Publicado por culturareligare em Novembro 2, 2007
(trecho do material enviado pela Mayara)
Cultura popular, cultura de elite, cultura de massa
Orlando Fedeli
Cultura de massa é, em nossos dias, conceito dos mais amplos, abrangendo, muitas vezes, toda e qualquer manifestação de atividades ditas populares. Do carnaval ao rock and roll, do jeans à coca-cola, das novelas da televisão às revistas em quadrinhos, tudo, hoje, pode ser inserido no cômodo e amplo conceito de cultura de massa.
Todavia, muitos dos que assim utilizam tal conceito ver-se-íam em dificuldades se indagados acerca de sua real abrangência.
Antes, porém, de estudar o que vem a ser cultura de massa, cabe perguntar: o que é cultura? O que é massa?
Povo e Massa
O Papa Pio XII, em sua célebre Radiomensagem de Natal de 1944, distinguiu magistralmente os dois conceitos.
O povo, ensina o Pontífice, é formado por indivíduos que se movem por princípios. Ele é ativo, agindo conscientemente de acordo com determinadas idéias fundamentais, das quais decorrem posições definidas diante das diversas situações .
A massa, ao contrário, não passa de um amálgama de indivíduos que não se movem, mas são movidos por paixões. A massa é sempre, e necessariamente, passiva. Ela não age racionalmente e por sua conta, mas se alimenta de entusiasmos e idéias não estáveis. É sempre escrava das influências instáveis da maioria, das modas e dos caprichos que passam.
A massa é como a areia movida pelo vento, ou o rebanho nas mãos do pastor. Movem-na apenas veleidades: o dinheiro, a facilidade, o luxo, o prazer, o prestígio.
Como animais que temem desgarrar-se do rebanho, os indivíduos que compõem a massa jamais discordam da maioria. Pergunte a um jovem se conhece determinado cantor da moda, e ele terá imensa vergonha em confessar sua eventual ignorância. Em seguida, ele procurará conhecer tal cantor, decorar suas músicas (mesmo que na verdade não as aprecie), conhecer sua história. Somente então, sentir-se-á reconfortado, pois estará finalmente “como todo mundo“.
A inserção na massa lhe impõe que se vista como os outros, que coma como os outros, que goste do que gostam os outros.
Ser, pensar, agir, estar sempre, obrigatoriamente, “como os outros” é amoldar-se inexoravelmente a esse implacável “deus” chamado “todo mundo“. É renunciar à própria individualidade, trocando-a pelo amorfo e medíocre “eu coletivo” da multidão.
Inserir-se na massa é socializar a si mesmo.
A massa é, portanto, o povo degenerado.
Pode a massa ter cultura?
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Publicado por culturareligare em Novembro 2, 2007
Eu vim da cratera norte
Pra defender
Nossos resquícios culturais (bis)
Defender nossos quintais
Feito lingüeta de fogo
Sobre lavas, sob lavras
Só pra manter
Nossos resquícios culturais (bis)
Na língua do cantado
Sanfona branca e baião
No cheiro do meu amor
Com a força Boi Barbatão!
São coisas que ainda restam
Por força do milharal
Rapadura, carne-seca, feijão verde
Plantados no meu quintal (bis)
Me dá vida que me basta
Me dá vida que me basta!
(Poema de Ray Lima )
A PALAVRA CULTURA
Cultura provém do latim medieval significando cultivo da terra.
Do verbo latino original COLO que é igual a cultivar, que juntando a cultum, forma a palavra CULTURA, que volto a dizer, no início era relativo ao cultivo da terra.
Sua transformação começa a partir da sabedoria acumulada no trato do ambiente natural e a experiência secular de pastores e agricultores acabaram conferindo ao termo cultura, o sentido de conhecimento intelectual, aplicado à ação transformadora do mundo. Por outro lado, podemos dizer que é a convicção do saber acumulado pela existência do trabalho que produz uma libertação de condicionamento.
ANTROPOLOGICAMENTE sabemos que “a cultura é o conjunto de experiências humanas adquiridas pelo contato social e acumuladas pelos povos através do tempo.
CONCEITOS
Os conceitos que iremos listar nos levarão, quem sabe, por caminhos diferentes, porém alcançando um fim comum. Assim vejamos:
Italo Calvino diz “quem somos nós? Quem é cada um de nós senão uma combinatória de experiências, de informações, de leituras e imaginações? Cada vida é uma enciclopédia, uma biblioteca, um inventário de objetos, uma amostragem de estilos, onde tudo pode ser continuamente remexido e reordenado de todas as maneiras”.
Analisando o que disse Calvino, refletimos que na realidade brasileira atual, podemos sim, ser uma biblioteca, mas uma biblioteca de livros editados e na melhor das hipóteses, editados por um único canal de televisão, ou por algumas vozes poderosas de um mesmo rádio, situado num sistema de comunicação a serviço de uma elite dominante.
