrou também a construção equivocada do mito da Terra Mãe, de seios fartos e generosos, sempre disposta a fornecer riqueza e fortuna, apesar das evidências do desgaste de recursos que, todos sabemos, são parcos e finitos (e a escassez de água – no Chile e no restante do mundo – é prova disso). Mesmo os exemplos históricos de mudanças tecnológicas e científicas como as que produziram, por exemplo, o salitre sintético, mostraram-se insuficientes. Nos dias de hoje, as exportações chilenas (mais de 60%) ainda têm origem nas atividades de extração de minérios e outros recursos naturais.

Aparentemente, tampouco se aprendeu algo a respeito dos riscos de manter uma economia baseada, em grande parte, nos lucros advindos da exploração de um único produto: atualmente, o cobre representa 30% do total de exportações chilenas (o Chile é responsável por 40% das exportações mundiais do metal). Também passou ao largo o passado traiçoeiro, devorador e predatório do capital internacional. Modelo e exemplo da “globalização que pode dar certo”, a estrutura econômica chilena é resultado de ações aprovadas pela comunidade internacional e que até podem se traduzir em crescimento, mas que dificilmente geram desenvolvimento ou bem estar social.

De herança, Iquique deixou lembranças dos primórdios heróicos do movimento sindical chileno que, hoje, tenta se recuperar dos amargos anos da ditadura militar, procurando vias de resistência ao discurso conformista da adesão à globalização. Deixou também uma lição que não foi aprendida. Do oro blanco ao oro rojo. Ao que parece, en Chile no pasa nada (1). Ao menos, enquanto durarem as reservas de cobre…

(1) Nada acontece no Chile. Segundo Alfredo Sirkis em Roleta Chilena, era a expressão com a qual os jornalistas sediados em Santiago avisavam às redações sobre a ausência de novidades no quadro político chileno, às vésperas do golpe que, pegando a todos de surpresa, acabaria por tirar El Chicho (Allende) do poder.

Ivy Judensnaider
24/11/2007

http://www.arscientia.com.br/materia/ver_materia.php?id_materia=442

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Minha Face?!

Publicado por culturareligare em Agosto 10, 2007

Por Fran de Lima!


Começo a caminhar,mas não reconheço o lugar. Tudo é muito escuro, o solo, é como casca de ovo ,seco e quebradiço, e tem uma cor vermelha como a do barro do nordeste. O céu morbidamente parado, tem a mesma cor. Não vejo plantas, nem animais. Tenho que cobrir minha boca e meu nariz, com minha blusa, p/ não respirar a poeira cinza que vem de todos os lados. Vejo placas gigantes, que passam bem no meio da Terra,como grandes parabólicas, elas filtram o sol, tem claridade onde estão as placas, o restante é todo escuro,e como muitas coisas pelo caminho. Como panelas,pratos,objetos pessoais,retratos,malas vazias,brinquedos,dando algum sinal, de que ali,existira uma civilização. Mas qual? O que aconteceu? Para onde foram todos?Começo a gritar,minha garganta fica seca com a poeira que agora corre até no meu sangue. Sem voz,começo a procurar,mas o escuro é imenso, existem muitos morros e é muito difícil caminhar. Continuo a procurar,na esperança de que alguém me uma resposta. Me explique o porque . Depois de caminhar muitas horas ou dias, pois a noção de tempo que conheço, não existe mais. Vejo ao longe, no alto de um dos morros, algo que me parece uma pessoa. Corra em desespero, para alcançá-la. O ar me falta, tento respirar,o ar é quente como vapor de panela. Não vejo água em nenhum lugar, nem uma única árvore, para que eu possa encostar. Com muita dificuldade, continuo,em direção daquela pessoa. Ao ponto em que vou me aproximando,percebo ser uma mulher. Muito machucada,com roupas rasgadas,cabelo no rosto e uma incrível angustia. Ela olha-se,desesperada,como se procurando respostas. Seu desespero aumenta, a medida em que eu me aproximo. Sinto um peso enorme em cada passo. Não consigo entender, o pq ,meu peito está tão apertado, ao ponto em que vou chegando mais perto. Mais mesmo assim,continuo a caminhar. O céu parece baixar a cada passso, o chão, fica cada vez mais seco,como minha garganta. De repente ouço um grito horrível,desesperador. Vem da mulher. Começo correr em direção a ela, no desespero de ajudá-la. E quando me aproximo,e a toco.Sinto o céu parar,o chão tremer,e o ar me faltar aos pulmões. Toco-a nas costas,e como que por um impulso,caio de joelhos a seu lado. Com minhas mãos,num leve toque,começo a levantar seus cabelos,endurecidos pela poeira. Ela reluta,meu coração dispara. Mas eu continuo,preciso ver,quem é esse ser,e pq ele sofre tanto. Aos poucos,sua face vai sendo revelada,e o que vejo, é assustador e me tira o ar totalmente. O que vejo,é minha face,em pânico. Vejo na janela dos meus olhos,dor,fracasso,angustia e arrependimento. Caímos as duas,uma ao lado da outra,sem conseguir respirar. O céu começa a baixar,o chão começa a esquentar,e não conseguimos encontrar nenhuma saída. Fico ali,imóvel,com toda a culpa.Sem ter,nem a esperança,nem mais uma chance