Um outro conceito nos diz que a cultura é uma expressão simbólica das linguagens, da imensa diversidade que caracteriza o processo e os modos como os povos definem as suas identidades, num contexto, como o nosso, complexo, contraditório, difícil, rico, espelhado pela riqueza do saber popular, afirmamos então, que a cultura é um elemento fundamental de resgate dos valores sem os quais a experiência humana torna-se uma experiência empobrecida e amarga, por isso essa cultura deve ser solidaria, fraterna, igualitária, liberta, justa e que se contraponha à avalanche imposta pelo projeto neoliberal, que como diz o ex-prefeito petista de Belo Horizonte, Patrus Ananias “reduz o sonho humano a uma conta bancária, uma casinha de praia”.
A cultura vista desta forma, solidaria, fraterna, liberta e justa, é um instrumento de luta permanente da memória, contra o esquecimento, é abrangente, criadora e mantenedora de valores, significados, símbolos, normas, mitos, imagens, etc… presentes nas práticas cotidianas, nas instituições, movimentos, pensamentos, na arte. É uma cultura que penetra nos coletivos humanos e nos indivíduos, dos conceitos de trabalhos as emoções. Com esse sentido ela é o modo de viver, ser, fazer, pensar, sentir, simbolizar e imaginar das sociedades humanas.
Constatamos porém, que com essa diversidade ela é plural e com isso trás diferenças nos significados culturais, mas também cria certas condições que leva uma sociedade inteira a participar dessa mesma criação coletiva, quer seja através da cultura popular, da erudita, da cultura de massa ou da cultura revolucionária para a libertação, expressa através dos ritos religiosos (grandes procissões), espetáculos artísticos, movimentação política ou outros.
Porém cultura não significa tão somente esses momentos ou somente o espetáculo. Como diz Marilena Chauí “Cultura não é simplesmente a arte ou o evento”, não é área ou departamento, não é definida pela economia de mercado, é na verdade e sobretudo “criação individual e coletiva das obras de arte, do pensamento, dos valores, dos comportamentos e do imaginário.
Expresso isso, não podemos nos limitar a pensar a cultura apenas como manifestação cultural, temos que a pensar como parte da trajetória da raça humana, como a marca deixada do homem e da mulher na história do mundo, pois o ato que gera a cultura é a criação, a invenção, a transformação e trabalhar com a cultura é trabalhar com a revolução do próprio corpo, pensamento, no tempo e no espaço, a todo instante, trabalhando o momento de critica e de construção, de continuidade e percepção, porque a cultura faz com que você se olhe no espelho e se reconheça como o próximo, como o outro, como o diferente, como o igual, como o negro e o branco, trabalhando nas múltiplas possibilidades.
CULTURA POPULAR
Um conceito simples e direto diz que “cultura popular é o conjunto de experiências adquiridas, imaginadas, criadas e recriadas pela maioria, contemplando suas tradições, costumes, modos, valores, crenças, folguedos, expressões artísticas, idéias, ações do cotidiano e conhecimentos”. De uma maioria que é a massa dos trabalhadores, hoje no Brasil, a massa sem emprego, sem teto, sem terra, sem dignidade, sem cidadania. Um enorme contigente, uma pária pura, induzida e enganada pela ideologia dominante, desprovida de bens materiais, com um baixo poder aquisitivo e subordinada pela força do capital. Essa cultura com bandeiras arriadas e estandartes danificados é engolida por uma indústria cultural organizada e repressora a serviço da classe dominante, que quer, a todo custo, impor uma nova ordem, pregando, defendendo e impondo uma cultura comum, globalizada e alienante, que desrespeita a história, a tradição, os mitos e as crenças populares.
CULTURA ERUDITA
Outra cultura em discussão é a chamada erudita. Louis Porcher diz: “Não há duvida de que até uma época recente a arte (vista aqui não como produto, mas sim como cultura), sempre teve na sociedade uma conotação aristocrática, enquanto exercício de lazer e marca registrada da elite”.
É claro que a cultura, hoje dita como erudita, era na verdade a cultura popular de nossos colonizadores. Shakespeare era representado na Inglaterra, para o povo e pelo povo e lá ele era popular, era mestre como é mestre os nossos artesãos, nossos brincantes de reizados, coco-de-roda e de outros folguedos populares (vejam o filme Shakespeare Apaixonado). A comédia Del’Arte era popular no sul da Itália e na França (vejam o filme “Ciranu de Bejerac”), até mesmo no momento em que Molliere assume a sua paternidade e entregue-a a aristocracia francesa; Lopes de Veja era popular na Espanha, na época do teatro de ouro Espanhol; Gil Vicente e seus autos eram popular em Portugal e até recentemente, nesse século que se finda, Garcia Lorca era popular na Espanha com o teatro La Barraca se opondo ao Governo ditatorial e facista de Franco e Bertold Brecht era popular na Alemanha combatendo a força nazista. Essas grandes potências nos colonizaram e nos colonizam até os dias atuais, e se no passado histórico se fecharam em espaços excludentes para ritualizar e perpetuar suas culturas, enquanto os negros dançavam na senzala a capoeira e os índios festejavam suas guerras, caças e deuses da natureza, hoje usam a força dos meios de comunicação e se reúnem nos grandes supermercados culturais, que são as majestosas casas de espetáculos, teatro, casas de shows, arenas de rodeios, financiados e garantidos pelo poder público, restando ao povo, poucos deles por sinal, os sítios, beiras de praias, bairros periféricos, sem apoio, nem moral, para expressar a sua cultura.
Rubem Alves, diante disso diz: “A preservação do índio e sua cultura, a harmonia do homem com a natureza, a salvação das florestas, rios e mares, a recusa a violência, a opção pelo pacifismo – todas essas são causas derrotadas. Elas não tem chance alguma frente ao poder econômico e ao poder das armas”.
CULTURA DE MASSA
Com o surgimento do protestantismo emerge a burguesia. Até esse momento, historicamente tínhamos a cultura erudita e fechada da aristocracia decadente e a cultura popular e aberta do povo.
A burguesia que já tinha sua própria arquitetura, os burgos e sua própria religião o protestantismo mas que não tinha referencia cultural, começou a construir seu próprio espaço, os grandes teatros, pensando a cultura como mais uma mercadoria que podia aumentar o seu capital e consequentemente o seu poder de força, tirando da cultura o seu caráter lúdico e questionador, mesclando partes do erudito com o popular, roubando do povo suas expressões legitimas, modificando-as a seu bel prazer, tendo como instrumento o avanço da tecnologia e o grau de amplitude dos meios de comunicação de massa, empurrando, goela abaixo do povo, uma nova ordem cultural, uma nova e moderna cultura, uma cultura alienante e sufocante, com cheiro de povo e cara de burguesia, indo buscar os instrumentos no seio do próprio povo, oferecendo-lhes vantagens e riquezas supérfluas, apropriando-se de vez do seu maior bem e herança, transformando o próprio povo, em consumidor desse lixo cultural sem criatividade, sem compromisso, que como carimbo ou produto em série, faz o povo perder a criatividade e passar a ser apenas repetidor de movimentos, de frases indiferentes, de tchans, bundinhas nas garrafas, varrendo vassourinha, humilhando e ridicularizando um povo rico em histórias e tradições.
AÇÃO CULTURAL TRANSFORMADORA
Surge como uma opção de combate a cultura de massa e se realiza como bem expressa Paulo Freire “em oposição as classes dominantes, nascendo do seio da cultura popular negada, sendo permanentemente regida pela análise crítica dos valores, pois essa ação é transformadora e se transforma sempre”… dizemos até é camaleonica, não sendo nem “slogan” propagandeado pela mídia, como a cultura de massa, nem idealista como a cultura erudita e nem pura e inocente como a cultura popular, mas sendo sim, completa Paulo Freire (…) “uma forma radical e resistente de ser dos seres humanos, pois se expressa de forma consciente e com a necessidade do recriar para resistir”. Esta arte transformadora que se rebela se engaja e se compromete com outros movimentos sociais organizados, quer seja através da poesia, da música, das artes plásticas, do cinema, da dança, da arquitetura, do teatro e de outras formas de expressão, em busca de uma linguagem de fato popular, no âmbito de uma ação cultural emancipatória, ocupa um lugar importante com sua contribuição prática e teórica, para que possa nos dar, com base na cultura popular histórica, novos referenciais e práticas sociais.
Vemos aqui não somente o artista – homem ou mulher – mas sim a arte, a cultura, que atravessa, historicamente os povos e as gerações oprimidas, pois se somos os únicos seres vivos capazes de ouvir, ver, tocar, cheirar, sentir, sorrir, chorar, se emocionar e provocar emoções em outros, se temos esses privilégios porque não podemos nos opor as formas alienantes e escravistas da classe dominante com sua cultura enlatada, sendo empurrada alma a dentro sem nenhum respeito ao legados de nossa história e as nossa origens? A arte e a cultura é bem mais que diversão pura e simples, e deve cumprir a função social, coletiva e mobilizadora de preencher o vazio existencial próprio do ser humano, pois como diz Augusto Boal, …”só teremos de fato e direito uma cultura popular, quando o povo dominar os meios de comunicação”…
Sabemos que esta é uma conversa sem fim, dinâmica como a própria vida, onde qualquer unanimidade é burra e nenhuma unanimidade é possível. No entanto devemos e temos o direito de saber e reproduzir, que no mundo globalizado que ora se instala e se amplia, só sobreviverão os países onde a cultura seja elemento preponderante de evolução e crescimento e não apenas peças ornamentais e lucrativas de discursos vazios e improdutivos dos dominantes.
Para refrescar o caos e pensar na eternização dos nossos valores, evocamos Chico Cesar que canta: “O CARNEIRO SACRIFICADO MORRE, O AMOR MORRE, SÓ A ARTE NÃO”!.
Aracati, 28 de novembro de 1999
Júnio Santos
FONTES PESQUISADAS
Revista Palavra – nº 04 – junho de 1999.
Revista Polis – nº 22 de 1995.
Paulo Freire e seu livro “Ação Cultural Para a Liberdade” – 7ª edição.
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