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CONTRATO DE MORTE

Publicado por culturareligare em Agosto 10, 2007

Por: Wesley Vieira

A Terra é protegida por escudo danificado
Um poço às avessas foi colocado no céu
Não caímos no poço
Ele cai em nós despejando sua escuridão
Evidenciando a complicação do
homem
E
sua briga com tudo o que é natural
Furo na camada protetora dos raios violentos
Irresponsabilidade? Sim.
Irreversível? Talvez.
As
ações mostram a preocupação
E
nós não estamos tão preocupados
Fábricas são os titãs, líderes da destruição
Fumaça é seu grito e dinheiro é a ordem
Pequenos homens fazem lucro
Enquanto muitos trabalham
Injustiça em cima e debaixo dos nossos olhos
O
poço é a ignorância
E a
ignorância é a prioridade do capital e seus senhores
Num
mundo como o nosso limitaríamos o lucro?
A
cabeça de metal e concreto é colocada em julgamento
E se
torna tão primitiva o que parecia moderna
Somos
incapazes de sentir a culpa?
O
que parece obra de deus ou diabo
É
obra do homem em seu próprio apocalipse
Palavras apenas
Ignoradas
pelos alienados reis e súditos
A
Terra esquenta
Geleiras fabricam os mares que engolem terras
Desesperos brotam da própria pele
A
imagem cega os olhos
Nosso futuro é banal?
Somos
homicidas e suicidas
Mataremos a
casa e a família
Esse é o caos que insistimos em não sentir
Bomba que nasceu em cada um
Semeada
pelos titãs que governam
Carrascos vestidos de homens
Tiro o capuz
Assino o
papel e mato o irmão
O
dinheiro não compra a vida humana
Mas pode fazer seu contrato de morte.

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A nova Era

Publicado por culturareligare em Agosto 10, 2007

por Peterson Xavier

A época indefinível, a contagem dos anos não é feita, o calor é insuportável. Relâmpagos de um sombrio néon, rasgam um vermelho manchado de chumbo onde antes existia aquilo que chamávamos de céu. Um solo acinzentado se estende abaixo dos pés. Rostos brancos de seres indefiníveis, aparecem por vezes nas fendas que existem no terreno, percebe-se que estas criaturas são jovens, em sua maioria são crianças, filhotes. Filhotes brancos de uma raça clara, de peles quase transparentes possibilitando a visão de veias, artérias e em alguns pontos a circulação de um sangue escuro.
Olhos embaçados de um cinza brancacento, miram o horizonte que parece não ter fim. A língua falada foi extinta, a forma de comunicação é a dos grunhidos, dos gestos. Restos de uma civilização indicam que aquele lugar sofrera uma mudança, uma cruel e arrebatadora mudança.
Houve uma
guerra! Não entre os povos, não ideológicas, nem quente nem fria, mas uma guerra violenta que perdurou durante tempos, uma guerra suja, ácida, cruel e mesquinha, como qualquer uma, mas essa guerra fez mais vitimas do que as outras, dizimou floras e faunas, continentes inteiros foram engolidos, milhares morreram, e quase tudo foi destruído.
O
que restou foi um planeta doente e que arde em febre, 50, 60, 90 graus. Oceanos ácidos onde a vida não existe, cercam as poucas ilhas secas e cinzas que teimam em permanecer, pouca terra onde um tratado internacional foi ignorado há tempos atrás, onde os seus habitantes mais evoluídos viveram como bactérias e infeccionaram o lugar onde antes havia vida. Criaram um hematoma, um coagulo, um câncer. e nessa nova era o que sobrou foi esse mundo enfermo que não tem mais nome, onde tudo é sombrio e vazio e terrível.

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O MENINO

Publicado por culturareligare em Agosto 10, 2007

Por Wesley Vieira

Minha imaginação viaja pela pobreza dos homens.
Cores opacas, como um fim de tarde chuvoso, ocupam o espaço de qualquer alegria.
À
princípio, estava eu entre dois infinitos, íntimo de uma terra morta e céu cinza, era isso o que eu avistava e sentia.
Minhas lágrimas secavam no rosto logo que se libertavam, o calor do questionamento penetrava em meu corpo. Lentamente, outros objetos surgiam.
Daquela
terra estéril, feita da poeira da ação humana, brotava vestígios de vida. Podem ser vistos pratos quebrados, copos trincados, cachimbos, enfeites, roupas rasgadas, livros enterrados, jóias, óculos, documentos cobertos de terra. Vestígios que faziam sombra à alguma civilização, espalhados por aquela terra, sob um céu que castiga com sua cor.
Ouço
apenas uma brisa. Acompanhando essa brisa, notas ao acaso tocam a melodia do atraso.
Percebo
um menino na cena, não sei qual caminho fez, nem quando exatamente chegou, ele vestia trapos, estava sujo de terra, com olhos expressivos petrifica minha emoção, não sei porque choro, seu olhar é intenso como os dois infinitos que questionam.
Pessoas começam a chegar, eu as observo sentindo o olho do menino ainda em mim. Vejo outras pessoas com trapos, também cobertas de terra morta, são pessoas mais velhas. Seus olhos, diferentemente dos do menino, se confundiam com a terra ou os trapos. Seres vazios que perambulavam sem rumo no meio do infinito. Na medida que caminhavam, pisavam nos vestígios de alguma vida e abaixavam-se, sem reação, para pegar o objeto e usá-lo. A neutralidade forma o gesto e a mulher pega um pano rasgado que caminha no seu rosto, o velho pegava um cachimbo, enquanto o rapaz sentava-se no cadáver para ler um livro de páginas sujas e uma senhora agachava-se para pegar um óculos torto e sem lentes. Depois de alguns segundos largavam, num revezamento contínuo sem propósito algum, trocavam de objeto sem expressar emoções, apenas a escassez de qualquer sentimento.
O
menino continuava como uma estátua de olho vivo, olhar pleno, que me intimidava. Ficamos os dois, eu com minhas sensações e o menino com sua única riqueza, presos por uma linha invisível, com as pessoas sujas de terra que passavam sem nos perceber.
Eu me vejo no olho do menino e tudo o que está em volta começa a sumir formando um espaço de única cor, uma cor sem brilho e tudo o que vejo são os olhos do menino que procuravam respostas.
Minha imaginação viajou pela pobreza dos homens. O espectador que tiver visto um lugar semelhante a esse, consegue me dar alguma resposta que eu não dei ao menino?

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